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Térmica no Estado do Rio; energia gerada nessas usinas é mais cara que a das hidrelétricas. GNA/Divulgação

Conta de luz pode subir 21% em 2022 por causa de rombo da crise hídrica, prevê Aneel

Estimativa consta de documento interno da agência reguladora ao qual o 'Estadão' teve acesso; a Aneel calcula que o rombo deixado pela crise hídrica será de R$ 13 bilhões até abril de 2022, sem contar a fatura da importação de energia

André Borges , O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 15h00
Atualizado 12 de novembro de 2021 | 21h20

BRASÍLIA - O aumento no preço da conta de luz não dará trégua ao consumidor no ano que vem. O reajuste que documentos oficiais do governo e do próprio setor elétrico preveem é superior a 20% em 2022, uma alta que vai turbinar ainda mais a inflação e corroer a renda do cidadão.

O Estadão teve acesso a um documento interno da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) emitido na sexta-feira, 5, no qual o órgão regulador faz uma projeção sobre o impacto financeiro que a atual crise hídrica terá sobre a conta de luz em todo o País, devido às medidas que foram adotadas para garantir o abastecimento de energia. A conclusão é trágica.

"Nossas estimativas apontam para um cenário de impacto tarifário médio em 2022 da ordem de 21,04%”, diz o texto. Considerando dados da própria Aneel, o reajuste acumulado neste ano só para o consumidor residencial chega a 7,04%, ou seja, o aumento projetado para o ano que vem praticamente triplica a alta de 2021. Em 2020, o aumento médio foi de 3,25%.

Nos últimos meses, cada consumidor de energia tem bancado, mensalmente, o custo pesado das chamadas “bandeiras tarifárias”, uma taxa extra que é incluída na conta de luz para pagar o acionamento das usinas térmicas, que são bem mais caras que as hidrelétricas. Isso tem ocorrido por causa da falta de chuvas e do esvaziamento dos principais reservatórios do País. 

Uma das principais razões de se fazer essa cobrança mensal do consumidor é evitar que essas contas fossem pagas depois, nos reajustes anuais, como acontecia antes. Ocorre que nem mesmo as bandeiras tarifárias têm conseguido cobrir o rombo atual.

Após analisar as projeções de geração de energia e os custos previstos - incluindo informações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) -, a área técnica da agência reguladora concluiu que, até abril de 2022, as “melhores estimativas” apontam para um rombo de RS 13 bilhões, “já descontada a previsão de arrecadação da receita da bandeira tarifária patamar escassez hídrica no período”, ou seja, o nível mais alto de cobrança da taxa extra.

O acionamento de tudo quanto é usina térmica no País não é o único fator que explica o rombo financeiro do setor elétrico e que terá de ser quitado pelo cidadão. Outra fatura estimada em mais R$ 9 bilhões que será paga pelo consumidor tem origem nas contratações “simplificadas” de energia feitas pelo governo no mês passado. Trata-se de uma “energia de reserva” que será entregue a partir de maio do ano que vem, para dar mais segurança e evitar o racionamento.

Os reajustes são puxados ainda pelo aumento de importação de energia, por meio de contratos firmados com Argentina e Uruguai. Como os reajustes de tarifas são feitos anualmente pela Aneel, após analisar os custos de cada distribuidora de energia do País, o porcentual de aumento varia de Estado para Estado.

O aumento do preço da energia, somado à alta dos combustíveis e do gás de cozinha, são os fatores que mais afetam a inflação no País e massacram a renda da população, porque seus impactos são disseminados em todo tipo de consumo, seja das famílias ou de empresas.

 

Após a publicação da reportagem, a Aneel divulgou a seguinte nota, em que afirma que as estimativas da agência são preliminares e baseadas em cenários hipotéticos:

Nota de Esclarecimento

A Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL esclarece que as informações veiculadas em reportagens publicadas nesta sexta-feira (12/11) sobre aumento na conta de luz em 2022 correspondem a estimativas preliminares baseadas em cenários hipotéticos que ainda não consideram as medidas de atenuação tarifárias que serão implementadas em 2022.   

O Brasil no último período úmido registrou o pior regime de chuvas dos últimos 91 anos. Em razão desse cenário adverso, para compensar o baixo nível dos reservatórios com a falta de chuva, têm sido utilizados todos os recursos de oferta de energia disponíveis e foram tomadas medidas excepcionais para assegurar o suprimento de energia no País. 

A ANEEL salienta que, no exercício de sua competência legal de regular o setor elétrico brasileiro, em observância às políticas públicas emanadas do Ministério de Minas e Energia – MME, tem envidado esforços para atenuar os impactos da escassez hídrica nos processos tarifários de 2022, a exemplo de todos os esforços que foram empreendidos nos anos de 2020 e 2021 e que permitiram que os impactos da pandemia no aumento das tarifas fossem significativamente reduzidos, em prol de toda a sociedade brasileira e da sustentabilidade do setor elétrico.

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Situação atual dos preços da conta de luz é insustentável, dizem representantes de consumidores

Para o Idec, o governo tem falhado em apresentar um planejamento que evite rombos financeiros; cálculos da CNI apontam que o aumento da energia vai resultar em uma queda de R$ 8,2 bilhões no PIB no ano que vem

André Borges , O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 16h34
Atualizado 12 de novembro de 2021 | 20h32

BRASÍLIA - Instituições que representam todos os consumidores de energia do País cobram medidas efetivas do governo para resolver o caos financeiro que toma conta do setor. O coordenador do programa de energia do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Clauber Leite, afirma que o governo tem falhado em apresentar um planejamento que evite rombos financeiros como o atual.

“O caminho para mais uma solução insustentável está posto, e isso vemos com a notícia do rombo que ficará para o setor elétrico, após esse acionamento indiscriminado de térmicas. Já tínhamos alertado para esse risco de um novo empréstimo a ser tomado em nome dos consumidores e parece que temos mais um elemento para irmos nessa direção”, afirmou. 

“Há necessidade de uma modernização do setor. Uma solução paliativa, como o empréstimo para cobrir esse rombo, só resolve o aumento para o ano que vem, e joga a dívida para os anos seguintes. Não é possível ficarmos recorrendo a essa solução, enquanto não se estanca a sangria, que é a vulnerabilidade do setor elétrico a uma crise hídrica e climática”, disse.

O Estadão teve acesso a um documento interno da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) no qual o órgão regulador projeta "impacto tarifário médio em 2022 da ordem de 21,04%", devido às medidas que foram adotadas para garantir o abastecimento de energia. Considerando dados da própria Aneel, o reajuste acumulado neste ano só para o consumidor residencial chega a 7,04%, ou seja, o aumento projetado para o ano que vem praticamente triplica a alta de 2021. Em 2020, o aumento médio foi de 3,25%.

Na avaliação do Idec, as mudanças climáticas, que afetam o regime das chuvas, devem ser incorporadas no planejamento e na operação do setor, com o aumento de fontes mais renováveis na matriz elétrica.

O presidente da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Paulo Pedrosa, chama a atenção para o custo médio das térmicas, um triplo acima do normal. “A Abrace vem alertando seus associados há muito sobre a explosão do custo da energia para o próximo ano. Só em relação aos Encargos de Serviço do Sistema (ESS), térmicas contratadas emergencialmente e a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) podem superar o preço de R$ 130 por megawatt-hora em 2022, quando não deveria ultrapassar R$ 40”, explica. “É quase o custo de uma energia nova. É importante atacar a raiz dos males que comprometem o setor elétrico. O preço equivocado da energia esvazia os reservatórios e depois cobra caro dos consumidores para enchê-los de novo.”

Cálculos realizados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que o aumento no preço da energia elétrica resultará em uma queda de R$ 8,2 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, neste ano, em comparação com o que ocorreria sem a crise energética.

Para 2022, estima a CNI, a previsão de perda chega a R$ 14,2 bilhões devido ao custo energético. “Neste ano, o consumo das famílias se reduzirá em R$ 7 bilhões, as exportações terão perdas equivalentes a R$ 2,9 bilhões, e o impacto no emprego será de menos 166 mil postos de trabalho”, afirmou a CNI.

Em 2021, o PIB industrial, que inclui indústrias extrativa e de transformação, serviços industriais de utilidade pública e a construção, deve se reduzir em R$ 2,2 bilhões em comparação ao que ocorreria sem o aumento de custo da energia elétrica. Somente o PIB da indústria de transformação ficará R$ 1,2 bilhão menor neste ano.

Após a publicação da reportagem, a Aneel divulgou a seguinte nota, em que afirma que as estimativas da agência são preliminares e baseadas em cenários hipotéticos:

Nota de Esclarecimento

A Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL esclarece que as informações veiculadas em reportagens publicadas nesta sexta-feira (12/11) sobre aumento na conta de luz em 2022 correspondem a estimativas preliminares baseadas em cenários hipotéticos que ainda não consideram as medidas de atenuação tarifárias que serão implementadas em 2022.   

O Brasil no último período úmido registrou o pior regime de chuvas dos últimos 91 anos. Em razão desse cenário adverso, para compensar o baixo nível dos reservatórios com a falta de chuva, têm sido utilizados todos os recursos de oferta de energia disponíveis e foram tomadas medidas excepcionais para assegurar o suprimento de energia no País. 

A ANEEL salienta que, no exercício de sua competência legal de regular o setor elétrico brasileiro, em observância às políticas públicas emanadas do Ministério de Minas e Energia – MME, tem envidado esforços para atenuar os impactos da escassez hídrica nos processos tarifários de 2022, a exemplo de todos os esforços que foram empreendidos nos anos de 2020 e 2021 e que permitiram que os impactos da pandemia no aumento das tarifas fossem significativamente reduzidos, em prol de toda a sociedade brasileira e da sustentabilidade do setor elétrico.

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Reajuste de 21% estimado para a conta de luz em 2022 será o maior em 7 anos

Em 2015, aumento chegou a 30,73% após uma série de acordos com distribuidoras e renovações antecipadas de concessões; agora, a projeção da Aneel considera as perdas causadas ao setor pela crise hídrica

André Borges , O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 17h41

BRASÍLIA - A confirmação de que a conta de luz pode ter um aumento médio de 21% em 2022, conforme cálculos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), levaria o consumidor brasileiro a reviver o pesadelo de 2015, quando o setor elétrico impôs seu “realismo tarifário” para acertar contas que tinham ficado em aberto nos anos anteriores junto às distribuidoras de energia.

Em 2015, segundo dados da Aneel, o reajuste médio das tarifas cobradas do consumidor residencial chegou a alarmantes 30,73%, após ser firmada uma série de acordos com as distribuidoras e renovações antecipadas de concessões de transmissão e geração de energia, drama que foi aprofundado pela escassez hídrica dos anos anteriores.

Em 2013, nas prévias da campanha eleitoral, a então presidente Dilma Rousseff chegou a ir para a TV e declarar, em rede nacional, que haveria um corte na tarifa de energia para residências de até 18% naquele ano e de até 32% para a indústria. Os cortes ocorreram, mas o preço das medidas acabou sendo cobrado em 2015.

Passado o pesadelo do tarifaço, o setor procurou formas de voltar à normalidade. Em 2016, a conta de luz do consumidor residencial chegou a ter queda de 1,49%. O reajuste saltou para 4,83% em 2017, e, no ano seguinte, chegou a 14,99%. Em 2019, houve nova redução e o índice médio ficou em 1,67% de aumento, saltando para 3,25% no ano passado.

Diferentemente do que ocorreu há sete anos, os problemas atuais que encarecem o custo da energia não estão ligados a renovações antecipadas de concessões de energia, mas sim concentrados na crise hídrica, que obrigou o setor elétrico a buscar fontes térmicas de energia para garantir o abastecimento, enquanto preserva, minimamente, os níveis dos reservatórios das principais hidrelétricas do País.

Há meses, todas as plantas térmicas movidas a diesel, gás, biomassa e carvão do País operam a plena carga. O combustível usado por essas usinas, no entanto, tem preço alto. Se a situação é de emergência, esse custo aumenta mais ainda.

A preocupação, no momento, não diz respeito apenas à geração de energia neste ano, mas em como o parque elétrico brasileiro estará em maio do ano que vem, quando começará o novo ciclo de seca. Se os reservatórios não tiverem seus níveis médios recuperados nos próximos meses, os riscos de falta de energia se projetam - e talvez com maior intensidade - para 2022, ano de eleição em todo o País.

Após a publicação da reportagem, a Aneel divulgou a seguinte nota, em que afirma que as estimativas da agência são preliminares e baseadas em cenários hipotéticos:

Nota de Esclarecimento

A Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL esclarece que as informações veiculadas em reportagens publicadas nesta sexta-feira (12/11) sobre aumento na conta de luz em 2022 correspondem a estimativas preliminares baseadas em cenários hipotéticos que ainda não consideram as medidas de atenuação tarifárias que serão implementadas em 2022.   

O Brasil no último período úmido registrou o pior regime de chuvas dos últimos 91 anos. Em razão desse cenário adverso, para compensar o baixo nível dos reservatórios com a falta de chuva, têm sido utilizados todos os recursos de oferta de energia disponíveis e foram tomadas medidas excepcionais para assegurar o suprimento de energia no País. 

A ANEEL salienta que, no exercício de sua competência legal de regular o setor elétrico brasileiro, em observância às políticas públicas emanadas do Ministério de Minas e Energia – MME, tem envidado esforços para atenuar os impactos da escassez hídrica nos processos tarifários de 2022, a exemplo de todos os esforços que foram empreendidos nos anos de 2020 e 2021 e que permitiram que os impactos da pandemia no aumento das tarifas fossem significativamente reduzidos, em prol de toda a sociedade brasileira e da sustentabilidade do setor elétrico.

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