ZE PAULO CARDEAL/GLOBOPLAY
ZE PAULO CARDEAL/GLOBOPLAY

coluna

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‘Conteúdo nacional é nossa vantagem competitiva’

Sem intenção de atuar fora do País, Globoplay decide concorrer diretamente com as gigantes do streaming

Entrevista com

João Mesquita, presidente do Globoplay

Fernando Scheller, O estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 04h00

Líder do mercado brasileiro de televisão, a Rede Globo se vê em uma situação diferente do que se refere no setor de streaming, no qual precisa brigar com gigantes globais como Netflix, Amazon e HBO (parte da Warner Media, controlada pela AT&T). Para se defender de concorrentes com bilhões de dólares para investir, a empresa aposta em um trunfo: as produções locais.

 Desde 2017 à frente da “virada” do Globoplay – que deixou de ser um “espelho” da TV Globo para ter um cardápio próprio de conteúdo –, o executivo português João Mesquita afirma que a briga pelo mercado brasileiro não é só “questão de dinheiro”. “Produzimos há muito tempo novelas, séries e minisséries de sucesso para o público brasileiro”, diz.

 Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Quando o Globoplay decidiu deixar de ser ‘espelho’ da TV Globo para se tornar um serviço de streaming para rivalizar com gigantes internacionais?

A decisão foi tomada em 2017. Em 2018, começamos a focar em contratos de aquisição e nas novas plataformas de vídeo e cobrança. O conteúdo internacional estreou em agosto do ano passado, com a série The Good Doctor. Mas foi apenas uma experiência. O grosso desse conteúdo novo veio no primeiro trimestre deste ano.

É um movimento recente.

Sim, e feito passo a passo. Não houve um dia em que a pessoa abriu o Globoplay e viu o site cheio de conteúdo internacional. A cada semana, vai haver coisas novas para o cliente.

A prioridade é para séries exclusivas para o Brasil?

Como em qualquer plataforma de streaming, exclusividade é fundamental. Então, há um esforço nesse sentido. Mas não teremos só conteúdos exclusivos, porque o consumidor precisa também de variedade. 

O que convence o consumidor a pagar pelo serviço?

Não há dúvida que a conversão é determinada pelo conteúdo exclusivo, de muito valor para o assinante. No nosso caso, são séries de valor agregado, como The Good Doctor e Deadly Class. A manutenção da pessoa ao longo do tempo, no entanto, reflete os demais conteúdos. E essa é uma grande diferenciação em relação às plataformas globais. O fato de pertencermos ao maior grupo de mídia no Brasil, com experiência em TV aberta e fechada, nos dá acesso a conteúdos que não são exclusivos, mas que prestam um serviço ao consumidor.

Como assim?

O fato de a gente deixar disponível a novela para que as pessoas assistam em outro momento ajuda a justificar a assinatura. Com Órfãos da Terra (novela das 18h), fizemos a experiência de liberar capítulos 24h antes da exibição na TV. 

O conteúdo de TV aberta é diferente do que se vê em serviços premium, como ‘Game of Thrones’ e ‘The Crown’. O Globoplay terá mais produções próprias?

Na TV, há busca pelo máximo de audiência para ajudar a venda de publicidade. No streaming, há espaço para produtos de nicho, até porque não há amarras de classificação indicativa. Podemos arriscar em conteúdos com mais violência, drama e sexo, que não caberiam no horário de 21h. Ao mesmo tempo, ao encomendar um produto, temos a preocupação de que ele não fique necessariamente restrito a uma plataforma. É possível fazer algo pensando no Globoplay, com cortes para eventual exibição na TV.

Mas passar na Globo não acaba sendo uma ‘propaganda’ para o Globoplay?

Temos usado essa estratégia, desde que esteja no target de público da emissora. Podemos passar o primeiro episódio na Globo, divulgando série que está na íntegra no Globoplay.

No Rio2C, vocês falaram de ‘Aruanas’ e da nova temporada de ‘Sessão de Terapia’. São produtos exclusivos do Globoplay?

São conteúdos inéditos e exclusivos por um longo período no Globoplay. Quando acharmos que faz sentido, essas séries poderão ser exibidas na TV – Aruanas, na TV Globo, e Sessão de Terapia, no GNT. Mas nada está escrito em pedra. A segunda temporada de Ilha de Ferro, com Cauã Reymond, já está para chegar no Globoplay, mas a primeira ainda não tem previsão de exibição na Globo.

A Netflix anunciou 30 novos filmes e séries no Brasil nos próximos dois anos. O Globoplay vai acelerar as produções originais?

O grupo, via TV Globo e Globosat, produz muito mais do que isso. Mas o universo de produções exclusivas para o Globoplay vai aumentar. HBO e Netflix juntas não têm nosso volume de produção nacional. Por muito tempo, essa será uma vantagem competitiva, tanto pela quantidade quanto pela qualidade. Não basta produzir 30 séries novas, é preciso que algumas delas funcionem. E nós produzimos há muito tempo novelas, séries e minisséries de sucesso para o público brasileiro. A questão não é só dinheiro.

É possível criar uma força local em um cenário em que as gigantes do streaming se tornam cada vez maiores?

Nossa grande vantagem é a produção orientada para o mercado brasileiro. De forma fria, uma operação global de streaming tem mais chances de sucesso do que uma regional. Em teoria, estaríamos em desvantagem. Por sorte, o Brasil é um país continental e dá para ganhar escala aqui dentro. Podemos construir escala para sermos rentáveis no mercado nacional, concorrendo com operações globais.

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