Danny Moloshok/Reuters
Danny Moloshok/Reuters

Contra a felicidade

As empresas que tentam transformar a felicidade em instrumento de gestão estão passando dos limites

The Economist, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2016 | 05h00

Eustace Percy, ministro da Educação do Reino Unido entre 1924 e 1929, não aprovava a onda de educação “progressista”, baseada numa visão cor-de-rosa e sorridente do mundo, que se espalhou pelas escolas britânicas no período em que ele esteve no governo. Achava a coisa um despropósito: “é preciso ensinar as crianças a se preparar para as tristezas da vida”. Há quem experimente ceticismo semelhante diante do modelo “alegria pura” de gestão, atualmente em voga em muitas empresas e até governos.

A líder do movimento “só sorrisos” é a loja online de calçados Zappos, que espera ver seus funcionários entrando em delírio ao vender um par de sapatos. A rede de fast food britânica Pret A Manger dá a impressão de querer se destacar tanto por seus sanduíches, quanto por seu bom humor. Comissários e comissárias de bordo são tradicionalmente treinados para esbanjar simpatia, mas os da companhia aérea Virgin Atlantic parecem prestes a sair cantando e dançando pelo corredor da aeronave. Até pouco tempo atrás, havia no Google um engenheiro com o título de “bom camarada”: entre outras atribuições, o sujeito se encarregava de disseminar serenidade e bons sentimentos entre os colegas de trabalho.

Não são poucos os gurus e consultorias que pregam o culto à felicidade. Shawn Anchor, que já foi professor em Harvard, atualmente ganha a vida ensinando grandes empresas do mundo inteiro a transformar a satisfação e o bem-estar em vantagem competitiva. Uma de suas regras é instaurar no ambiente de trabalho a “higiene da alegria”: assim como devem escovar os dentes todos os dias, as pessoas precisam cultivar pensamentos positivos e escrever e-mails otimistas.

A Zappos está tão satisfeita com os efeitos da felicidade que criou uma consultoria chamada Delivering Happiness (“Entregando Felicidade”). Na equipe há um diretor de felicidade, um guia global de felicidade, um atacadista de felicidade, um alquimista de felicidade e, para os clientes com inclinações filosóficas, uma coruja de felicidade. A empresa de tecnologia Plasticity Labs, que nasceu de uma startup chamada Smile Epidemic (“Epidemia do Sorriso”), diz ter a missão de ajudar um bilhão de pessoas a encontrar o caminho da felicidade em suas vidas pessoais e profissionais.

A tendência não se limita ao setor privado. Alguns governos, inclusive os dos EUA, Reino Unido, França e Austrália, agora divulgam relatórios regulares sobre o nível de bem-estar nacional. O Butão há bastante tempo calcula sua felicidade interna bruta e os Emirados Árabes Unidos se orgulham de ter criado o Ministério da Felicidade.

No universo empresarial, há muito se sabe que há dinheiro a ser ganho nessa seara. O guru da administração Dale Carnegie diz que a melhor maneira de cultivar amigos e influenciar os outros é passar uma imagem de otimismo. A Disneylândia continua a ser “o lugar mais feliz da Terra”. As empresas americanas fazem questão de desejar “bom dia” a seus clientes. Um dos livros mais perspicazes sobre o fenômeno é The Managed Heart (“O Coração Administrado”), publicado em 1983, em que o sociólogo da Universidade da Califórnia Arlie Hochschild observa que muitas empresas exigem de seus funcionários um “trabalho emocional”, sob a forma de sorrisos e expressões de “sentimento positivo”.

Algumas empresas também tentam gerar bem-estar, oferecendo a seus empregados cursos de meditação, sessões de ioga e tudo o mais com que possam demonstrar seu interesse pelo “indivíduo como um todo”. Só os bobos alegres acreditam que isso é realmente para valer. Os teóricos da administração observam que uma das maiores ameaças ao desempenho de uma empresa é a falta de compromisso e o alheamento emocional dos funcionários. As pessoas felizes são mais empenhadas e produtivas, dizem os psicólogos. Em 2013, o instituto Gallup informou que a “infelicidade” dos trabalhadores custava à economia americana US$ 500 bilhões por ano em produtividade desperdiçada.

O problema é que a felicidade é algo vago. É difícil comprovar ou refutar os números do Gallup, pois não se sabe exatamente o que o instituto está medindo. Em vez de se preocupar em promover a sensação de bem-estar dos funcionários, as empresas fariam melhor se procurassem eliminar fatores específicos de aborrecimento, como as reuniões improdutivas e a elaboração de relatórios e documentos que não têm a menor razão de ser. O mais provável, porém, é que elas tentem desenvolver instrumentos cada vez mais sofisticados para avaliar o estado emocional dos funcionários. Já há pesquisadores trabalhando na criação de aplicativos para smartphone que ajudam as pessoas a registrar seus estados de humor, como o Track Your Happiness e o Moodscope. Talvez não esteja longe o dia em que, utilizando apps, câmeras e gravadores, os departamentos de recursos humanos passarão a medir os índices de euforia nas empresas.

Quem não esconde a tristeza se sente melhor. A ideia de criar cargos de “bom camarada” e “alquimista de felicidade” numa empresa é, sem dúvida, um tanto ridícula. Mas há algo de errado nisso? Diversos estudos acadêmicos indicam que o “trabalho emocional” pode gerar custos nada desprezíveis. Quanto mais os funcionários se sentem obrigados a estampar um sorriso largo no rosto, maior sua tendência a sofrer com problemas de estresse. E está se tornando gritante a contradição entre empresas que exigem demonstrações de alegria dos mesmos funcionários que são obrigados a aceitar contratos temporários de trabalho ou a atuar como “colaboradores” autônomos.

De qualquer foram, o maior problema do culto à felicidade é que se trata de uma interferência inaceitável na liberdade individual de cada um. Muitas empresas estão passando dos limites. Os funcionários da Ochsner Health System agora são obrigados a fazer contato visual e a sorrir sempre que se veem a três metros de distância de outra pessoa no interior de um dos hospitais da rede. A Pret A Manger envia falsos clientes para suas lanchonetes, a fim de determinar se são atendidos com a dose recomendada de alegria. Quando a lanchonete passa no teste, a equipe inteira recebe um bônus, o que incentiva os próprios funcionários a se transformarem em “policiais da felicidade”. Não há nada de mal em que as empresas exijam que seus funcionários sejam educados ao atender os clientes, mas elas não têm o direito de regulamentar o estado psicológico deles e transformar a felicidade num instrumento de controle corporativo.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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