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Contas externas em alerta

Déficit em transações correntes subiu para o equivalente a 2,05% do PIB

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2019 | 04h00

O aumento no rombo das contas externas do Brasil colocou o tema no radar dos investidores. O sinal amarelo ainda não acendeu, mas o mercado passou a monitorar atentamente esse saldo das transações do Brasil com o exterior, uma vez que o déficit cresceu muito rapidamente nos últimos quatro meses em meio à desaceleração da economia mundial.

Conforme os dados mais recentes do Banco Central, o déficit em transações correntes – refletindo o saldo da balança comercial, de serviços e de transferências unilaterais, como remessas de lucros e dividendos – subiu para o equivalente a 2,05% do Produto Interno Bruto (PIB) em 12 meses acumulados até setembro, ou US$ 37,435 bilhões. Em 12 meses até maio, esse rombo estava em apenas 0,75% do PIB.

Aliás, maio foi o último mês que as contas correntes do Brasil registraram superávit. Desde então, o rombo é crescente. Em setembro, o déficit foi de US$ 3,487 bilhões, pior resultado para o mês desde 2014. Em agosto, havia sido de US$ 4,274 bilhões. O rombo em julho foi de pouco mais de US$ 9 bilhões e em junho, de US$ 2,914 bilhões. Para outubro, o BC estima um rombo de US$ 5,8 bilhões.

A explicação para o salto do déficit de transações correntes como proporção do PIB de 0,75% para 2,05% entre maio e setembro tem a ver, em parte, com a mudança na metodologia do cálculo das contas externas feita em setembro pelo BC, afetando, entre outras coisas, números dos últimos anos referentes a lucros e dividendos.

Todavia, é inegável que outra explicação importante da piora nas contas externas tem a ver com fatores conjunturais, em especial a redução do superávit da balança comercial. As exportações brasileiras vêm sofrendo com a crise na Argentina e a menor demanda de outros países cujas economias vêm se desacelerando fortemente. Para agravar a situação, a disputa comercial entre Estados Unidos e China afeta ainda mais a demanda mundial por produtos.

Em outubro, por exemplo, a balança comercial brasileira registrou o pior superávit em cinco anos para o mês: US$ 1,2 bilhão, valor quase 80% menor do que o obtido em igual mês de 2018. As exportações somaram US$ 18,23 bilhões, uma queda de 20,4% em comparação com outubro de 2018. Essa queda foi em razão da redução nas vendas de petróleo, aço, soja, automóveis de passageiros e minério de ferro, que, juntos, responderam por mais de 55% do recuo. Já as importações somaram US$ 17,02 bilhões, uma alta de 1,1% na mesma comparação.

Mas o nível de déficit em conta corrente de 2% do PIB já é preocupante? Não, necessariamente. Primeiro, porque uma economia com baixa poupança doméstica como é a brasileira, é normal que conte com financiamento externo para crescer. Mas o que pode deixar os investidores em alerta é que o Brasil já registra um déficit de conta corrente de 2% com o PIB, crescendo muito pouco, com a expectativa de expansão abaixo de 1% neste ano.

Assim, se o PIB brasileiro engatar um crescimento mais acelerado, o temor é de que o rombo nas contas externas suba muito mais, pois o aquecimento da economia pode resultar em aumento significativo nas importações. E, com isso, o saldo da balança comercial pode cair rapidamente. O outro lado da moeda é que com o crescimento mais acelerado do PIB, o Brasil pode atrair mais capital externo, via investimento direto, por exemplo, e isso compensaria a piora da balança comercial.

Outro elemento importante é que o Brasil está começando um ciclo de crescimento econômico com um câmbio relativamente depreciado, em termos reais. Isso faz com que a recuperação da economia pressione menos as importações, pois, com uma taxa de câmbio mais depreciada, comprar do exterior fica mais caro. Assim, o ritmo de piora do saldo comercial pode ser menor do que no passado quando a recuperação da economia se deu com um câmbio mais apreciado.

De qualquer forma, mesmo que um nível de déficit de conta corrente de 2% do PIB ainda não preocupe, o ritmo de seu aumento acende um alerta para 2020: a recuperação da economia vai elevar as importações e, assim, piorar a balança comercial? Ou um PIB maior poderá atrair fluxo externo para o Brasil? A ver. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

 

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