Wilton Junior/Estadão - 21/10/2021
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José Roberto Mendonça de Barros
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O consumo seguirá bem fraco entre os mais pobres

A vida continuará bem difícil para os trabalhadores, especialmente os das classes C, D e E

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2022 | 04h00

No artigo do dia 20 de março, afirmei que os efeitos positivos do atual choque de commodities serão menores do que aqueles verificados no início do século. De 2007 a 2010, o crescimento acumulado do PIB foi de 19,8%; entre 2019 e 2022, o total deverá atingir apenas 1,7%, considerando nossa projeção de PIB estagnado para este ano. Mesmo levando em conta a projeção mais otimista do Banco Central, de 1% de crescimento, o acumulado no período será medíocre.

Por que essa grande diferença nos dois momentos? A resposta é que outras condições são mais adversas nos dias de hoje. Como os mais atentos devem se lembrar, uma política expansionista de gastos (com o apoio de quase todos os economistas) foi posta em prática como forma de compensar a queda na atividade resultante da crise internacional de 2008. 

Além disso, hoje assistimos a uma forte aceleração da inflação. Entre 2007 e 2010, os preços subiram em torno de 5% ao ano, sem grandes flutuações. Agora, assistimos à inflação sair de 4,3%, em 2019, para mais de 10% no ano passado.

Em consequência deste movimento e do baixo crescimento, o rendimento real do trabalho, segundo o IBGE, caiu a bagatela de 8,2% nos doze meses até fevereiro último. Pior do que isso, há uma aceleração do empobrecimento na margem, pois que a queda sobe para 8,8% quando consideramos apenas os últimos três meses em relação a igual período do ano passado. 

Como o endividamento das famílias está em nível recorde, não é surpresa que a inadimplência na pessoa física tenha subido acentuadamente nos últimos meses. 

A questão fica mais complicada porque a guerra acentuou a alta nos preços internacionais, parte dela só agora chegando ao mercado doméstico. O último movimento da Petrobras custou o emprego de seu presidente.

E essas dificuldades estão longe de acabar. Revisamos nossa projeção para inflação deste ano para 7,8%, devido à relevância dos custos de energia e da alimentação e à manutenção do índice de difusão em patamares bastante elevados, acima de 70%. 

Em particular, chamo atenção para o fato de que o alimento que sofreu o maior choque de preços no mercado internacional foi o trigo, dada a importância de Rússia e Ucrânia no fornecimento global. Como os nossos moinhos trabalham com estoques de dois a três meses, o repasse dos novos custos para as massas e o pão mal está começando. 

A vida seguirá bem difícil para os trabalhadores, especialmente aqueles das classes C, D e E.  

*ECONOMISTA E SÓCICIO DA MB ASSOCIADOS

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