'Consumidor teve muitas tentações'

Crédito fácil e redução de impostos ajudaram

MÁRCIA DE CHIARA, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h09

Com uma dívida não paga de R$ 5 mil, o bancário Jones Bernardo Lima, de 27 anos, diz que o principal motivo que o levou à inadimplência foi ter emprestado o nome para o ex-cunhado para comprar uma motocicleta. Além disso, teve problemas de cobrança indevida com uma operadora de celular e com um curso de inglês.

"As dívidas viraram uma bola de neve", disse ele, que na última sexta-feira foi ao Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), no centro da capital paulista, para saber o tamanho das dívidas.

Com renda mensal na faixa de R$ 1 mil e pagando aluguel, ele contou que não tem reserva financeira para emergências como essas. Vai tentar fazer um acordo com os credores e parcelar o pagamento da dívida em suaves prestações. A intenção é regularizar a situação financeira para poder se habilitar à compra da casa própria.

"Nos últimos meses, o consumidor passou por muitas tentações", diz a economista da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, Fernanda Della Rosa. Ela enumera seis pontos que jogaram a favor do aumento do calote: compras parceladas de Natal e do começo, megaliquidações, perspectiva do fim da isenção do IPI sobre eletrodomésticos em março, posteriormente renovada, aumento da compra de imóveis no primeiro trimestre e, finalmente, uma nova rodada de benefícios fiscais do governo para impulsionar o consumo, como corte do IPI para veículos e liberação do compulsório sobre depósitos a prazo.

A combinação perversa desses fatores se traduziu como aumento do calote. Na Lojas Cem, por exemplo, a inadimplência está em 5,5% dos créditos a receber e subiu 0,5 ponto porcentual desde o início do ano. "Esse indicador deve se manter nesse patamar nos próximos meses e recuar só no fim do ano porque o endividamento está alto", diz o supervisor- geral, José Domingos Alves.

Por enquanto, ele não se diz preocupado com o calote porque o desemprego está em queda. Mas ressalta que esse obstáculo interfere no ritmo de crescimento de vendas, que hoje é de um dígito, mas que poderia ser maior.

"A redução das taxas de juros ao consumidor ainda não foi um acelerador de crédito na velocidade que gostaríamos. Acreditamos que o motivo é o grau de endividamento do consumidor", afirma o diretor de Vendas da Lojas Colombo, César Siqueira Anderson. Ele conta que enquete feita pela rede com os inadimplentes revela que quase a metade (43%) aponta dívidas superiores à renda familiar como motivo de deixar de pagar o crediário em dia. A falta de liquidez é tamanha que eles estão dispostos a devolver o produto para abater a dívida.

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