‘Controle de preços é ineficaz’, diz Pastore

Para o ex-presidente do BC, evidência histórica mostra que controle de preços não resolve problema da inflação

Entrevista com

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h05

O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore acredita diz que o controle de preços é ineficaz para combater a inflação. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Como o sr. analisa o tamanho desse custo?

Em primeiro lugar, segurar preços não é forma de combater a inflação. Já tivemos uma experiência nos anos 70. O órgão que controlava a inflação era o CIP (Conselho Interministerial de Preços) e não o Banco Central. A inflação subiu e foi para a hiperinflação e nós tivemos que ter o Plano Real para terminar com ela. A evidência histórica mostra que o controle de preços é ineficaz para combater a inflação. A segunda coisa é o custo que você causa sobre quem é atingido pelo controle. Nós seguramos os preços da gasolina e impusemos um prejuízo à Petrobrás. Se quiser ter uma noção, é só analisar a cotação das ações da Petrobrás antes de ter saído a informação de que a aprovação ao governo Dilma caiu. Há um conjunto de erros do governo em tentar combater a inflação com controle de preços.

Como sair dessa situação?

Alguém vai ter que corrigir esses preços. Eu não sei se vão fazer isso gradualmente ou de uma vez. A única coisa que eu tenho medo é que comecem a aparecer sugestões de alguém que diga: "transforma o Banco Central em Banco Central independente, sobe a meta de inflação e diz que vai descer a inflação em três ou quatro anos." Eu digo o seguinte: no governo de hoje, é capaz de você subir a meta, o BC continua não independente e nós não vamos, no fundo, conseguir controlar a inflação.

O custo de manter os preços administrados sob controle contribuiu para o rebaixamento?

O rebaixamento foi muito mais em cima da parte fiscal. Evidentemente, essa situação tem uma implicação. Eu acho que a pessoa analisou o que isso representa, tanto que a Petrobrás foi colocada em outlook (viés) negativo, em parte por causa do controle de preços, o risco na energia elétrica também foi considerado nessa decisão. Quando uma Standard & Poor's diz que não é só a parte fiscal que está descontrolada, mas a perspectiva de crescimento econômica é baixa, tem-se que olhar porque a perspectiva de crescimento econômica é baixa. Se a taxa de investimento de formação bruta de capital fixo crescesse, a taxa do PIB cresceria. Mas acontece o seguinte: o empresário que decide comprar uma máquina e olha o risco de ter aumento de imposto e uma bela elevação da taxa de juro para dissipar esse efeito inflacionário em 2015, ele sabe que taxa de crescimento econômico será menor no ano que vem do que neste ano. Quando isso acontece a taxa de investimento cai, ela não sobe, o que retarda o crescimento. Quem está analisando a dinâmica de dívida tem que estar olhando a perspectiva de crescimento econômico. Se ele seguir esse tipo de raciocínio, certamente todos esses problemas ajudaram nesse downgrade.

A inflação vai estourar o teto da meta este ano?

Eu acho que a probabilidade de estourar o teto da meta em junho e julho é muito alta. O que cresceu recentemente é a probabilidade de ela ficar perto do teto em dezembro. /L.G.G.

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