Contêineres vazios expõem a ''desglobalização''

Investimentos despencam, comércio internacional sofre retração recorde e PIB global deve encolher 1,1%

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

No porto de Shenzhen, na China, comerciantes de commodities europeus levaram um susto nesta semana, quando desembarcaram para fazer negócios: nada menos que 400 mil contêineres vazios se acumulavam no local. Foi um sinal assustador. Depois de 20 anos de avanço sem precedentes na integração dos mercados, expansão do comércio, aumento de investimentos e de fluxos de capitais, a atual crise coloca pela primeira vez um freio, mesmo que temporário, na "era de ouro" da globalização.Os investimentos das maiores economias despencaram, o comércio internacional sofre a pior retração em três décadas e até o número de imigrantes nos países ricos começa a cair.Para o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), o Produto Interno Bruto (PIB) mundial deve encolher pelo menos 1,1% em 2009. A queda poderá ser "a maior da história moderna", segundo a entidade que reúne os maiores bancos privados do planeta. Dados oficiais já mostram que a primeira recessão simultânea do Japão, dos Estados Unidos e da Europa desde a 2ª Guerra Mundial está revertendo anos de integração de mercados. Entidades, governos e especialistas temem os impactos sociais e políticos desse freio e apelam para que o G-20, que se reúne no início de abril, dê sinais claros de que haverá coordenação mundial contra a crise.A falta de atividade nos portos é a parte mais visível do freio na integração de mercados. Segundo uma pesquisa do jornal Straits Times, de Cingapura, o número de navios vazios nunca foi tão grande. No total, 392 cargueiros estariam parados em portos de todo o mundo. De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo, o volume de cargas transportado em janeiro já encolheu 23%. Dados provisórios da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que a retração no fluxo de bens em 2009 poderá ser de 3%, o pior índice em mais de 30 anos.PROTECIONISMOIndicadores de atividade divulgados esta semana mostraram que, de fato, o cenário já é inédito. O Japão registrou uma queda de quase 46% em suas exportações em janeiro e acumulou o maior déficit comercial de sua história. A maior exportadora do mundo, a Alemanha, também sofre. Nos últimos três meses de 2008, a queda das vendas foi de mais de 7%, o suficiente para gerar uma retração de 2% no PIB do país.Segundo um estudo elaborado pela European Economic Advisory Group, a Alemanha será o único país da zona do euro que, em 2010, continuará encolhendo, por causa da grande dependência das exportações.Sem ter compradores assegurados, as grandes economias começam a somar déficits. O comércio entre a Europa e os Estados Unidos caiu em 5%.Para completar o cenário, um número cada vez maior de governos adota medidas protecionistas ou que distorcem os mercados. Para o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, a proliferação de barreiras poderia agravar a crise. "Esse não é o caminho", afirmou Lamy, em um discurso em Tóquio."Estamos vendo um aumento na retórica antiglobalização; a questão é se essa retórica vai se traduzir em força política. Se isso ocorrer, as consequências podem ser negativas para todos", afirmou Donald Boudreaux, professor de economia na Universidade de Virgínia. O segundo pilar da globalização, o fluxo de investimentos, também já desabou. Dados divulgados pelas Nações Unidas apontaram que os investimentos diretos no planeta caíram US$ 400 bilhões apenas em 2008 e a queda será ainda mais forte neste ano. O cenário mais pessimista diz que o crescimento pode voltar só em 2012. "O ano de 2008 marca o fim de um ciclo de investimentos internacionais", disse a entidade. A crise também está gerando outro fenômeno: o freio sem precedentes nos fluxos de capitais para países emergentes. Em dois anos, o volume de recursos passou de cerca de US$ 1 trilhão para US$ 165 bilhões, uma redução de 86%.Para os mais críticos, já se poderia falar em "anos de desglobalização", diante da queda nos fluxos de comércio e investimentos. Esse é o caso do economista filipino Walden Bello. Seu livro Desglobalização. Ideias para uma Nova Economia Mundial teria cunhado o novo termo. "É verdade que a globalização trouxe riscos, mas hoje o maior risco é a desglobalização", afirma Joaquin Almunia, comissário de Economia da União Europeia.

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