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Contra-ataque

O financiamento do terrorismo islâmico agora baseia-se principalmente na apropriação de riquezas nos países dominados, especialmente pela venda de petróleo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 21h00

O terrorismo deve ser agora enfrentado com mais determinação e, sobretudo, com menos ambiguidade pelas potências do Ocidente.

Isso implica ações militares, controles de fronteira e aplicação de leis mais duras contra o tráfico de armamentos e de logística, como indicou o pronunciamento do presidente da França, François Hollande, perante o Parlamento reunido extraordinariamente em Versailles nessa segunda-feira.

O documento oficial da cúpula do Grupo dos Vinte (G-20) realizada nesse fim de semana em Antalya (Turquia) deixou claro dois outros pontos: (1) a escalada do terrorismo é sério obstáculo para a recuperação da economia mundial e precisa ser enfrentada com medidas de controles e legislação apropriada; e (2) é preciso reforçar as medidas de combate às fontes de financiamento das atividades terroristas.

O cerco ao fluxo de financiamento do terrorismo já vem sendo adotado a partir de providências tomadas há meses no âmbito do G-20, que passaram a bloquear o trânsito ilegal de capitais, a sonegação de tributos, a lavagem de dinheiro e a esvaziar as atividades dos paraísos fiscais das quais se vêm valendo os organizadores do terrorismo, especialmente o Isis (Estado Islâmico do Iraque e da Síria – ou do Levante). Mas, depois do que aconteceu na sexta-feira 13 em Paris e da nova disposição dos chefes de Estado, essa coordenação global deve intensificar-se.

(Nesse sentido, vai na contramão das decisões do G-20 a leniência contida no texto do Projeto de Lei 2.960/15, de repatriação de recursos, aprovado pela Câmara dos Deputados do Brasil, que admite anistia até mesmo para capitais obtidos de forma criminosa.)

O financiamento do terrorismo islâmico deixou de basear-se predominantemente em contribuições de pessoas físicas, de instituições e de governos do mundo islâmico, como era nos tempos da Al-Qaeda, de Osama bin Laden. Agora, baseia-se principalmente na apropriação de riquezas nos países dominados, especialmente pela venda de petróleo.

Ou seja, a partir do momento em que o Estado Islâmico deixou de ser um movimento puramente ideológico e passou a controlar territórios e a apropriar-se dos tesouros lá encontrados, o simples bloqueio do fluxo de recursos que patrocinam as atividades terroristas ficou insuficiente para deter seu avanço.

Isso sugere que, além de intensificar o cerco ao tráfico de armamentos, à lavagem de dinheiro e ao fluxo de recursos para o financiamento das atividade terroristas, as potências do Ocidente passem a intensificar ações militares destinadas a recuperar territórios hoje controlados pelo Isis.

De todo modo, é preciso saber a que governos serão entregues esses territórios assim que reconquistados. Essa parece ser a principal divergência entre os governos dos Estados Unidos e da Rússia. Se esse processo será ou não intermediado pelas Nações Unidas, de maneira a engajar no processo governos da Ásia e do Oriente Médio, é outro ponto que precisa ser esclarecido.

CONFIRA:

Pela primeira vez desde 2003, o mercado passou a prever inflação superior a 10% no ano.

 Diálogo com o Isis

À luz de tudo o que aconteceu antes e depois dos atentados de Paris, fica ainda mais incompreensível e irresponsável o pronunciamento da presidente Dilma na Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2014, quando condenou os ataques dos Estados Unidos ao terrorismo islâmico e reivindicou soluções com base no diálogo com os representantes do Isis, os mesmos que decepam cabeças sem admitir conversa com ninguém.

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