Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Consumidor demora a perceber começo de alívio no câmbio

Com exceção de preços de combustíveis, demais produtos importados não devem ficar mais baratos no curto prazo

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 05h00

O dólar pode até estar se acomodando em um patamar mais próximo dos R$ 5 nas últimas semanas, mas o consumidor brasileiro ainda deve demorar a sentir um alívio nos preços de produtos e insumos importados, mesmo que a moeda americana consiga se fixar no novo nível. No caso do exportador e importador, os efeitos só devem ser sentidos nos próximos contratos firmados após a queda do câmbio.

A moeda norte-americana, que chegou a bater em R$ 5,77 no fim de outubro, começou a experimentar um ciclo de quedas e acumula desvalorização de 6,84% no último mês. Nos preços de importados, porém, esse efeito pode demorar até cinco meses para aparecer.

No início da recuperação da economia após o pior momento da pandemia do novo coronavírus, a inflação, sobretudo dos alimentos, tem pesado bastante no bolso das famílias. Em novembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,89%. A alta acumulada dos alimentos de janeiro a novembro alcançou 12,14%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Como o dólar interfere em diversos preços – do trigo aos combustíveis –, a queda da cotação da moeda aumenta a expectativa de um alívio na inflação.

O economista da LCA Consultores Fabio Romão, porém, avalia que as quedas recentes do dólar devem começar a aliviar a alta de preços no atacado, mas ainda vão demorar a chegar nos preços para o consumidor.

Ele estima que os efeitos do dólar mais fraco podem começar a aparecer no próximo Índice Geral de Preços -10 (IGP-10), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mas ainda de forma discreta e influenciado por outros efeitos, como o aumento da cotação do minério de ferro.

“Os preços agropecuários têm perdido força, sobretudo milho e soja. Mas tudo isso, obviamente, no atacado. No varejo, o efeito do dólar demora. A nossa estimativa é que o próximo IGP-10 seja de 2,01%, vindo de alta de 3,51% em novembro.”

Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), lembra que leva um tempo para que a redução do câmbio chegue ao preço da maioria dos produtos, sobretudo eletrônicos, que são bens duráveis e estocáveis.

“É preciso uma nova rodada de encomendas de importados para que o consumidor sinta no preço final o efeito. A população deve começar a sentir os efeitos do câmbio por meio de produtos cujo estoque é renovado rapidamente, como os combustíveis e alguns alimentos.”

Ele ressalta, no entanto, que a queda do dólar não deve baratear os preços dos produtos natalinos. “Os produtos de fim de ano já foram encomendados, no período de agosto e setembro. O dólar, na época, estava na casa dos R$ 5,60, cerca de 30% mais alto do que no período em que foram negociados as importações do Natal de 2019.”

Indústria e agronegócio

Presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro diz que o dólar não terá impacto nas commodities. “A safra de soja está toda vendida para 2021 e a de 2022 já foi, em parte, negociada. Para quem vende ou compra produtos, mais importante que um dólar baixo é um câmbio sem tanta volatilidade.”

Ele acrescenta que, no caso da indústria, o câmbio prejudica a exportação de manufaturados, mas que elas já estavam em uma situação difícil por conta das dificuldades enfrentadas pelos países da América Latina, principais destinos dos produtos brasileiros. 

 

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