Consumo não deve puxar a retomada

Consumo não deve puxar a retomada

No auge da mobilidade social, consumo cresceu o dobro do PIB, movimento que não deve se repetir agora, de acordo com consultor

Márcia de Chiara e Anna Carolina Papp, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2015 | 16h00

O grande impulso na mobilidade social da classe D/E para a classe C que houve entre 2006 e 2012, baseado no consumo, não deve se repetir quando a economia brasileira voltar a crescer. Isso porque o motor da retomada provavelmente deve ser o setor externo, que não beneficia tanto os trabalhadores menos qualificados das classes de menor renda.

“Mesmo quando a economia voltar a crescer – e não sabemos quando será –, não há nenhuma possibilidade de ter o consumo como motor da atividade”, prevê o sócio da Tendências Consultoria Integrada, Adriano Pitoli. Ele explica que no auge da mobilidade social o consumo cresceu 7,8% em média, praticamente o dobro do avanço do Produto Interno Bruto (PIB) no mesmo período. A classe C foi a mais beneficiada, com a massa total de renda dessas famílias aumentando 78% acima da inflação, ante 50% de avanço registrado pela média da população no mesmo período.

(Clique para ampliar)

Nessa fase, a atividade econômica foi fortemente puxada pelo consumo, varejo e o setor de serviços, que empregam muita mão de obra de menor qualificação, formada principalmente pelas classes C e D/E. É a manicure, que trabalha no setor de serviços, e viu seu rendimento aumentar. Ela foi às compras e adquiriu eletrodomésticos e outros bens duráveis, beneficiada também pelo crédito farto e barato, por exemplo. 

Virada. “Mas, agora o jogo virou”, diz o economista. Em 2014, o PIB cresceu só 0,1%, a renda subiu 1,8% e as vendas no varejo ampliado caíram 1,7%. “Este ano será um terror”, prevê. O PIB pode cair 2,8% ou até mais, a renda deve recuar 4% e as vendas no varejo ampliado podem cair 8,6%, calcula. 

Entre 2016 e 2020, o sinal pode voltar a ser positivo, mas tanto o PIB como a renda e o consumo vão crescer no mesmo ritmo, cerca de 1,3% ao ano, prevê. “Quando voltarmos a crescer, vamos avançar pouco e o consumo vai crescer tão pouco quanto o PIB, na melhor hipótese.”

Na análise do economista, a ascensão social ocorreu em bases muito frágeis, impulsionada pelo boom do consumo. Nesse período, o Brasil fez poucas reformas, investiu pouco em educação e produtividade. Por isso, não há bases sólidas para que o processo de mobilidade social persista no tempo. “Quando a crise passar, o ritmo de mobilidade será muito mais modesto.” 

Além disso, a retomada provavelmente deve ser puxada pelo setor exportador, que dissemina o crescimento da renda e do emprego em setores da economia como a indústria, que emprega trabalhadores de maior qualificação e renda.

Além da renda, pesquisas também avaliam bem-estar

O estudo da consultoria Tendências avalia a estratificação social com base na renda das famílias. Mas há outras metodologias, como o Novo Critério Brasil, que consideram aspectos relacionados ao bem-estar, como educação, moradia, acesso a serviços públicos e posse de bens.

“O critério que usamos para classificar as famílias não depende do consumo, mas de variáveis mais estáveis, por isso não estamos esperando mudanças significativas para este ano”, afirma Luis Pilli, conselheiro da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. “Uma coisa é a pessoa atrasar a parcela do carro, outra é devolver o veículo.” Por esses critérios, diz Pilli, “demora um pouco mais para que a crise afete significativamente a distribuição do nível socioeconômico”.

Para Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto Data Popular, não é possível traçar cenários quanto à migração da classe C para a D/E. “O Brasil está muito instável.” 


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.