Consumo cresceu 0,7% e evitou resultado pior

Expansão foi de 1,3% ante o mesmo período de 2008

Fernando Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 00h00

A resistência do consumidor brasileiro, mesmo em meio à pior crise econômica global do pós-guerra, garantiu que o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre não fosse tão ruim quanto o previsto pelos analistas do mercado financeiro. O consumo das famílias cresceu 0,7% na comparação com o último trimestre de 2008, na série livre de influências sazonais. Assim, a queda, nesse mesmo critério, de 1,8% no quarto trimestre do ano passado, foi um fato isolado, em meio a 22 trimestres de crescimento do consumo das famílias, iniciados em 2003.Na comparação com o primeiro trimestre de 2008, o consumo das famílias de janeiro a março de 2009 cresceu 1,3%, registrando o 22º trimestre consecutivo (também a partir de 2003) de expansão nesse critério. No acumulado de quatro trimestres, o consumo das famílias cresceu 4,1%, recuando do ritmo médio de pouco menos de 6% de 2008, mas mantendo-se ainda num nível bastante razoável.Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou ontem o resultado do PIB trimestral, o bom desempenho do consumo das famílias pode ser explicado pelo aumento, no primeiro trimestre de 2009, de 5,2% na massa salarial real, e de 22,1% no saldo de operações de crédito não direcionadas para as pessoas físicas. Aliás, como nota o IBGE, em ambos os indicadores o crescimento foi ainda mais forte no último trimestre de 2008, o que está coerente com o crescimento maior, de 2,2%, no consumo das famílias nos três últimos meses do ano passado, ante igual período de 2007.O consumo do governo também teve um bom desempenho no primeiro trimestre, crescendo 0,6% em relação aos três últimos meses de 2008, e 2,7% ante o primeiro trimestre do ano passado. Sérgio Vale, economista da MB Associados, está otimista quanto à manutenção do ritmo do consumo, especialmente das famílias, no restante do ano. Ele nota que o grosso do impulso ao consumo derivado de políticas do governo, como os aumentos reais do salário mínimo, a expansão do Bolsa-Família e os ganhos salariais do funcionalismo, vai ocorrer no segundo semestre.Segundo recente estudo da MB, elaborado por Vale, aqueles aumentos (funcionalismo, salário mínimo e Bolsa-Família) vão garantir 62%, ou R$ 26,5 bilhões do aumento de R$ 42,9 bilhões no total da massa real de rendimentos no Brasil em 2009, na comparação com 2008.IMPOSTOSOs impostos sobre produtos tiveram um recuo de 3,3% no primeiro trimestre de 2009, na comparação com igual período de 2008. Esta redução, que superou a do PIB no período (de 1,8%) está ligada, segundo a gerente de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, à forte queda da produção industrial. "A indústria é a atividade que mais paga imposto", explicou, citando tributos como o IPI, ICMS, PIS, Cofins e Cide. O recuo das importações também pode ter contribuído para a retração dos impostos. ENQUETECom a divulgação do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, mais os dados disponíveis do segundo trimestre do ano, quanto o País vai crescer em 2009?Affonso Celso Pastore-1%"Nossa projeção era de queda do PIB um pouco maior do que a ocorrida", diz o ex-presidente do Banco Central. A queda de 0,8% não muda sua projeção para o ano, de -1%. "Para chegar a valor é preciso razoável recuperação, que será ainda lenta no segundo trimestre, acelerando-se no terceiro e no quarto trimestres. E essa recuperação já está em marcha", diz. "É uma recessão funda, mas se marcarmos seu final como o início da recuperação, ainda que lenta, acho que já estamos saindo da recessão." José Márcio Camargo-1%A redução do PIB de 0,8% é uma notícia positiva e deve reduzir a retração da economia neste ano de uma queda próxima de 1,5% para uma redução ao redor de 1%, avalia o professor da PUC-RJ. Contudo, para manter o estímulo ao nível de atividade, o governo, diz ele, deveria dar continuidade à distensão monetária. "Ainda há espaço para redução de 1 a 1,5 ponto porcentual dos juros neste ano." Ele ressalta, ainda, que uma perspectiva internacional mais difícil pode conter o vigor da retomada da economia no Brasil.Thaís Zara0,3%Para a economista Thaís Zara, da consultoria Rosenberg & Associados, o PIB do primeiro trimestre surpreendeu positivamente, especialmente em relação ao consumo das famílias, que voltou a crescer. A queda de 0,8% do PIB do primeiro trimestre ante o quarto trimestre veio melhor do que as previsões do mercado e também da Rosenberg, que esperava queda de 1,6% na margem. "Os números do PIB de hoje nos fazem confirmar nossa projeção de crescimento do PIB de 0,3% este ano", afirmou. Luís Carlos Bresser-PereiraEm torno de 0Para o ex-ministro da Fazenda, a queda de 0,8% do PIB no primeiro trimestre está "mais ou menos" conforme o esperado. "Esse número confirma que estávamos em recessão e que a nossa crise é menos grave do que a dos países ricos", disse. No entanto, avalia ele, a política econômica limita o potencial de crescimento do País em 3% a 3,5%. "Nos grandes países de renda média, como China e Índia, a política adotada permite com que eles cresçam mais do que o dobro de nós."Zeina Latif0,5%O resultado melhor do que o esperado mostra que a retração da economia é menos intensa do que a última recessão registrada entre 2002 e 2003, avalia a economista-chefe do banco ING. Para ela, o Brasil deve registrar expansão média de 2% do segundo ao quarto trimestre. Uma das boas notícias é que o consumo das famílias avançou 0,7% e mostrou resistência em relação aos efeitos da crise. "Como a tendência é de melhora do nível de atividade no ano, o País deve crescer 0,5%".Roberto RodriguesNão fez previsãoSegundo o ex-ministro da Agricultura e professor da Fundação Getúlio Vargas, já era esperada a retração do PIB do agronegócio. A explicação, segundo ele, é a queda do preço das commodities agrícolas e a produção em menor escala. Rodrigues prefere não trabalhar com uma previsão numérica para os dois próximos trimestres, mas tem certeza de que o ano terminará com um PIB agrícola inferior a 2008. "Não tem mais o que discutir, será menor e pronto"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.