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Consumo turbinado

O Brasil está consumindo bem mais do que tem produzido e isso se reflete mais pesadamente nas contas externas.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2012 | 03h06

É o que já se sabia a partir da análise das Contas Nacionais. No ano passado, por exemplo, enquanto o consumo das famílias cresceu 4,1%, o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) não foi além de 2,7%. Mas ficou ainda mais claro a partir do exame de dois indicadores correlacionados divulgados ontem: o comportamento do comércio varejista e o das contas externas.

Em volume físico, as vendas no varejo estão crescendo a uma proporção de 6,6%, quando medidas no período de 12 meses terminado em janeiro; e de 7,3%, quando comparados os números de janeiro deste ano com os de 2011 (dados do IBGE).

Ontem, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, admitiu em São Paulo que o crescimento de 2,6% das vendas ao varejo, apenas em janeiro (sobre dezembro), "é um dado muito forte". Se o brasileiro consome mais do que produz, tem de suprir parte do seu abastecimento lá fora. E é por isso que o desempenho das contas externas está negativo. O rombo em Conta Corrente (comércio, serviços e transferências das famílias) em 2012 aponta para US$ 42,1 bilhões, ou 2,1% do PIB, conforme mostraram ontem as projeções do Banco Central.

Esse aumento do suprimento externo não acontece somente na importação pela indústria de matérias-primas, peças, componentes e conjuntos. Ocorre também na área de alimentos (especialmente trigo) e combustíveis. Ainda na quarta-feira, a Petrobrás avisou que o consumo de gasolina cresceu 32% no primeiro bimestre deste ano em relação a mesmo período do ano passado. É o fator que vai forçando mais as importações de combustíveis pela Petrobrás.

Tudo isso acirra o drama da indústria nacional, que não consegue competir nem fora nem dentro do País, mesmo num ambiente de forte expansão do consumo e de quase pleno emprego. Como vai sendo mais entendido, isso se dá porque o custo Brasil (impostos, juros, energia elétrica, salários, infraestrutura, etc.) está cada vez mais alto.

Esse rombo das Contas Correntes continua sendo folgadamente coberto com entrada de capitais, sobretudo pelos Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs). Nessa conta, o Banco Central prevê em 2012 uma entrada líquida de US$ 50 bilhões. Mas há grande probabilidade de que fique mais perto dos US$ 60 bilhões. Nos dois primeiros meses do ano, desembarcaram por aqui US$ 9,1 bilhões em IEDs. E o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, adiantou ontem que, somente em março (até dia 21), entraram mais US$ 3,1 bilhões.

O consumo turbinado, num momento em que a economia mundial ainda derrapa na crise, é um dado positivo na ficha do Brasil. Mas esconde um problema e uma fragilidade.

O problema é o risco de inflação de demanda, principalmente no setor de serviços. O Banco Central voltou a falar que poderá recorrer aos chamados mecanismos macroprudenciais. Isso pode indicar que prepara novas restrições ao crédito.

A fragilidade é o baixo índice de poupança (hoje avaliado em 17% do PIB), que tende a encolher ainda mais. Quem poupa pouco investe pouco. E o baixo investimento hoje implica menos produção e menos emprego amanhã. Não está claro que o governo federal pretenda enfrentar essa fragilidade.

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