Consumo fraco tira R$ 27 bi da economia

Perda do ritmo de crescimento de vendas do comércio varejista é causada pela inflação, inadimplência alta e endividamento das famílias

MÁRCIA DE CHIARA , O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2013 | 02h05

O arrefecimento do consumo das famílias, já sinalizado pela desaceleração das vendas do comércio varejista no primeiro trimestre deste ano, pode tirar, em média, 0,5 ponto porcentual de crescimento da economia em 2013, nas contas de consultorias econômicas. Isso significa que, em valores correntes, até R$ 27,5 bilhões que seriam usados na compra de bens e de serviços podem deixar de circular na economia.

A perda de ímpeto de consumo das famílias neste ano vem sendo sinalizada por vários indicadores. Mas, na semana passada, por exemplo, o resultado da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou o tamanho da freada nas compras.

O ritmo de crescimento do volume de vendas do comércio restrito, isto é, que não considera veículos e materiais de construção, caiu quase pela metade no fechamento do primeiro trimestre deste ano (4,5%) em relação ao encerramento de 2012 (8,4%). "A surpresa é que a redução da taxa de crescimento do varejo foi abrupta", afirma o economista-chefe da consultoria GS&MD, Ricardo Meirelles.

Também dos seis segmentos que compõem a PMC, quatro tiveram desaceleração no crescimento no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 2012, comparando-se ao ritmo de alta no primeiro trimestre do ano passado.

O volume de vendas dos hiper e supermercados, que tinha crescido 10,3% no primeiro trimestre de 2012 ante o de 2011, terminou o primeiro trimestre deste ano com elevação anual de apenas 1,8%.

Nos móveis e eletrodomésticos o tombo também foi grande: de 15,8% para 1%, nas mesmas bases de comparação. A trajetória se repetiu nas vendas de artigos farmacêuticos e de perfumaria, de 10,8% para 7,3%, e nos produtos de informática e de comunicação, de 30,9% para 3,6%. "Esses resultados mostram que temporariamente está ocorrendo uma pausa nas compras", afirma o economista da Associação Comercial de São Paulo, Emilio Alfieri. Para ele, hoje o consumidor está pagando o que já tinha adquirido.

Tendência. "O motor da economia, que tem sido o consumo das famílias, está enfraquecendo", diz o diretor de pesquisas econômicas da GO Associados, Fabio Silveira. Um mês atrás ele projetava crescimento 7,5% do comércio varejista para este ano. Agora reduziu a estimativa para 6%. Com isso, a sua expectativa de avanço de consumo deve diminuir de 3,2% para 2,6%. "Pelo lado da demanda, se tudo o mais permanecesse constante no PIB, o impacto do arrefecimento do consumo seria de 0,40 ponto porcentual."

Também para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, o consumo das famílias deve crescer menos do que ele imaginava. Vale projetava um aumento de 6% no consumo para este ano e agora espera 5%. Segundo ele, isso quer dizer que R$ 27,5 bilhões, ou 0,6 ponto porcentual do PIB, podem não ser adicionados ao consumo.

"Tudo está apontando para um cenário de consumo mais fraco este ano", afirma a sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. A consultoria projeta crescimento de 2,8% do consumo das famílias para 2013. No ano passado, essa taxa foi de 3,1%.

A economista Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting, explica que cada vez que as vendas no varejo caem 1 ponto porcentual o impacto negativo no PIB é de 0,15 ponto porcentual. Ela também vê neste início de ano o consumo se acomodando e os sinais de enfraquecimento da economia mais disseminados entre os vários setores.

A desaceleração das vendas, que reflete o enfraquecimento do consumo, é, na avaliação do economista-chefe da Concórdia Corretora, Flávio Combat, uma tendência. Prova disso, argumenta, é que as vendas no varejo acumuladas em 12 meses estão se reduzindo mês a mês.

Para Silveira, vários fatores explicam o freio no consumo: inflação alta, inadimplência resistente e interrupção da queda do juro. O único fator favorável ao consumo é o crescimento da massa salarial, mas, mesmo assim, em ritmo bem menor.

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