Contra impostos, Gérard Dépardieu muda de país

'Eu parto depois de ter pago em 2012 85% de imposto sobre minhas rendas. Mas conservo o espírito desta França que era bela e, espero, continuará', disse

Andrei Netto, correspondente,

17 de dezembro de 2012 | 02h07

  PARIS - Cansado da carga tributária da França, que em 2012 teria corroído 85% de sua renda, o ator Gérard Dépardieu, ícone do cinema mundial, anunciou no domingo, 16,ontem que abandonará o país e devolverá seu passaporte às autoridades. A decisão foi informada em carta aberta publicada no Journal de Dimanche, que serviu como resposta às recentes críticas do primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault, que o chamara de 'baixo' na última semana.

O texto, intitulado 'Baixo, o Senhor disse baixo?', causou escândalo em Paris pelas duras críticas ao governo do presidente François Hollande. "Nasci em 1948, comecei a trabalhar aos 14 anos como gráfico, na manutenção e depois como artista dramático. Sempre paguei meus impostos, qualquer que fosse sua taxa, e todos os governos que se sucederam. Em nenhum momento faltei com meus deveres."

Segundo Dépardieu, em 45 anos ele pagou à receita € 145 milhões. "Eu parto depois de ter pago em 2012 85% de imposto sobre minhas rendas. Mas conservo o espírito desta França que era bela e, espero, continuará".

Dépardieu protesta contra o tratamento que 'personagens mais ilustres' têm recebido por deixarem o país ou por transferirem seu domicílio fiscal ao exterior. "Infelizmente não tenho mais nada a fazer aqui, mas continuarei a amar os franceses e este público com o qual eu compartilhei tantas emoções", disse.

Além de transferir o domicílio fiscal, o ator colocou à venda sua mansão de Paris por € 50 milhões. E foi mais longe: "Entrego meu passaporte e minha inscrição de seguridade social, a qual nunca usei", informou, voltando a se dirigir a Ayrault. "Não temos mais a mesma pátria. Sou um verdadeiro europeu, um cidadão do mundo, como meu pai sempre me ensinou."

Alta dos impostos O aumento do montante pago em impostos em 2012 e, em consequência, a reação de Dépardieu se explicam pela decisão do governo de Hollande de elevar o Imposto de Renda, sob pretexto de enfrentar a crise econômica na zona do euro. Em 2012 e 2013, contribuintes com salários superiores a € 1 milhão por ano terão de deixar ao Fisco o equivalente a 75% dos rendimentos. A lei, que tem caráter simbólico, visa a indicar à população que as camadas mais abastadas da população também arcam com os sacrifícios do reequilíbrio fiscal.

Deixando o país, Dépardieu deve mudar para a Bélgica, mais precisamente para a cidade de Néchin, um vilarejo de 2 mil habitantes situado a oito quilômetros de Roubaix, última cidade do lado francês da fronteira. A confirmação foi feita pelo prefeito do vilarejo, Daniel Senesael, que teria recebido um telefonema do ator na manhã de ontem.

"Ele queria saber como funciona o sistema de seguro social na Bélgica e o que deveria fazer para solicitar um passaporte belga", afirmou Senesael.

Horas após a publicação da carta aberta, diversos ministros do governo Hollande vieram a público denunciar a iniciativa de Dépardieu. O ministro do Orçamento, Michel Sapin, o número 2 da área econômica, classificou a atitude como "abaixo do nível do ator".

A ministra da Cultura, Aurélie Filippetti, se disse escandalizada. "A cidadania francesa é uma honra. São direitos e deveres também, entre os quais o fato de pagar o imposto."

O ator não é a primeira personalidade a tomar a decisão de abandonar o país. Em setembro, o bilionário Bernard Arnault, diretor-presidente do grupo Moët Hennessy Louis Vuitton (LVMH), anunciou sua intenção de se transferir para a Bélgica. O jornal Libération publicou na época: "Caia fora, rico idiota".

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