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Controvérsias tecnológicas

Expectativas otimistas em relação à tecnologia e seu impacto nas empresas deram lugar a uma onda de pessimismo

The Economist, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2016 | 05h00

A polêmica que mais incendeia os ânimos no mundo dos negócios hoje em dia é a que opõe “tecno-otimistas” e “tecno-pessimistas”. O primeiro grupo sustenta que a humanidade vive uma renascença movida a tecnologia. Professores de administração dizem que nosso único problema será descobrir o que fazer com as pessoas depois que as máquinas se tornarem superinteligentes. Os pessimistas retrucam, dizendo que isso é conversa fiada: uma ou outra empresa pode até estar realizando prodígios, mas a economia como um todo não sai do lugar. Larry Summers, da Universidade de Harvard, fala em estagnação secular.

Até pouco tempo, o troféu de pessimista-mor no tocante às perspectivas da economia moderna cabia a Robert Gordon, da Universidade Northwestern. Em The Rise and Fall of American Growth (“Ascensão e Queda do Crescimento Americano”), Gordon afirma que a revolução da tecnologia da informação (TI) não passa de brincadeira de criança quando comparada com as invenções produzidas pela segunda revolução industrial, como eletricidade, automóveis e aviões. O atual terremoto informacional estaria modificando apenas um número restrito de atividades.

Em novo livro, The Innovation Illusion (“A Ilusão da Inovação”), Fredrik Erixon e Bjorn Weigel conseguem ser ainda mais pessimistas. Segundo eles, é o motor mesmo do crescimento capitalista, a “destruição criativa” de que falava o economista Joseph Schumpeter, que foi para o beleléu. Exceção feita a meia dúzia de estrelas jovens, o capitalismo estaria envelhecendo em ritmo acelerado. As 100 maiores empresas europeias foram fundadas há mais de 40 anos. Nos Estados Unidos, as empresas “maduras” (aquelas com onze anos ou mais de existência) representavam um terço do setor corporativo em 1987. Em 2012, já eram quase a metade. Por sua vez, entre 2001 e 2011, diminuiu o número de startups.

Os entusiastas da liberdade de mercado costumam dizer que a economia patina devido ao excesso de regulamentação. É, sem dúvida, um fator importante. Mas, para Erixon e Weigel, a estagnação tem a ver, fundamentalmente, com a estrutura do capitalismo. As empresas já não pertencem a capitalistas intrépidos. Seus donos são instituições gigantes, como o Vanguard Group (gestora de fundos de investimento com mais de US$ 3 trilhões em carteira), que dão mais valor a retornos previsíveis do que a iniciativas empreendedoras.

É reduzido o número de Mark Zuckerbergs no pelotão de frente do capitalismo. Para atender às expectativas de previsibilidade, a maioria das grandes empresas põe no comando burocratas corporativos, que relutam em fazer investimentos arriscados em novas tecnologias. Após crescer sem parar entre 1950 e 2000, o investimento em TI começou a declinar no início deste século. Em vez de apostar suas fichas em inovações que viabilizem uma reorganização radical do mercado, os CEOs burocráticos engordam o caixa, recompram ações e reforçam posições por meio de fusões com antigos concorrentes.

Os arautos do apocalipse têm alguma razão, mas carregam demais nas tintas. Se é verdade que, como argumenta Gordon, nada se compara ao impacto da segunda revolução industrial, tampouco se deve minimizar os efeitos que os carros sem motorista terão na vida das pessoas. Também faz sentido a preocupação de Erixon e Weigel com o número reduzido de novas empresas que o Ocidente vem produzindo. Mas há muitas empresas estabelecidas que não são comandadas por burocratas e que se reinventaram em diversos momentos de sua existência: a General Electric, por exemplo, já deve estar em sua nona reencarnação. Além disso, o impacto das gigantes nascidas nos últimos 20 anos, como Uber, Google e Facebook, não pode ser subestimado: elas têm todas as características schumpeterianas que os dois autores tanto admiram.

O argumento dos pessimistas torna-se mais convincente quando a análise se volta para o avanço da produtividade na economia como um todo. Aí não dá para tapar o sol com a peneira: os dados referentes aos últimos anos são realmente ruins. Nos países desenvolvidos, segundo Karim Foda, do Brookings Institution, desde 1950 o ritmo de crescimento da produtividade do trabalho não é tão baixo. De 2004 para cá, o fator de produtividade total (que tenta mensurar a inovação) teve crescimento de apenas 0,1% nas economias avançadas, bem abaixo de sua média histórica.

Explicações. Os otimistas oferecem dois contra-argumentos. O primeiro diz que deve haver algo de errado com os próprios números. De fato, é possível que as estatísticas não estejam captando o enorme “excedente do consumidor” distribuído gratuitamente pela internet. Mas, ainda que os dados oficiais estejam subestimando o impacto da revolução da internet, como aconteceu com a eletricidade e os carros no passado, isso não basta para explicar todo o declínio recentemente observado no crescimento da produtividade.

Outra linha de raciocínio sustenta que a revolução da produtividade apenas começou. Isso é mais plausível. Talvez Paul Krugman tenha razão quando diz que, ao longo da última década, muitas empresas de TI se preocuparam mais em produzir “brinquedinhos” do que coisas essenciais. Mas não se pode dizer que as melhores companhias do Vale do Silício estejam brincando em serviço. O Uber e o Airbnb vêm promovendo melhorias incríveis em dois setores importantes, que há décadas viviam na modorra.

A verdadeira questão não é saber se a revolução da TI perdeu o embalo ou se a destruição criativa deixou de ser uma erupção vulcânica. Até porque, tudo indica que a revolução da TI está de fato ganhando velocidade. E não há como negar que Google e Amazon são duas das mais inovadoras empresas criadas nos últimos 50 anos. Mas isso não garante que a nova economia terá condições de enfrentar as forças que se erguem contra ela: o envelhecimento da população; os políticos que se rendem ao populismo, comprometendo-se a restringir o comércio internacional e submeter o setor privado a mais regulamentações; e os sistemas educacionais que, em muitos países, encontram-se em situação precária. O grande perigo é que, enquanto otimistas e pessimistas se digladiam para ver quem tem razão, o mundo se torne cada vez mais dividido entre ilhas de alta produtividade, cercadas de todos os lados por um vasto oceano de estagnação.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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