'Consumo das famílias vai continuar a esfriar'

Para especialista, nova equipe econômica terá efeito positivo, mas não deve causar reviravolta na economia no ano que vem

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2014 | 02h03

Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse, considera que o dado mais relevante da divulgação do PIB do terceiro trimestre foi o esfriamento do consumo das famílias. Para 2015, ele prevê que esta tendência continue, e os investimentos, em vez de se recuperarem para compensar a desaceleração do consumo, continuarão também a se contrair - mas num ritmo menos forte que em 2014.

Ainda assim, Teixeira prevê um crescimento do PIB ligeiramente maior no ano que vem (0,5% ante 0,3%), por causa da demanda externa, na esteira da maior produção de petróleo e derivados. Para ele, a nova equipe econômica terá efeito positivo sobre a confiança, mas a mudança de humor não deve vir a tempo de provocar reviravolta em 2015. A seguir, a entrevista.

O que o sr. achou do resultado do PIB do terceiro trimestre?

Os resultados vieram muito perto das nossas projeções. A nossa surpresa foi o comportamento dos impostos. A gente esperava uma contração, mas ela foi maior do que imaginávamos. Não chegou a ser uma grande surpresa, mas acabou fazendo com que o resultado do PIB do terceiro trimestre fosse um pouco menor do que nossa projeção.

O que houve com os impostos? O IBGE não abre as razões para o desempenho dos impostos. Portanto, é muito difícil ter certeza. Mas quando olhamos pelo lado da arrecadação, de fato ela tem crescido muito pouco, inclusive com um desempenho pior no segundo semestre em relação ao ano passado. Mas é difícil precisar.

Qual o maior destaque do PIB? A desaceleração do consumo das famílias, o que vem ocorrendo desde 2012. Não de uma maneira monotônica, mas tem desacelerado. Até o primeiro trimestre de 2014 vinha num crescimento acima de 2% comparado com o mesmo trimestre do ano anterior. Já no segundo trimestre, teve um declínio, para cerca de 1%. E, agora, foi muito próximo a zero. Quase uma estabilidade ante o mesmo trimestre do ano passado, e um declínio ante o trimestre anterior.

Por que isso está ocorrendo? Está ligado às condições de crédito, de mercado de trabalho, da massa real de rendimentos. A nossa expectativa era que o consumo das famílias desacelerasse neste ano e no próximo, e isso está se confirmando. É muito provável que em 2015 ela cresça menos ainda do que este ano, refletindo os mesmos fatores: condições de mercado de trabalho até mais desfavoráveis, aumento da taxa de desemprego, um aumento menor do salário real. Embora a taxa de desemprego tenha recuado nos últimos meses, o que se observa é um padrão diferente de 2012, quando havia recuo do desemprego com geração de trabalho muito forte, o que fazia com que a massa salarial real crescesse num ritmo muito mais alto. Mas, de 2013 para cá, a massa salarial se desacelera. Este ano temos um ritmo de crescimento um pouco menor. E, para 2015, a expectativa é de que esse crescimento seja ainda pior, porque haverá provavelmente alta na taxa de desemprego.

E o crédito?

Vai na mesma direção, até por causa de todas as políticas a serem implementadas no próximo ano, inclusive com aumento dos juros - em resumo, tende a se desacelerar. O padrão dos últimos meses é de clara desaceleração, embora na margem em outubro tenha havido um número um pouco mais favorável. Olhando à frente, o mercado de trabalho e o crédito, que impulsionaram o consumo por muito tempo, estão se desacelerando e a tendência é que continuem a se desacelerar. Isso tudo corrobora uma história de expansão menor do consumo das famílias.

Como o sr. viu o investimento?

A contração é muito expressiva. Na comparação com os mesmos trimestres de 2013, a gente veio de uma contração de 11% no segundo trimestre para uma de 8% no terceiro. Isso reflete uma baixa confiança dos empresários e a incerteza sobre o cenário adiante. Olhando o desempenho acumulado em quatro trimestres - que mostra uma dinâmica mais ajustada, mais suave -, o PIB estava crescendo 2%, no segundo trimestre foi para 1,5%, 1,4%, agora 0,7% e é muito provável que nos próximos trimestres este número continue diminuindo. Já os investimentos estão se contraindo num ritmo maior, e a contração tende a ser mais profunda nos próximos três trimestres. Em relação ao trimestre anterior, porém, o investimento cresceu 1,3%. A base é baixa. No segundo trimestre de 2013, cresceu 4,3%. No terceiro de 2013, queda de 1,7%. E, daí em diante, quedas de 2,1%, 2,6%, 5,2% e agora alta de 1,3%. Não seria surpresa se crescesse no quarto trimestre. Mas, quando se olha o acumulado em quatro trimestres - menos sujeito a questões de sazonalidade -, nos parece natural esperar uma contração maior para a frente.

A economia pode fazer a transição para ser puxada pelo investimento, depois de ter sido puxada pelo consumo?

Não enxergamos essa mudança de padrão, em que certa desaceleração do consumo das famílias seria acompanhada do fortalecimento e da expansão dos investimentos. Não é o que prevemos. Nossa previsão é da continuação da contração dos investimentos nos próximos trimestres. Uma contração num ritmo decrescente, mas ainda assim uma contração, o que levaria a um cenário no qual o consumo das famílias cresce pouco, e os investimentos se contraem.

Quais são suas previsões para o crescimento do PIB neste ano e no próximo?

Para 2014 estamos com 0,3%, mas se me disser que será algo entre 0,1% e 0,3% é muito parecido. E temos 0,5% para 2015.

Mas como melhora em 2015 se investimento e consumo das famílias irão mal?

O setor extrativo-mineral, depois de um período muito desfavorável em 2013, teve recuperação em 2014 e a tendência é que, em 2015, a retomada continue num ritmo até bem maior. Isso será uma influência importante para que o setor externo contribua de maneira favorável para o crescimento. Parece que a contribuição do setor externo garantirá uma probabilidade razoável de o PIB do ano que vem ter um desempenho maior do que neste, em particular pela maior produção de petróleo e derivados. Este, aliás, é um risco positivo. Porque, se assumirmos a produção apontada nos documentos da Petrobrás, a contribuição para o crescimento do PIB tende a ser maior que a nossa estimativa. Assim, nossa expectativa é de que, em termos de quantidades, as exportações cresçam, e que o mesmo não ocorra com as importações. Teremos uma situação em que, se não fosse o melhor desempenho do setor de exportação, haveria um risco de que a economia viesse a ter um desempenho em 2015 até pior que em 2014.

A escolha de uma equipe econômica mais pró-mercado não pode ajudar na confiança e a estimular os investimentos?

A equipe com Joaquim Levy e Nelson Barbosa significa que se optou pela adoção em algum grau de uma política econômica mais austera, o que tende a ter efeito positivo sobre a confiança dos empresários. Porém esse benefício, que não pode ser desprezado, tem um prazo mais longo. De imediato, o que se percebe é uma situação em que há risco de aumento da taxa de desemprego, menor aumento do salário real, aumento de juros, um provável e necessário aumento da TJLP. Caso se confirme que não haverá aportes para o BNDES, o total de concessão de crédito pelo banco diminuirá de forma substancial. De um número entre R$ 180 bilhões a R$ 190 bilhões este ano para algo próximo a R$ 150 bilhões no próximo ano, o que é outro fator que dificulta os investimentos. Com a política fiscal mais austera, tende-se a ter uma redução nos investimentos públicos, com impacto negativo no investimento na economia. Apesar de a nova equipe sinalizar uma direção a nosso ver adequada, os benefícios em termos de investimento tendem a tomar mais tempo, seriam mais para 2016.

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