Consumo robusto

Apesar do baixo nível da atividade produtiva, o consumo interno continua, digamos, de muito bem para melhor.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2012 | 03h06

Os números apontados ontem pelo IBGE mostram que, em junho, o volume de vendas no mercado varejista avançou 1,5% sobre o mês anterior (veja no gráfico), o que perfaz um crescimento acumulado de 9,1% no primeiro semestre de 2012 e de 7,5% no período de 12 meses terminado em junho. É um desempenho impressionante num quadro internacional de recessão, o que não é pouco.

Esse resultado não deixa de surpreender. No início deste mês, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) divulgou estatísticas que indicavam retração grave no mercado de consumo em maio, de nada menos que 5,5% ante o mesmo mês do ano anterior. Não há explicação para essa divergência estatística. Apenas as diferenças de metodologia não a justificam. Os números do IBGE parecem mais confiáveis.

O problema da economia brasileira não está na demanda, cujo desempenho, como se vê, está mais do que satisfatório. Está, sim, na oferta, especialmente da indústria, que não acompanha o aumento do consumo interno. Mostra que não basta estimular o consumo, é preciso ter condições de enfrentar a concorrência tanto no mercado externo quanto no interno. Não é demais repetir que o fator que deixa a indústria brasileira para trás é o altíssimo custo Brasil, que só agora o governo Dilma ataca com alguma eficácia.

Outro dado divulgado ontem foi a evolução do Índice Geral de Preços, o IGP-10. Esse 10 indica que o índice mede a variação de preços no período de 30 dias terminado no dia 10. Não é um indicador de inflação que serve de referência para definir a política de juros. No entanto, antecipa um indexador importante, o IGP-M, que reajusta grande número de preços e valores, sobretudo dos aluguéis, dos contratos financeiros e das tarifas públicas.

O avanço do IGP-10 em agosto foi bem mais elevado. Foi de 1,59% (sendo de 0,96% em julho). Mas o número mais preocupante é a escalada dos preços dos produtos agropecuários no mercado atacadista, de nada menos que 6,23%.

Essa alta reflete o impacto do choque dos alimentos em consequência da seca que atacou os principais centros produtores de grãos do maior país agrícola do mundo, os Estados Unidos.

É inevitável que parte dessa alta no atacado seja repassada para o varejo (custo de vida). E esse é o principal fator que pode levar o Banco Central a rever sua disposição de manter o processo de afrouxamento monetário (baixa dos juros) à proporção de meio ponto porcentual por mês. Há dois dias, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, já admitia que não estava em condições de prever em quanto este choque dos alimentos poderia desviar a inflação (evolução do IPCA) do centro de sua meta de 4,5% neste ano.

De qualquer maneira, esta é mais uma oportunidade para se notar como não faz sentido usar a variação do IGP-M como critério de reajuste dos aluguéis residenciais. Agora, o inquilino vai ter de pagar mais pela moradia simplesmente porque o centro-oeste dos Estados Unidos enfrenta a maior seca dos últimos 50 anos.

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