Alex Silva/Estadão
Humberto Munhoz, sócio do grupo Turn The Table, dono de casas em São Paulo, como o bar O Pasquim; grupo demitiu cerca de 40 funcionários em fevereiro de 2021. Agora, não só reabriu todas essas vagas como contratou além Alex Silva/Estadão

Consumo de serviços pelas famílias está em patamar 4,15% superior ao pré-pandemia, diz FGV

Crescimento se deu na esteira da redução das restrições ao contato social, impostas para conter a covid-19

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2022 | 13h04

RIO - Passado o pico de contaminações pela variante Ômicron do novo coronavírus, em janeiro, os brasileiros voltaram a gastar, nos meses seguintes, com serviços como recreação, bares, restaurantes, hotéis e passagens aéreas. A satisfação dessa demanda reprimida após tanto tempo de pandemia aqueceu o consumo das famílias, impulsionando a atividade econômica no início do ano. O Produto Interno Bruto (PIB) teve um crescimento de 1,5% no primeiro trimestre, segundo estimativa no Monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas (FGV) – os números oficiais serão divulgados na próxima quinta-feira, 2, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Após dois meses seguidos de altas – 2,0% em março e 2,4% em fevereiro, na comparação com o mês imediatamente anterior –, o consumo de serviços pelas famílias brasileiras encerrou o primeiro trimestre de 2022 em patamar 4,15% superior ao de fevereiro de 2020, no pré-crise sanitária. Os dados são também do Monitor do PIB da FGV, obtidos com exclusividade pelo Estadão/Broadcast.

“As pessoas estavam trancadas dentro de casa. Não saíam, não iam para hotel, para bar, restaurante, nada. Com a melhora da pandemia, elas voltaram a sair. A demanda por viagens subiu muito”, lembrou Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). “O consumo de serviços tem a ver com a redução dos casos de covid-19”, afirmou.

No primeiro trimestre de 2022, conforme o Monitor do PIB da FGV, o consumo das famílias cresceu 1,5% em relação ao quarto trimestre de 2021, ajudando a sustentar, sob a ótica da demanda, a expansão da economia. A FGV calcula que o consumo das famílias tenha encerrado o mês de março em patamar 1,34% superior ao de fevereiro de 2020, no pré-pandemia.

O resultado teve o impulso fundamental do consumo de serviços, que neste caso inclui shows, cinemas, hotéis, restaurantes, transporte, saúde e educação, entre outros. Houve também contribuição positiva do consumo de bens não duráveis, que engloba os alimentos, e chegaram a março em nível 2,13% acima do pré-covid. No entanto, permanecem significativamente abaixo do patamar pré-pandemia o consumo de bens semiduráveis (6,48% aquém no nível de fevereiro de 2020) e de bens duráveis (6,94% aquém).

Esse crescimento se deu na esteira da redução das restrições ao contato social, que vinham sendo impostas desde 2020, para conter a covid-19. A circulação de pessoas pelas cidades brasileiras está praticamente normalizada, apenas 3% ou 4% abaixo do nível pré-covid, segundo Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Bares, restaurantes e hotéis

A retomada da demanda está sendo sentida na ponta, em bares, restaurantes e hotéis, e teve continuidade em abril e maio. Empresários desses ramos relatam maior dinamismo nos negócios, rodando em níveis acima dos de antes da pandemia. O faturamento dos bares e restaurantes se recuperou: 73% dos empresários relataram aumento em abril, na comparação com igual mês de 2021, mostra uma pesquisa da Abrasel, entidade que representa o setor.

“A partir de setembro do ano passado, a atividade já tinha se restabelecido no pré-pandemia. Do fim do ano para cá, o patamar de faturamento está até acima de que antes, em 2019”, disse Humberto Munhoz, sócio do grupo Turn The Table, dono de casas em São Paulo, como o bar O Pasquim e a Vero! Coquetelaria.

Com uma gestão disciplinada – aluguéis e contratos com fornecedores foram renegociados, medidas do governo ajudaram e o caixa foi queimado –, o Turn the Table conseguiu enfrentar 2020 sem demissões, mas 2021 começou pior. A empresa demitiu cerca de 40 funcionários em fevereiro do ano passado.

Agora, não só reabriu todas essas vagas como contratou além. Com a inauguração de uma segunda unidade do bar O Pasquim na Casa Verde, zona norte da capital, no início deste ano, o total de empregados do grupo saltou para cerca de 200 – antes da pandemia, eram em torno de 150. Segundo Munhoz, a demanda está aquecida, com os clientes gastando um pouco mais, na média, e movimento maior em dias da semana que antes eram mais fracos. Os horários de “happy hour” estão movimentados, diz o empresário.

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Preços atrapalham, mas hotelaria vê demanda aquecida por mais tempo

Empresários veem espaço para crescimento do turismo de negócios

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2022 | 13h15

RIO - No caso do setor de hotelaria, a inflação atrapalha, as margens de lucro estão menores do que antes da pandemia, mas dois empresários ouvidos pelo Estadão estão menos reticentes em relação ao ritmo da demanda nos próximos meses, por causa de alguns motivos. O primeiro é que ainda há espaço para a demanda do turismo de negócios voltar ao nível de antes da pandemia – o turismo de lazer retomou na frente.

Segundo Beto Caputo, presidente da Atrio Hotel Management, destinos como o Rio já voltaram ao “normal” desde o fim do ano e, agora, o “fato novo” é a volta da ocupação dos hotéis em São Paulo. Na capital, a demanda retoma não tanto com o turismo de negócios, mas com a volta de eventos, incluindo de entretenimento, como a Fórmula 1 e festivais de música.

“No curto prazo, a retomada está dada. Temos desafios, mas eles são mais operacionais, como a escassez de mão de obra, do que de demanda”, diz Caputo.

A Atrio opera 70 hotéis em 48 cidades de 13 Estados, com diferentes marcas, incluindo as da rede francesa Accor, como Ibis, Mercure e Novotel, empregando 1,9 mil funcionários. Conforme Caputo, a receita por quarto aumentou em torno de 15% no primeiro trimestre, na comparação com igual período de 2019, antes da covid-19.

Preço da diária acima

Apesar da volta dos eventos em São Paulo, a demanda das grandes empresas pelo turismo de negócios ainda não retornou ao nível de antes da pandemia, o que garante fôlego para o ritmo de crescimento no médio prazo, segundo Andre Sena, diretor comercial da Accor para a América do Sul. Como os orçamentos de 2022 das grandes companhias demandantes já estão fechados, o executivo vê essa demanda se aquecendo até 2023.

“As taxas de ocupação ainda estão um pouco abaixo. O número de clientes não é o mesmo, mas o preço médio da diária está um pouco acima. Ainda tem uma coisinha pra recuperar”, resume Sena, corroborando a avaliação de que o turismo de lazer saiu à frente na recuperação da demanda.

As atividades turísticas somaram um prejuízo de R$ 508,8 bilhões desde o agravamento da pandemia do novo coronavírus no País, em março de 2020, até março de 2022, sendo 57% desse prejuízo concentrados nos Estados de São Paulo (uma perda de R$ 222,1 bilhões) e Rio (R$ 66,1 bilhões), calcula a CNC. O setor deverá voltar a operar no nível anterior à crise sanitária apenas no terceiro trimestre deste ano, estimou o economista Fabio Bentes, da CNC.

Pelos dados da Pesquisa Mensal de Serviços, do IBGE, o agregado especial de atividades turísticas cresceu 4,5% em março ante fevereiro, após ter encolhido 0,9% nos dois meses anteriores. O segmento ainda operava em março de 2022 em patamar 6,5% aquém de fevereiro de 2020, no pré-pandemia.

Sena, da Accor, acredita que fatores estruturais possam contribuir para a continuidade do crescimento da hotelaria no País no médio e longo prazo, mesmo após a recuperação da pandemia. Embora ainda haja problemas de infraestrutura de transportes e de segurança, o potencial do Brasil é imenso, por causa dos recursos naturais.

Além disso, as grandes redes têm espaço para crescer sua participação no mercado, pois, segundo Sena, apenas 10% dos hotéis no País pertencem a alguma marca estabelecida, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa. Tanto que a Accor incluiu 22 hotéis em sua rede na América do Sul no ano passado e espera incluir mais 25 este ano – a maioria por conversão, ou seja, assumindo a operação de um empreendimento já existente. No Brasil, a gigante francesa tem 330 hotéis, espalhados em 150 cidades, empregando um total de 10 mil funcionários.

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Inflação de serviços acompanha ritmo de crescimento da demanda e ameaça retomada

Alta nos preços pressiona margens de lucro e ainda há incerteza sobre ritmo de crescimento

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2022 | 13h35

RIO - Após dois anos no rol dos setores mais afetados pelas restrições ao contato social por causa da pandemia, bares, restaurantes, hotéis e outros serviços prestados às famílias deram início, finalmente, a uma trajetória consistente de retomada dos níveis de atividade, mas nem tudo são flores. A inflação pressiona as margens de lucro e ainda há incerteza sobre o ritmo de crescimento – mais no setor de bares e restaurantes do que na hotelaria, que vê um cenário mais claro de continuidade da demanda aquecida.

A inflação de serviços também tem acompanhado o retorno gradual da demanda: os preços aceleraram de uma alta de 7,1% nos 12 meses terminados em abril para 8,6% em maio, de acordo com os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), do IBGE, compilados por Fábio Bentes, economista da CNC.

“É isso que eu acho que vai frear esse consumo. A geração de vagas formais (registrada) pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho) está menos positiva, está desacelerando”, disse Bentes. “O problema é que agora a gente vê saindo de campo a questão da crise sanitária, mas entrando em campo as condições macroeconômicas desfavoráveis”, completou.

A inflação ainda atinge em cheio o custo dos insumos de bares e restaurantes, lembrou o presidente do SindRio, sindicato dos empresários do setor, Fernando Blower. O resultado aí é o achatamento das margens de lucro, já que, para muitos negócios, os gastos com comida, energia elétrica e combustíveis subiram mais do que os preços finais. Segundo a pesquisa da Abrasel, apenas 35% dos empresários consultados tiveram lucro em abril, enquanto 78% dos entrevistados não conseguiram reajustar seus preços em linha com a inflação.

Humberto Munhoz, sócio do grupo Turn The Table, dono de casas em São Paulo, como o bar O Pasquim e a Vero! Coquetelaria, ressaltou que isso dificulta a gestão. Os empresários ficam entre o receio de os reajustes afastarem os clientes, arrefecendo a demanda que ainda se recupera, e o risco de as margens se achatarem tanto a ponto de chegar ao prejuízo. Nas casas de Munhoz, a saída foi trocar reajustes anuais dos cardápios por aumentos pontuais, aos poucos, para testar a reação da clientela.

“A inflação está aí para todos. E o bolso do cliente é um só. Se a gasolina aumentou e aumentou a escola particular, obviamente, no fim do mês sobra menos dinheiro para entretenimento”, disse o empresário.

Para Rodrigo Lobo, gerente da Pesquisa Mensal de Serviços, do IBGE, as famílias de renda média e alta são o público-alvo do setor de serviços, enquanto que as de renda mais baixa precisam alocar seus parcos recursos em itens de primeira necessidade, como alimentos. Por esse motivo, talvez o setor não seja afetado de maneira tão contundente por reduções nos níveis de emprego e de renda. No entanto, Lobo concorda que a inflação elevada, de maneira geral, obriga os consumidores a redirecionar mais do seu orçamento mensal para os gastos essenciais, reduzindo o espaço para o consumo de serviços supérfluos.

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