Controlador e Controlado

A ampla diferença de votos (60 a favor e 39 contra) pela qual o Senado dos Estados Unidos aprovou as novas regras de controle das instituições financeiras esconde a feroz batalha de lobbies contra a regulação em que se engalfinharam os políticos.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

É a mais abrangente legislação de controle do até agora pouco regulado mercado financeiro dos Estados Unidos e uma inegável vitória política do presidente Barack Obama. Mas não dá para dizer que a guerra acabou. Uma batelada de matéria a ser regulamentada ainda vai mobilizar os senhores das finanças que pretendem se livrar rapidamente dos cães de guarda. E é nesses detalhes que mora o diabo, como se diz.

Mas a questão é ainda mais ampla. O mercado financeiro é extraordinariamente criativo e tão universalmente distribuído como o ar na atmosfera. Em outras palavras, os bancos hoje são globais e, no entanto, as instituições fiscalizadoras agora reforçadas atuam apenas localmente. A todo o momento, os lobbies bancários estão passando o recado de que não adianta regular: "Se vocês nos espremerem aqui, vamos para onde não existem esse espírito anti-business." E, de fato, um dos riscos é o de que os bancos transfiram a titularidade dos seus ativos mais problemáticos para países ou regiões onde encontrarem mais liberdade.

Essa consideração sugere, por si só, que os organismos reguladores do mercado financeiro não deveriam ser apenas nacionais quando todo o mercado financeiro se tornou global.

Por toda parte se reforçam iniciativas regulatórias, mas isso é mais o jogo do cada um por si, cujo resultado é mais ou menos o que já se imagina: uma profusão de buracos legislativos fora do alcance dos organismos de supervisão.

A favor desse baixo alcance regulatório existem duas atitudes dos dirigentes políticos do Ocidente. A primeira delas é uma postura excessivamente nacionalista na administração das instituições financeiras. Os governos ainda entendem que nenhum organismo estrangeiro deve meter o bedelho nos "bancos nacionais" e isso implica que as sugestões de uma regulação mais ampla quase sempre sejam mal recebidas. Mesmo antes da eclosão da crise, o governo americano vetou a decisão de alguns fundos soberanos estrangeiros de adquirir participações acionárias em grandes bancos com sede nos Estados Unidos. E, assim também, governos europeus passaram a impedir que "seus bancos" adquirissem títulos de dívida de países vizinhos.

A segunda postura dos dirigentes que fura os esforços regulatórios é a diferença de entendimento do que deve ser regulamentado. Um dos mais graves problemas que culminaram no estouro das bolhas foi a enorme desenvoltura de instituições não bancárias ou quase-bancárias no mercado financeiro, como seguradoras de crédito, administradoras de fundos de capital equity ou simples operadores no mercado de derivativos, que atuavam e continuam atuando fora do alcance dos organismos de fiscalização. Alguns desses segmentos começam a ser enquadrados, mas, outra vez, essa supervisão tende a continuar apenas local ou a permanecer frouxa no outro lado da fronteira.

De todo modo, é assim que caminha a humanidade, de desastre em desastre, de sufoco em sufoco, quase sempre com baixa incorporação de sabedoria.

O tombo dos mercados

A rigor, não apareceu nenhum fato econômico negativo que pudesse derrubar as bolsas como aconteceu ontem. A novidade está na cabeça das pessoas. Elas estão mais desanimadas do que se supunha, apontou o índice de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan.

Redução do consumo

E, quando um abatimento dessa ordem acontece, é inevitável o reflexo no fluxo dos negócios: o consumidor fica menos propenso a entrar no shopping center. As bolsas ontem refletiram esse estado de espírito.

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