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Renata Thiébaut: 'São vários segmentos com potencial na China, basta saber as tendências'. Divulgação

‘Consumidor chinês está à procura de produtos de nicho’, diz pesquisadora Renata Thiébaut

Consultora especializada no varejo chinês diz que produtos como alimentos, bebidas, produtos de beleza e moda são alguns dos segmentos de maior potencial para empresas brasileiras

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 20h37

Especializada no mercado chinês, a pesquisadora e consultora Renata Thiébaut trabalha há 15 anos prestando assessoria a governos sobre como atuar no varejo da China. Autora de um estudo que identifica as oportunidades e os desafios para as empresas brasileiras no e-commerce chinês, ela aponta que o Brasil poderia explorar melhor o canal de vendas online no país asiático. Segundo ela, produtos como alimentos, bebidas, produtos de beleza e moda são alguns dos segmentos de maior potencial. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Em seu estudo, você identificou milhares de produtos com a marca “Brasil” vendidos no e commerce chinês, mas não necessariamente por empresas brasileiras. Existe um mercado em potencial que está sendo desperdiçado?

Os maiores marketplaces da China trazem produtos com (o termo) “do Brasil” no título, por exemplo, castanha do Brasil, café do Brasil, açaí e queratina, que são popularmente conhecidos como produtos brasileiros. Embora esses produtos sejam em sua grande maioria provenientes do Brasil, eles são comercializados por marcas europeias e chinesas. A marca mais vendida de açaí é a Purasana da Bélgica, e as marcas campeãs de vendas de café brasileiro não são brasileiras. O Brasil acaba perdendo uma grande oportunidade com esse mercado já existente e conhecimento sobre certos produtos provenientes do país.

Qual seria o tamanho desse mercado?

Embora seja difícil estimar o tamanho desse mercado como um todo, o estudo traz dados pinhões brasileiros têm uma média de vendas de 2 milhões de yuans (US$ 0,31 milhão, R$ 1,60 milhão) ou 14.000 unidades vendidas por mês no TMall e mais ou menos a mesma quantidade no JD.com, para dar um exemplo. 

Como as empresas brasileiras poderiam se beneficiar aumentando a presença no e-commerce da China?

Como marcas de outros países acabam vendendo produtos com ingredientes típicos do Brasil, eles acabam se beneficiando não só monetariamente, mas também sendo reconhecidas com produtos com esses ingredientes através de um melhor estabelecimento da marca no mercado chinês. As marcas brasileiras teriam essa vantagem de se estabelecerem com ingredientes e produtos de seu país criando uma narrativa que faça mais sentido para o consumidor chinês, pois hoje, na China, o conteúdo é muito importante na promoção de uma marca.

Quais são os produtos ou segmentos de consumo com maior potencial?

O consumidor chinês, principalmente a geração Z, está à procura de produtos nicho, o que é uma excelente notícia para marcas especializadas e marcas menores. O consumidor tem um maior conhecimento sobre os benefícios de certos ingredientes, principalmente em relação a produtos de beleza e suplementos para a saúde. O aumento nas vendas de produtos orgânicos e a base de plantas também foi considerável com a pandemia. São vários segmentos com potencial na China, basta saber as tendências, as preferências do consumidor para uma maior adaptabilidade, e também quais segmentos que não são tão explorados por marcas importadas. O estudo cobriu bastante essa temática e identificou que atualmente são poucas marcas de tratamento capilar com queratina brasileira que exploram o mercado chinês e produtos para unha de gel.

Para empresas que nunca atuaram no mercado chinês ou asiático, por onde elas deveriam começar?

O estudo trouxe um passo a passo para as empresas, e o primeiro passo é trabalhar a elaboração da estratégia de entrada no mercado chinês para a definição do melhor modelo de negócios, em qual o marketplace vender os produtos, quais produtos vender, e vários outros tópicos que desenvolvemos antes de uma marca vir para China. Várias marcas internacionais inclusive de grande porte adotam a mesma estratégia global no mercado chinês e não obtém sucesso principalmente devido a falta de elaboração dessa estratégia 100% voltada para o mercado chinês.

Qual seria o efeito na balança comercial brasileira? 

Vários governos começaram a desenvolver diretrizes de e-trade reconhecendo a importância e facilitação da exportação de produtos de uma forma mais simplificada comparada ao modelo tradicional de exportação. Com uma maior exploração do e-trade através de parcerias públicas e privadas, sem dúvida haverá um impacto significativo na balança comercial brasileira.

Vê oportunidade para diversificar a pauta de exportações para a China, hoje muito concentrada em minério de ferro, soja e petróleo?

Hoje, a pauta de exportações para a China é sim muito concentrada em minério de ferro, soja e petróleo, porém vimos um aumento de vendas de carne, por exemplo, que é um bom produto a ser vendido via e-commerce. A Sadia recentemente lançou uma loja no Tmall, marketplace do Alibaba. Outros produtos na pauta de exportação brasileiras que podem ser exploradas no e-commerce são suco de laranja congelado (com 57 milhões de dólares vendidos para a China em 2020), café (24 milhões de dólares), lagosta congelada (11 milhões de dólares), pedras preciosas (5 milhões de dólares), sapatos (5 milhões de dólares) além de vários tipos de oleaginosas.

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Brasil desperdiça oportunidade no e-commerce da China e até açaí é vendido por empresa da Bélgica

Estudo do Conselho Empresarial Brasil-China mostra que empresas estrangeiras usam a marca do Brasil para oferecer produtos no e-commerce chinês, um mercado que movimenta US$ 2,3 trilhões e tem potencial de ser explorado por companhias brasileiras

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 20h35
Atualizado 26 de janeiro de 2022 | 22h31

Sem realizar investimentos para tornar suas marcas mais conhecidas na China, o Brasil tem desperdiçado a chance de aumentar as exportações para o país asiático ao explorar de forma tímida o comércio eletrônico chinês. As vendas online representam cerca de 25% do varejo no país, e movimentam US$ 2,3 trilhões ao ano. Apesar de o mercado chinês ser vasto, as marcas e produtos brasileiros ainda têm uma presença fraca no ambiente digital do país. 

Essa é a principal constatação do relatório “As Oportunidades e os Desafios para Empresas Brasileiras no Maior Mercado de E-commerce do Mundo publicado nesta quarta-feira, 26, pelo Conselho Empresarial Brasil-China

O estudo, coordenado pela pesquisadora Renata Thiébaut, identificou cerca de 10 mil produtos que utilizam o termo “Brasil” nas principais plataformas de comércio eletrônico na China (Taobao, Tmall e Tmall Global, da empresa de internet Alibaba). Segundo o levantamento, esses produtos movimentam mais de 2 milhões de unidades ao mês, somando o equivalente a R$ 43,7 milhões em vendas. Entre eles, estão produtos como pedras preciosas, castanhas e nozes, café, madeira, sapatos, ração e até animais de estimação, como tartarugas. 

O relatório aponta, no entanto, que esses produtos são vendidos na maioria das vezes por empresas estrangeiras. O açaí em pó é vendido por uma empresa da Bélgica. O “pinhão-brasileiro” é vendido por companhias dos Estados Unidos e da China. O grão de café é importado e vendido por marcas chinesas. 

“Como marcas de outros países acabam vendendo produtos com ingredientes típicos do Brasil, elas acabam se beneficiando não só monetariamente, mas também sendo reconhecidas com produtos com esses ingredientes através de um melhor estabelecimento da marca no mercado chinês”, diz a pesquisadora e consultora Renata Thiébaut, especializada no varejo chinês. “As marcas brasileiras teriam a vantagem de se estabelecerem com ingredientes e produtos de seu país criando uma narrativa que faça mais sentido para o consumidor chinês, pois hoje, na China, o conteúdo é muito importante na promoção de uma marca.”

Diversificação das exportações

As exportações do Brasil para a China saíram de US$ 2 bilhões, em 2001, para US$ 87,7 bilhões no ano passado, de acordo com dados do Ministério da Economia, e a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil ao longo dos últimos 20 anos. No entanto, a maior parte desse valor (US$ 69,7 bilhões) é concentrada em apenas três produtos: minério de ferro (US$ 28,3 bilhões), soja (US$ 27,2 bilhões) e petróleo (US$ 14,2 bilhões). 

A aposta no e-commerce, portanto, seria uma das medidas possíveis para aumentar a diversidade de produtos brasileiros exportados para a China e também uma maneira de vender mais bens manufaturados para o país asiático. 

O estudo identifica três áreas de maior potencial para as empresas brasileiras: alimentos e bebidas (em especial os orgânicos e a base de plantas, que promovem um estilo de vida mais saudável), produtos de beleza e moda. De acordo com o estudo, esses são segmentos de consumo já bastante explorados por empresas no mercado brasileiro. Por isso, podem usar a experiência e a competitividade para ganhar espaço também na China, explorando o fato de serem marcas brasileiras. 

Alguns exemplos óbvios são o café, a carne e o açaí, mas o estudo também identifica oportunidades para fabricantes de outros bens, como produtos lácteos, sucos, vinhos, biscoitos, doces e salgados, além de marcas de roupas e acessórios e de linhas de beleza. 

“O consumidor chinês, principalmente a geração Z, está à procura de produtos nicho, o que é uma excelente notícia para marcas especializadas e marcas menores. O consumidor tem um maior conhecimento sobre os benefícios de certos ingredientes principalmente em relação a produtos de beleza e suplementos para a saúde”, diz Renata Thiébaut. 

Entretanto, a pesquisadora aponta que, antes de explorar o mercado chinês, é preciso entender o funcionamento das plataformas online do país, implementar uma estratégia de vendas e conhecer a fundo as tendências de consumo no país. 

“O primeiro passo é trabalhar a elaboração da estratégia de entrada no mercado chinês para a definição do melhor modelo de negócios, em qual o marketplace vender os produtos, quais produtos vender, e vários outros tópicos que desenvolvemos antes de uma marca vir para China”, afirma. 

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