Stephane Mahe/Reuters
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Controladora do GPA recebe carta de ONGs sobre desmatamento na produção de carnes

Organizações pediram ao grupo Casino que respeite a legislação da França no que diz respeito aos direitos humanos e questões ambientais; em nota, GPA disse adotar ações sustentáveis desde 2016

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 09h00
Atualizado 22 de setembro de 2020 | 12h06

Organizações não-governamentais (ONGs) da França, EUA e Colômbia advertiram o grupo Casino Guichard-Perrachon na última segunda-feira, 21, sobre cadeias de suprimento de carne em algumas de suas redes na América Latina, e pediram ao grupo varejista francês que respeite a legislação francesa no que diz respeito à responsabilidade das empresas com direitos humanos e questões ambientais. A companhia é a controladora do Grupo Pão de Açúcar no Brasil.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, entre agosto de 2019 e julho de 2020, o desmatamento na Amazônia Legal foi 34,5% maior que no período anterior. Em trechos do documento enviado ao Casino, divulgados pela agência de notícias EFE, as organizações afirmam que só as empresas com as quais o grupo francês colabora representam 4.497 quilômetros quadrados de desmatamento. Assinam a carta instituições como a Sherpa, Canopée, Notre Affaire à Tous, Envol Vert e a Organización Nacional de Pueblos Indígenas de la Amazonía Colombiana.

O GPA disse em nota ao Estadão/Broadcast que "está ciente de seu papel como agente transformador da sociedade, tendo a sustentabilidade como um dos pilares estratégicos de seu negócio. O grupo vem, há anos, promovendo uma atuação e compromisso com o combate ao desmatamento ligado à criação de gado no país, por meio de uma política sistemática e rigorosa de controle da origem da carne bovina entregue por seus fornecedores".

Para o coordenador do MBA em gestão empresarial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira, situações como esta se tornarão cada vez mais comuns. "Essas pressões virão cada vez mais do lado da demanda e não da legislação. O consumidor vai cobrar. No caso, é necessário mostrar com certificações e documentação como o produto atende às legislações vigentes para adquirir a confiança internacional aos nossos produtos", diz.

Para a economista Maria Eugênia Buosi, sócia-fundadora da consultoria Resultante, o setor de produção de carnes brasileiro tem um histórico que desperta desconfiança do ponto de vista ambiental. "É um tema sensível na agenda dos frigoríficos. É preciso que eles mapeiem a cadeia produtiva, pois ela tem impacto sobre uma série de setores: indústria automobilística, calçadista e mesmo sobre o varejo. Começa a se tornar uma pressão sobre os acordos internacionais também", afirma.

Ações já vêm sendo tomadas

O GPA afirmou que, no que cabe ao grupo, desde 2016, estabeleceu-se uma Política Socioambiental de Compras de Carne Bovina, que homologa todos os fornecedores nacionais de todos os negócios da companhia, a fim de identificar a origem direta e garantir o cumprimento de critérios socioambientais na produção de carne in natura (resfriada e congelada). "São eles: Livre de desmatamento do bioma Amazônico, Livre de condições análogas a trabalho escravo/infantil, Livre de embargos, Livre de invasões de terras indígenas e, Livre de invasões em áreas de conservação ambiental", afirma a nota.

Além disso, a empresa brasileira diz que desde 2019, todos os frigoríficos fornecedores possuem sistemas de geomonitoramento para verificar se os pecuaristas atendem aos critérios exigidos na política socioambiental da companhia. "Os fornecedores que se recusaram a implementar um sistema de geomonitoramento foram bloqueados", diz o GPA. A empresa disse ainda que está ciente dos "desafios e riscos, bem como da complexidade dessas cadeias na América do Sul".

O sistema de geomonitoramento é uma forma de garantir que a legislação seja, de fato, cumprida. "Não quer dizer que não possa haver falhas, mas a empresa é bem avaliada em termos de sustentabilidade", diz a economista Maria Eugênia sobre o GPA. O fato do País encarar a desconfiança internacional nesse tema, porém, é consequência da falta de fiscalização da legislação ambiental nacional. "Há um grupo do governo empenhado em evoluir em questões ambientais por razões econômicas, mas existe resistência em algumas áreas. Eles terão de fazer adaptações, do contrário, isso se torna argumento para taxar os produtos brasileiros", diz.

Legislação

Teixeira, da FGV, avalia que o trabalho do governo deve ser no sentido de mostrar que a legislação tem sido cumprida e punir a quem não cumpre. "A nossa legislação exige uma preservação entre as maiores do mundo. O governo tem de trabalhar para agregar valor aos nossos certificados", afirma.

"Adicionalmente, cabe enfatizar que dentro desse processo de construção conjunta, o GPA nunca recebeu questionamentos de entidades ou representantes de povos indígenas, e reitera que está totalmente aberto ao diálogo constante com seus stakeholders. Além disso, a Política Socioambiental de Compras de Carne Bovina, além de prever como um dos critérios o respeito a terras indígenas, também reforça o compromisso para promover o respeito da Declaração Internacional dos Direitos Humanos, dos direitos e modo de vida dos povos indígenas, comunidades locais e trabalhadores", complementou o GPA em nota.

Por fim, o GPA reforça que cumpre integralmente a legislação vigente, bem como está completamente atento às necessidades de seus públicos de relacionamento de forma a identificar e implantar soluções eficazes em larga escala, num contexto complexo que exige uma colaboração construtiva e pacífica para que nossa atuação possa estar em constante evolução e aderente as melhores práticas", conclui o grupo.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) disse que não irá se pronunciar sobre o assunto.

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