Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

Motor do PIB até 2019, consumo das famílias está 0,4% abaixo do nível pré-pandemia

Consumo de serviços, como bares e restaurantes, e de bens semiduráveis, como roupas e calçados, ainda enfrenta dificuldades de recuperação

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 15h10

RIO - Embora a atividade econômica como um todo tenha, no primeiro trimestre, retomado o ritmo observado antes da pandemia de covid-19, o consumo das famílias, principal componente do Produto Interno Bruto (PIB) sob a ótica da demanda e motor da economia até 2019, no pós-recessão, segue um passo atrás. Em junho, o volume de bens e serviços consumido pelas famílias brasileiras estava 0,4% abaixo do nível de fevereiro de 2020, segundo estimativas da Fundação Getulio Vargas (FGV) obtidas pelo Estadão/Broadcast.

Enquanto o consumo de bens não duráveis (como alimentos e cosméticos) e de bens duráveis (como eletrodomésticos) já superou o pré-crise sanitária, o de serviços (bares e restaurantes, por exemplo) e de bens semiduráveis (como roupas e calçados) permanece aquém, com dificuldades de recuperação.

A avaliação parte dos dados desagregados do Monitor do PIB, indicador da FGV. O consumo de serviços ainda está 1,8% aquém do pré-crise sanitária, enquanto o de bens semiduráveis permanece 6,2% abaixo do nível de fevereiro de 2020.

Segundo Claudio Considera, pesquisador responsável pelo Monitor do PIB, a persistência da pandemia e a necessidade de isolamento social para conter a disseminação da covid-19 ainda atrapalham a normalização do consumo de itens como peças de vestuário e de serviços, como restaurantes, hotéis e passagens aéreas.

“As pessoas estão em casa, elas não foram mais aos shoppings, deixaram de comprar. Nos serviços, o problema atinge restaurantes, hotelaria, passagens aéreas, tudo que precisa de interação social”, afirma Considera, destacando que há outros problemas, além das restrições ao contato social. “Agora temos problema de desemprego e inflação. Isso deve diminuir o consumo.”

Por outro lado, o consumo de bens não duráveis já superou em 2,1% o patamar pré-covid, enquanto o de bens duráveis está 0,3% acima. Segundo Considera, as famílias puderam manter, mal ou bem, seu nível de consumo de bens não duráveis, principalmente os alimentos, “basicamente por causa do auxílio emergencial”.

No caso de bens duráveis, o consumo já esteve mais aquecido em novembro e dezembro de 2020, mas passou por oscilações ao longo do primeiro semestre deste ano. A demanda por eles foi puxada por famílias que tiveram suas rendas menos atingidas pela crise. “Durante a pandemia, algumas pessoas passaram a substituir, em determinado momento, os seus equipamentos domésticos”, lembra Considera.

 


O desempenho do consumo de bens já vinha sendo sinalizado pelas vendas do varejo. Em junho, as vendas estavam 2,6% acima do nível de fevereiro de 2020, antes da pandemia. No varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, as vendas operavam 1,5% acima do pré-pandemia, de acordo com a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O desempenho já foi mais positivo em meses anteriores, além de ser fruto de uma melhora desigual entre os segmentos pesquisados, já que há uma “heterogeneidade” entre as diferentes atividades, conforme Cristiano Santos, gerente da PMC. “Algumas atividades se beneficiaram de alguns cenários de crescimento na demanda por alguns produtos, como material de construção, muito focado nas famílias que tiveram um rendimento extra”, diz Santos.

Em junho, as vendas estavam acima do patamar anterior à pandemia nos segmentos de material de construção (23,5% acima do pré-covid), outros artigos de uso pessoal e doméstico (12,7%), artigos farmacêuticos (11,8%), móveis e eletrodomésticos (3,6%) e supermercados (2,8%). 

Por outro lado, ainda não superaram as perdas da crise sanitária as atividades de veículos (-4,6%), combustíveis (-5,0%), vestuário e calçados (-8,4%), equipamentos de informática (-9,2%) e livros e papelaria (-31,2%).

Quanto ao volume de serviços prestados às famílias, houve melhora recente, mas o segmento chegou a junho operando em nível 22,8% aquém do pré-covid, de acordo com a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), também do IBGE. Na média global, o setor de serviços como um todo funcionava em nível 2,4% superior ao de fevereiro de 2020.

Conforme o Monitor do PIB, o consumo das famílias cresceu 0,6% na passagem de maio para junho. Com isso, no segundo trimestre, houve avanço de 0,8% ante os três primeiros meses do ano.

Para o resto ano, a perspectiva é de “recuperação gradual”, segundo Catarina Carneiro da Silva, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), indicador apurado pela entidade, cresceu 2,1% em agosto ante julho, para 70,2 pontos.

Calculado com base em entrevistas que medem a percepção dos consumidores, o ICF registrou a terceira alta seguida, mas está abaixo do nível de satisfação, de 100 pontos, desde 2015. Segundo Silva, a pandemia atingiu a economia justamente quando o ICF estava quase em 100 pontos, após lenta recuperação desde a recessão que durou de 2014 a 2016. / COLABOROU VINICIUS NEDER

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