Consumo e preço em alta impulsionam a Ambev

Valor de mercado da empresa teve um aumento de 34% desde o fim do ano passado

LÍLIAN CUNHA, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h09

Nesta semana, pelo menos para o mercado financeiro, cerveja se tornou um bem tão precioso quanto petróleo. A busca pelas ações da Ambev fez a cervejaria ultrapassar na quarta-feira o valor de mercado da Petrobrás, fazendo da companhia de bebidas a maior companhia brasileira.

Ontem e anteontem, porém, a Petrobrás retomou a dianteira. Alcançou no fechamento da semana um total de R$ 254,9 bilhões. Mas a pouca diferença para a Ambev - avaliada ao fim da tarde de ontem em R$ 250,6 bilhões - desperta uma questão: O que faz a Ambev valer tanto?

A escalada do valor de mercado da empresa não se deve apenas à desvalorização da Petrobrás, que sofre com a falta de reajuste nos preços dos combustíveis. Prova disso é a evolução do valor da empresa, que cresceu 34% desde o fim do ano passado, quando era avaliada em R$ 187,5 bilhões. "Há uma série de fatores que faz a Ambev despertar o interesse do investidor", diz Gabriel Vaz de Lima, analista de bebidas e alimentos do Barclays Capital.

O primeiro deles é o próprio mercado de cervejas no Brasil. "A previsão é de uma alta de vendas da ordem de 3% em volume para este ano, o que é muito bom. Estamos vindo de anos de crescimento muito acelerado, como aconteceu em 2010", diz Adalberto Viviani, especialista no mercado de cervejas.

Nesse cenário, a liderança histórica da Ambev, com uma participação que varia entre 65% e 70%, se explica principalmente pela distribuição. A empresa está geograficamente em todo País - o que não acontece com seus concorrentes. Dos aproximadamente 1 milhão de pontos de venda de bebidas em todo território nacional, a Ambev está em 100% deles. A Brasil Kirin (ex-Schincariol) está em 400 mil. Petrópolis e Heineken, embora oficialmente digam ter entre 600 mil e 1 milhão, não têm mais que 400 mil pontos de venda, conforme fontes do mercado. "O consumo de cerveja é maior em algumas regiões que em outras, e a única empresa que tem condições de fechar esse 'gap' é a Ambev", diz Lima.

Gasolina. O preço da cerveja também ajuda a empresa. "A Ambev, diferente da Petrobrás, não tem problemas em repassar a inflação para seus preços", diz Catarina Pedrosa, analista do Banco Espírito Santo. A variação do preço da cerveja no varejo mostra isso. Na cidade de São Paulo, conforme o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, a cerveja subiu 14,8% este ano entre janeiro e outubro. A gasolina, nesse mesmo intervalo, ficou 1,5% mais barata. Nos últimos 12 meses, a diferença é ainda maior: a cerveja subiu 20,2% e a gasolina caiu 1,2%.

Mesmo custando mais, o brasileiro continua tomando mais cerveja, e a tendência é que esse crescimento se mantenha. "Hoje, cerca de 80% do volume de cerveja produzido no País é consumido pelas classes C, D e E", diz o analista do Barclays. Mas essa camada da população ainda bebe muito pouco, se comparado ao consumo das camadas mais altas. "O consumidor da classe A bebe cinco vezes mais cerveja que o da classe D", afirma Lima.

Com essa perspectiva, a Ambev acaba se tornando atraente para o investidor, que sabe que a companhia é capaz de explorar bem o potencial de mercado. "Não há hoje outra empresa aberta no País que tenha gestão tão afinada quanto a Ambev", diz Lima. "Eles têm um fixação por corte de custos e um sistema de incentivos baseado em entrega de resultados muito eficiente."

Outro fator é o governo. Ao contrário de empresas do setor elétrico, bancário e de telefonia - que têm sido alvo de medidas regulatórias agressivas do governo -, companhias de bens de consumo como a Ambev se beneficiam da política econômica de juros baixos, que libera mais dinheiro no bolso do consumidor.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.