Consumo vai bancar a recuperação

Da expansão de 2,2% prevista para o 2º semestre, 1,4 ponto virá do consumo das famílias e 0,8 ponto, do governo

Marcelo Rehder e Márcia De Chiara, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

O consumo das famílias e do governo deverá ser responsável por 100% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo semestre deste ano. Da expansão de 2,2% no PIB prevista para o período, em relação ao segundo semestre do ano passado, o consumo das famílias deverá representar 1,4 ponto porcentual, aponta a consultoria MB Associados. O restante (0,8 ponto porcentual) virá do consumo do governo.O modesto crescimento de 2,2% do PIB, bancado pelo consumo e esperado para o segundo semestre, sinaliza que a economia deve se recuperar lentamente nos próximos meses, depois do baque sofrido na virada de 2008. A consultoria prevê que o PIB encerre 2009 com crescimento zero."Antes, essa composição do PIB era mais variada, mesmo em outras recessões, como a de 2001 ou a de 2003", diz Sergio Vale, economista-chefe da MB. "Isso é importante para mostrar que os investimentos e as exportações devem continuar sofrendo por causa da crise internacional", observa. O economista ressalta que a estrutura de consumo hoje tem mais canais de crescimento do que no passado. "A renda e o crédito estão muito mais equilibrados hoje." Segundo Sergio Vale, a renda não depende tanto da classe média, que foi a que mais perdeu na crise, e o crédito teve desenvolvimentos importantes nos últimos anos, como a queda da taxa de juros para níveis historicamente baixos e a expansão do crédito consignado."Há uma forte relação inversa entre a taxa de juros real e as vendas do comércio varejista, ou seja, quanto menor a taxa de juros real, maiores as vendas do comércio", diz Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores.Borges ressalta que as taxas de juros menores não significam apenas redução do custo do crediário, mas também estimulam os bancos a ampliar os prazos de financiamento ao consumidor e a direcionar mais recursos para o crédito, em vez de simplesmente aplicá-los em títulos públicos.As taxas de juros reais, que no fim do primeiro trimestre estavam em torno de 7,8% ao ano, deverão chegar em dezembro perto de 5% ao ano, supondo que a Selic caia para 9,25% até lá, conforme estimativa da LCA. "Isso deverá gerar um estímulo importante para as vendas já no segundo semestre de 2009 e também em 2010."Não é por menos que a LCA projeta um desempenho no segundo semestre mais favorável para os setores do varejo mais sensíveis ao crédito e à confiança. Móveis e eletrodomésticos, por exemplo, devem ter crescimento de 1% em relação ao mesmo período de 2008, depois de uma queda estimada em 0,5% no primeiro semestre.Nas concessionárias de automóveis e de veículos comerciais leves, o crescimento esperado é de 19,6%. Já nos depósitos de materiais de construção, cuja queda prevista nas vendas do primeiro semestre chega a 5,9%, deverá ocorrer expansão de 2,3%.Os fabricantes de eletrodomésticos da chamada linha branca (fogões, geladeiras e lavadoras) e as montadoras de automóveis atribuem o bom desempenho das vendas ao corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)."Se o corte de IPI para os eletrodomésticos for renovado em julho, a perspectiva é fechar 2009 repetindo os números de vendas de 2008", diz Lourival Kiçula, presidente da Eletros, entidade que reúne os fabricantes de produtos eletroeletrônicos. Kiçula diz que o corte de impostos conseguiu reverter a queda nas vendas em relação ao mês anterior e estancar as demissões. De abril para maio, as vendas industriais desses itens cresceram entre 20% e 25%. "Mas a recuperação dos volumes não é nada sensacional", ressalva.CONFIANÇAO comércio varejista confirma a reação nas vendas. Atraídos pelo preço menor, os consumidores voltaram a comprar eletrodomésticos em maior escala. Na rede das Lojas Cem, por exemplo, o corte no IPI respondeu por dois pontos porcentuais do crescimento de vendas de 9% de maio. "A redução de preço teve efeito psicológico muito grande", comenta o diretor de Relações com o Mercado, Valdemir Colleone.O executivo ressalta que o consumidor está mais confiante com o emprego e menos reticente na hora de comprar. "O grande medo do consumidor era o desemprego em massa, que já ficou para trás", diz ele. A Sondagem do Consumidor da Fundação Getúlio Vargas em maio revela que, pela primeira vez desde setembro do ano passado, a confiança na situação presente da economia cresceu em relação ao mês anterior, apontando uma virada no indicador.Pesquisa com 2 mil consumidores em todo o País, feita pela CNT/Sensus, confirma que a preocupação com o risco de desemprego diminuiu. Em maio, 39,1% dos entrevistados informaram que tinham receio de perder o emprego, ante 44,8% em março."O surpreendente é que as vendas no varejo não caíram", observa o superintendente de Pesquisas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Ernani Torres. Segundo ele, ao contrário do que ocorreu em outras crises, a inflação não disparou, e até recuou, a massa de salários subiu e o governo não quebrou. "A redução dos juros em alguns pontos ajuda a turbinar o consumo", observa Torres.Paulo Secches, presidente da Officina Sophia, especializada em pesquisas de mercado, confirma o comportamento inesperado do consumidor na crise atual. Pesquisa feita por Secches com 500 consumidores de todas as classes sociais, na Grande São Paulo, revelou que 40% dos entrevistados não cortaram compras de produtos e serviços por causa da crise. Entre os motivos desse comportamento atípico, segundo ele, estão a manutenção da renda e a volta do crédito.

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