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Consumo consistente

Famílias fizeram ‘poupança precaucional’ por causa da piora do mercado de trabalho

Fernando Dantas *, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2017 | 05h00

No 2.º trimestre deste ano, o consumo das famílias cresceu 1,4% em relação ao 1.º trimestre, na série que elimina as variações sazonais. É um senhor ritmo de crescimento, equivalente a uma taxa anualizada de 5,5%. Foi o melhor desempenho desde o 1.º trimestre de 2014, e mais ainda se for considerado que todos os resultados trimestrais do consumo das famílias em 2015 e 2016 foram negativos (no 1.º trimestre de 2017, ficou em zero).

É essa volta dos brasileiros ao consumo a principal razão para o aumento do otimismo dos analistas em relação à retomada da economia. O investimento ainda anda devagar, mas é normal que, com tanta ociosidade, as empresas só pensem em aumentar a capacidade produtiva quando a recuperação do consumo estiver mais avançada.

A grande questão, portanto, é saber se as famílias vão manter o pique de compras, ou se o bom resultado do 2.º trimestre foi só o chamado “ponto fora da curva”, talvez em função da liberação de dinheiro das contas do FGTS, cujos efeitos obviamente se exaurem em algum tempo.

A boa notícia é que há motivos para crer que o embalo do consumo não é apenas um entusiasmo passageiro. Julio Mereb, economista do Ibre/FGV, nota que há um movimento inversamente proporcional entre o “índice de condições financeiras das famílias” e o chamado “varejo ampliado” da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), que inclui materiais de construção e automóveis, motos e peças.

O índice de condições financeiras das famílias é uma combinação de diversos indicadores de crédito às pessoas físicas, endividamento, taxa real de juros, sondagem de confiança e risco Brasil. Quanto mais alto, mais apertadas são as condições financeiras das famílias, e vice-versa. O nível zero é neutro.

No pior momento, em janeiro de 2016, o índice de condições financeiras das famílias atingiu um pico de 6,0, enquanto o varejo ampliado apresentava uma queda (em relação ao mesmo mês do ano anterior) de 14%. De lá para cá, o primeiro índice caiu paulatinamente até -0,4 em julho, enquanto o varejo ampliado melhorou até uma alta de 5,8% no mesmo mês, comparado a julho de 2016. “A progressiva melhora do varejo, simultaneamente à melhora da situação financeira das famílias, mostra que há fundamentos mais consistentes na recuperação do consumo”, diz Mereb.

Um interessante relatório recente do Bradesco reforça a análise acima. Realizado pelos economistas Daniela Cunha de Lima, Igor Velecico e Fernando Honorato Barbosa, o estudo mostra que, ao longo de mais de três anos, as vendas no varejo tiveram um desempenho pior do que a evolução da massa de salários. Como exemplo, enquanto o PIB caía 8%, as vendas de automóveis e imóveis recuaram 50%.

Para os economistas do Bradesco, trata-se do fenômeno da “poupança precaucional”, que as famílias fazem quando se sentem inseguras por causa da piora do mercado de trabalho. Eles notam que essa poupança em tempos bicudos teve o efeito colateral positivo de reduzir o endividamento das famílias. Segundo os dados do relatório, a dívida total, como proporção da renda, já recuou para níveis de 2011, e, se forem excluídos os empréstimos imobiliários, volta-se aos níveis de dez anos atrás.

Pelas contas do Bradesco, a queda dos juro, somada à redução do endividamento, vai significar um alívio de R$ 70 bilhões, ou de 1% do PIB, para as famílias até o fim de 2018. Por outro lado, há fatores que devem neutralizar a tendência anterior à poupança precaucional e fazer com que, daqui em diante, o consumo e a massa salarial andem juntos. O relatório cita a deflação dos alimentos, que reforça o orçamento das famílias mais pobres, que tendem a consumir a maior parte da sua renda; e o leve início de recuperação do emprego, que reduz a insegurança financeira das famílias.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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