Consultoria vê risco de racionamento de 17,5%

Estimativa é da PSR, que aponta deficiências estruturais no sistema, e consta de relatório intitulado 'Piti do mercado ou lentes cor-de-rosa do governo?'

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2014 | 02h02

A probabilidade de o Brasil ter de decretar um racionamento este ano - com corte de carga superior a 4% - é de 17,5%. A estimativa consta do relatório Energy Report, da Consultoria PSR, intitulado "Piti do mercado ou lentes cor-de-rosa do governo?". No documento, a empresa faz simulações com base em dados oficiais de oferta, demanda e hidrologia usados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) em fevereiro.

Com as informações em mãos, os cálculos foram repetidos para 1.200 cenários de afluências durante 2014. O resultado é o retrato da situação atual, considerada séria, mas que pode mudar radicalmente se as condições hidrológicas melhorarem. O fator decisivo serão as águas de março. Se chover bem, o governo mais uma vez sairá ileso. Se não chover, terá de encontrar alternativas rápidas para o problema.

Mas, apesar da dependência de São Pedro, o risco de racionamento não foi causado pela hidrologia desfavorável e demanda elevada, na avaliação da PSR. A vulnerabilidade do sistema é consequência de deficiências estruturais na capacidade de suprimento. "Essas deficiências foram detectadas em 2010, quando o ano começou com um dos melhores níveis de armazenamento da história e terminou com um dos piores", apesar de a oferta ter sido maior que a demanda, observa o relatório.

Em 2012, ocorreu o mesmo esvaziamento dos reservatórios e a consultoria alertou para a vulnerabilidade do sistema em situações moderadamente desfavoráveis. Além disso, os dados sobre recordes de demanda não podem ser usados como desculpa. Segundo o relatório, há uma sutileza nos números: em julho de 2013 houve a integração de Manaus ao Sistema Interligado Nacional. Portanto, se comparar a demanda de janeiro deste ano com janeiro do ano passado, haverá uma discrepância.

Outra explicação da PSR é que, em setembro do ano passado, o ONS já previa uma demanda próxima ao que vem sendo verificado agora. Portanto, não foi surpresa. "O sistema elétrico foi desenhado para uma hidrologia pior do que a atual e uma demanda maior", afirmou uma fonte do setor.

Reserva. Um alerta feito pelo relatório da PSR é a capacidade de geração para atendimento à demanda máxima. Segundo a consultoria, a reserva mínima adotada no mundo todo é de 5%. Com 3%, muitos países já estariam cortando carga. O problema é que, em vários dias de janeiro, esse porcentual ficou na casa de 0,8%. "Isso pegou muita gente de surpresa e até agora não se consegue entender por que essa reserva caiu tanto", explicou uma fonte.

Hoje, a potência instalada do País é de cerca de 121 mil MW, e a demanda é de 86 mil MW. Ou seja, haveria reserva de sobra no País, mesmo considerando equipamentos em manutenção ou unidades fora de operação. Mas, em 29 de janeiro, por exemplo, o total de reserva (girante) era de 680 MW enquanto a necessidade era de 4.200 MW. A queda dessa reserva pode provocar blecaute com efeito dominó e apagar todo o País.

Procurado, o Ministério de Minas e Energia afirmou, por meio de nota, que o fornecimento de energia do País está assegurado, em quantidade e qualidade necessárias ao adequado atendimento de todos os consumidores. "Graças à forte expansão da capacidade de geração e transmissão, o sistema elétrico tem equilíbrio estrutural entre oferta e demanda, o que representa segurança para o abastecimento do País."

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