Felipe Rau/Estadão
Setor imobiliário vive digitalização intensa Felipe Rau/Estadão

Consumidor já compra imóvel ‘às cegas’

Startups registram alta de vendas pela web; negócios são fechados até sem visita física

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

03 de julho de 2021 | 23h59

Mais de um ano de pandemia e isolamento social quebraram muitos tabus dos brasileiros em relação ao comércio online. Se antes havia algum tipo de receio de comprar um item de vestuário e se frustrar, porque a roupa não caía bem, por exemplo, hoje até imóvel está sendo comercializado digitalmente. Detalhe: sem que o comprador tenha visitado fisicamente a casa ou o apartamento antes de bater o martelo.

A mudança no comportamento do consumidor é muito recente, mas significativa a ponto de chamar atenção até mesmo das imobiliárias virtuais.

Levantamento feito pela Apê11, startup especializada na compra e venda de imóveis pela internet na cidade de São Paulo, mostra, por exemplo, que 63% das propostas para aquisição de imóveis recebidas pela empresa em maio deste ano foram totalmente digitais, sem a interação humana. E destas propostas, 12% viraram negócios efetivamente fechados, metade deles sem que o comprador tivesse posto ao menos uma vez o pé na propriedade.

“Para mim, esse resultado foi uma surpresa: imóvel vendido pelo e-commerce como café em pó ou calça jeans”, compara o sócio-diretor da Apê11, Leonardo Azevedo. Ele diz que esse comportamento de compra ganha relevância especialmente porque o imóvel é a aquisição mais importante para a maioria das pessoas. A sua empresa, que começou a funcionar em 2019 no mundo virtual, sempre teve como meta digitalizar o máximo possível a transação. “Mas éramos um pouco céticos de que a operação poderia ser 100% digital”, admite.

Propostas 100% digitais no total de ofertas recebidas pela imobiliária começaram aparecer em fevereiro deste ano e, na época, representavam 21% do total. Daí para frente o volume só foi crescendo mês a mês.

A proposta é uma oferta firme para compra, onde constam o valor a ser pago, a condição de quitação e a origem dos recursos. O caminho normal das negociações para compra em imobiliárias digitais é, depois de um primeiro contato virtual por meio de fotos e vídeos, que o comprador inicie o diálogo com o corretor e visite fisicamente o imóvel antes de formalizar a oferta.

Também o QuintoAndar, startup de tecnologia que começou a operar em 2013 focada na locação de imóveis e no ano passado expandiu para compra e venda, captou nos últimos meses o avanço do e-commerce de imóveis sem a visita presencial. Uma em cada quatro cidades onde a startup atua com vendas de imóveis tiveram algum caso de negócio fechado sem visitação. A maior parte desse tipo de transação ocorreu em 19 bairros, de diferentes perfis, da capital paulista e espalhados pelos quatro cantos da cidade: Vila Mazzei, na zona norte, Consolação e jardins na região central, Vila Prudente, na zona leste, chegando a Vila das Mercês e ao Portal do Morumbi, na zona sul, por exemplo.

Além do empurrão dado pelo isolamento imposto pela pandemia que levou o comprador a evitar o contato presencial, Arthur Malcom, head de compra e venda do QuintoAndar, diz que a transparência de dados sobre os imóveis para locação disponibilizada pela sua plataforma abriu caminho para o fechamento de negócios de compra e venda totalmente digitais.

“O cliente que compra para investir quer muito menos visitar o apartamento e muito mais entender o potencial de retorno do negócio”, afirma o executivo. Na sua avaliação, quanto maior for a oferta de informações claras sobre o produto, mais o comprador ganha confiança para fechar o negócio sem visitar o imóvel.

Perfis

Apesar deste tipo de compra ser mais viável para investidores, teoricamente frios, focados na renda de aluguel e na valorização do próprio ativo, há também outros perfis de compradores que buscam esse tipo de transação.

Azevedo cita o comprador que procura uma moradia e já teve alguma relação de proximidade com o imóvel no passado, como um parente ou amigo que já moraram no condomínio ou em algum prédio próximo. Existem também, segundo ele, aqueles que passam na frente de um prédio em construção, onde o estande de vendas foi desmontado, e optam pela compra pela localização do empreendimento.

Imobiliárias digitais não revelam números absolutos do total de transações sem visita física dos imóveis pelo comprador, mas alguns indicadores permitem traçar um perfil dos interessados. No primeiro semestre deste ano, 74% dessas transações realizadas pela Apê11 tiveram como finalidade moradia e 26%, investimento.

No QuintoAndar, dos imóveis negociados sem que houvesse uma visita prévia, 92% envolveram apartamentos e estúdios/quitinetes. O restante foi de casas dentro e fora do condomínio. Também mais da metade (55%) dos negócios foi fechada por homens e a concretização desse tipo de compra foi 10% mais rápida comparada a uma transação usual que envolve visita presencial.

Já a Loft, startup de compra e venda de imóveis, diz que, na maioria dos casos, seus clientes utilizam ferramentas digitais para fazer uma pré-seleção dos imóveis antes de visitar presencialmente os que mais lhe interessam.

Claudio Hermolin, vice-presidente de Intermediação Imobiliária e Marketing do Secovi-SP, o Sindicato da Habitação, explica que a entidade não tem dados sobre essa nova modalidade de venda. “É algo recente, ainda não há um volume grande”, pondera. Mas, essa forma de transação que começou com pandemia, na sua avaliação, deve continuar quando a vida voltar ao normal. O motivo apontado pelo especialista é que as pessoas confiam cada vez mais na visita virtual e na transparência de dados que veio com a  tecnologia.

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‘Fechei a locação sem ter visitado o apartamento’

Boa experiência em alugar imóvel com visita virtual dá confiança para compras totalmente digitais

Márcia de Chiara, O Estado de S. Paulo

03 de julho de 2021 | 23h59

A boa experiência de alugar um apartamento só a partir de fotos e de uma visita virtual e o imóvel corresponder ao que foi anunciado nos sites imobiliários está dando confiança às pessoas para irem às compras de forma totalmente digital. O analista de sistemas Michel de Souza, de 32 anos, é um desses novos consumidores do e-commerce imobiliário. “O apartamento que eu moro hoje é alugado, um fechei a locação sem nunca ter visitado e foi exatamente o que eu tinha visto no site”, conta.

O aluguel do apartamento onde mora desde agosto do ano passado, num bairro central da capital paulista, vai ficar inviável a partir do mês que vem por causa da explosão do IGP-M, que já acumula alta de mais de 35% em 12 meses, o indicador que baliza os reajustes da locação. A sinalização é de que o aluguel suba entre 15% e 20%. “Mesmo assim é muito, porque o meu salário teve correção de 2%.”

Preocupado com a situação, Souza começou a procurar pela internet apartamentos novos para compra que seriam entregues neste ano, a fim de se livrar do aluguel. Encontrou um imóvel na Lapa, de 30 metros quadrados, com sala, varanda, cozinha integrada e entrega prevista para outubro.

Fez um tour virtual, entendeu a planta, segundo ele, muito simples. “O máximo que eu fiz, para não falar que não visitei, foi passar de carro depois das 10 da noite, na frente do prédio”, conta. A intenção foi conhecer as ruas vizinhas, pois costuma sair nesse horário para passear com os cachorros.

Com base nessas informações, ele fez uma proposta virtual e fechou o negócio. Vai pagar R$ 236 mil pelo apartamento, financiado em 25 anos. Souza diz que não tem receio de encontrar algo diferente na hora de receber as chaves. “Não tem mistério, já moro num apartamento quase do mesmo tamanho. Só não tem varanda.”

Da mesma geração de Souza, que é antenada em tecnologia, o supervisor de vendas Diego Andreolli da Silva, de 35 anos, casado e sem filhos, é outro adepto do e-commerce de imóveis.

De mudança de Brasília (DF) para São Paulo, ele alugou em fevereiro um apartamento de 52 metros quadrados  sem nunca ter visitado fisicamente, só por imagens de vídeo. “Quando peguei a chave e fui abrir a porta pensei: meu Deus do céu, o que eu vou encontrar? E estava exatamente  conforme eu tinha visto no vídeo”, conta.

Quatro meses depois, com a vida mais estabilizada, Silva decidiu sair do aluguel e comprar um imóvel. “A experiência do aluguel me fez acreditar a ponto de eu procurar outra casa virtualmente para comprar”, diz ele.

Depois de procurar, Silva não teve de ir muito longe. Acabou fazendo uma oferta para o locador e comprou o apartamento onde já mora. Agora, não terá de enfrentar o frio na barriga na hora de pegar as chaves.

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