Consumo na era do encolhimento

Indústrias e varejistas cortam excessos para atender às novas demandas dos consumidores

Marili Ribeiro, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

A crise global parece ter intensificado um processo que já há algum tempo vinha se verificando na indústria de consumo: o encolhimento. Embalagens menores, espaços compactos e maior aproveitamento de tudo que cerca a vida em sociedade está cada vez mais em alta. Esse movimento, que tem como base a tradicional redução de custos, também contempla o aumento do respeito ao meio ambiente, a era da portabilidade e a preocupação com desembolsos menores na aquisição de bens em decorrência da retração econômica global. No Brasil, a onda do menor/melhor torna-se mais visível em duas frentes: no varejo e nas embalagens. Embarcaram nessa prática, sempre apoiados em pesquisas de comportamento de seus públicos alvos, empresas como Johnson & Johnson, que investe na diminuição de caixas e vidros de linhas de produtos; Wal-Mart, que projeta reduzir em 5% todas as embalagens que comercializa até 2012 ; e o Grupo Pão de Açúcar, por meio da bandeira Extra, cuja rede Extra Fácil pulará este ano de 38 para 100 lojas. A principal característica dessa rede é o tamanho: 250 metros quadrados, 20 vezes menos do que um supermercado convencional.No caso do Pão de Açúcar, a área de conhecimento do consumidor da empresa encomendou estudo à agência de tendências Voltage, que fez um levantamento em dez países. A negação do excesso foi o destaque: "A infelicidade dos consumidores deriva do excesso, e não da falta de escolha." Segundo o estudo, esse sentimento, entre europeus e americanos, tem promovido ponderações sobre se "as opções, quanto à organização econômica e o próprio estilo de vida que levam estão mesmo adequadas". Fato que a crise econômica impulsionou e que fará com que "esse repensar da sociedade cedo ou tarde influencie o Brasil".Os carros pequenos, que entraram de vez na pauta das discussões sobre os rumos da indústria automobilística dos EUA, sempre estiveram presentes aqui. Registre-se, entretanto, que os modelos populares não são tão pequenos como o Nano, desenvolvido pela indústria indiana Tata. Um produto ainda restrito aos mercados asiáticos, mas que poderá inundar outras praças. A rede varejista americana Wal-Mart, reconhecidamente obcecada por corte de custo e preços baixos, como explica Daniela de Fiori, vice-presidente de sustentabilidade da companhia no Brasil, vem, desde 2006, procurando diminuir os impactos dos resíduos de embalagens. "Economizamos R$ 8 milhões em transporte apenas com a redução do papelão usado em embalagens de xícaras de chá que importamos dos EUA", diz.RESISTÊNCIAA maior resistência ao encolhimento das embalagens vem da indústria. "O espaço ocupado na gôndola é uma forma de comunicação", diz Daniela. "Para estimular as empresas a aderirem, o Wal-Mart negocia com mais de 100 fornecedores, oferecendo a garantia que manterá o mesmo espaço hoje ocupado por suas marcas, desde que diminuam as embalagens."Renato Wakimoto, diretor da Johnson & Johnson, acredita que a tendência das embalagens menores é um caminho sem volta. E enumera razões como a questão da portabilidade, tão em sintonia com a vida contemporânea. "As pessoas carregam sua vida num celular, então querem a mesma facilidade para carregar produtos de uso pessoal na bolsa", diz. A Johnson & Johnson reduziu entre 10% e 15% o tamanho do band-aid, do protetor solar Sundown e também do enxaguatório bucal Listerine. "A quantidade segue sendo a mesma, apenas os excessos foram aparados."O crescimento de famílias com único filho, habitantes que moram sozinhos e maior longevidade da população contribuem para a miniaturização. "Não se justifica mais perder tempo nos corredores de supermercados em busca das compras do dia a dia", diz Sylvia Leão, diretora da Marca Extra. "O consumidor está cada vez mais objetivo e racional."O modelo que inspirou o Pão de Açúcar a avançar no pequeno varejo de bairro é o da rede inglesa Tesco, que é a que mais cresce na Europa com lojas de pequena metragem e sortimento condizente com o perfil do consumidor da região. Ao todo, com investimentos de mais de R$ 30 milhões, a companhia vai abrir mais 62 Extra Fácil até o final do ano. No passado, a rede Extra era formada por lojas com mais de oito mil metros quadrados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.