Consultoria da ANP avalia preço do barril do pré-sal entre US$ 10 e US$ 12

Valor fica distante dos US$ 5 a US$ 6 calculados pela contratada da Petrobrás e governo já admite possibilidade de adiar capitalização da estatal

Kelly Lima, Leonardo Goy, Vera Rosa, Renato Andrade e Lu Aiko Otar, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

RIO E BRASÍLIA

O preço de cada barril das reservas que a União vai repassar à Petrobrás no processo de capitalização foi avaliado entre US$ 10 e US$ 12 pela certificadora Gaffney, Cline & Associates (GCA), contratada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Segundo fontes de mercado, o valor é bem superior à avaliação contratada pela estatal, que chegou a uma faixa entre US$ 5 e US$ 6 por barril.

O laudo da GCA deve ser entregue oficialmente à ANP hoje, mas ontem os valores foram tema de uma reunião conciliatória, realizada em Brasília, entre estatal, ANP e ministérios envolvidos. O valor estipulado pela GCA é considerado excessivamente alto e poderia inviabilizar o processo.

 

Valor questionado. Sérgio Gabrielli: tenativa de conciliação              

 

Diante de tantas incertezas, há uma divisão no governo sobre a conveniência de manter o cronograma da Petrobrás, que prevê concluir a operação até o dia 30 de setembro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confidenciou a auxiliares que, se não estiver convencido de que o negócio renderá o máximo ao Tesouro, será melhor adiá-lo para depois da eleição.

Na reunião de ontem, estiveram presentes o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, além de representantes da ANP e do Ministério do Planejamento. O objetivo era chegar a um valor não tão elevado quanto o proposto à ANP nem tão baixo quanto o que será apresentado pela Petrobrás, calculado pela consultoria De Golyer and McNaughton .

"Em tudo que se refere à capitalização está havendo muito barulho. Isso atrapalha. Melhor deixar o processo ocorrer naturalmente", comentou ontem o ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, dizendo desconhecer a discussão sobre eventual adiamento. Do ponto de vista geológico, diz um especialista, as reservas poderiam ser vendidas por um valor em torno dos US$ 10 por barril, mas o mercado não seria capaz de absorver mais do que US$ 8.

O Palácio do Planalto quer evitar qualquer discussão que empurre a polêmica para o colo da candidata à Presidência, Dilma Rousseff. No caso, pode haver questionamentos sobre a perda de dinheiro para os cofres públicos. Ex-chefe da Casa Civil, Dilma sempre defendeu a capitalização da Petrobrás, mas travou várias batalhas com a companhia após a descoberta do pré-sal.

"A decisão é política", disse ao Estado um ministro que participa das reuniões sobre o negócio. As reservas que a Petrobrás vai adquirir da União situam-se numa área chamada de Franco, no pré-sal da Bacia de Santos. A diferença de preços das duas consultorias é resultado, em linhas gerais, de conceitos técnicos distintos para a interpretação geológica da área.

PARA LEMBRAR

A capitalização da Petrobrás, cuja conclusão foi adiada de julho para setembro, tem como objetivo garantir musculatura financeira para a empresa investir no pré-sal. Em assembleia de acionistas, a empresa aprovou a emissão de novas ações em até R$ 150 bilhões. O governo comprará sua parte com o dinheiro arrecadado com a venda de até cinco bilhões de barris do pré-sal, cujo valor está sendo negociado pelas partes envolvidas.

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