Consultas da indústria ao BNDES caem 57,5%

Economistas vêem recuo como resultado da crise; banco diz que comparação está distorcida

Alberto Komatsu, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

A medida da trava em novos projetos industriais depois do agravamento da crise financeira pode ser verificada no baque de 57,52% nos pedidos de financiamento do setor ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em novembro. Para economistas, a forte queda em relação ao mesmo mês do ano passado reflete a cautela dos empresários.O BNDES argumenta que o resultado está distorcido pelo segmento de mineração, no qual as consultas de empréstimos caíram mais de 80%. De qualquer modo, o saldo geral vem sendo favorecido pelas consultas de projetos de infra-estrutura, que cresceram 118,21% na mesma base de comparação."Temos de entender essa crise com calma. Ela veio muito forte, então, é natural que qualquer empresário tenha segurado novas consultas, até para visualizar o quadro futuro", avalia Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor de economia da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.O chefe do Departamento de Prioridades do BNDES, Caio Márcio Pinhão, afirma que o desempenho das consultas da indústria foi mascarado pelo financiamento de R$ 7,3 bilhões para investimentos correntes da mineradora Vale, cuja consulta foi feita em novembro de 2007. Segundo Pinhão, se esse empréstimo fosse excluído, o resultado das consultas da indústria em novembro teria sido positivo. A indústria extrativa, incluindo Vale, apresentou o maior recuo nas consultas ao BNDES, de 86,69% em novembro, na comparação com o mesmo mês de 2007. Em seguida estão as empresas têxteis e de vestuário, com queda de 75,92%. De nove setores industriais, apenas três aumentaram os pedidos ao BNDES no mês passado: química e petroquímica (800,7%), mecânica (108,23%) e alimentos e bebidas (81,06%). Indagado se esse resultado exprime o impacto da crise, Pinhão disse que não pode fazer essa relação. "A gente não pode afirmar nada neste momento com relação à queda. O banco, este ano, apresentou um crescimento muito grande em novembro. A gente tem de olhar o agregado; é muito difícil uma análise num mês pontual."Gomes de Almeida tem avaliação diferente. "Essa crise vai afetar todos os setores, mas aqueles muito exportadores, mais vinculados a preços internacionais de commodities, estão sofrendo mais".ACUMULADODe janeiro a novembro, as consultas da indústria extrativa ao BNDES recuaram 65,5%. Nos setores de química e petroquímica, a queda foi de 18,53%. Os nove setores industriais considerados pelo BNDES acumulam crescimento de 23,02% nas consultas no período de 11 meses de 2008, com um total de R$ 61,5 bilhões. No total geral, os pedidos de financiamento cresceram 38,9% no período, ou R$163,6 bilhões. Levando-se em conta apenas novembro, as consultas totais ao banco tiveram queda de 21,68%. Segundo Pinhão, extraída a consulta da Vale, o resultado seria positivo em 56,49%.

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