Ministério da Produção da Argentina
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Medida para estimular venda de carros na Argentina pode ajudar o Brasil, diz ministro de Macri

Dante Sica afirmou ao 'Estado' que visita de Jair Bolsonaro ao país a cinco meses da eleição não prejudica imagem do presidente argentino, que tenta a reeleição

Entrevista com

Dante Sica, ministro da Produção e do Trabalho da Argentina

Luciana Dyniewicz, enviada especial, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 16h40

BUENOS AIRES - A cinco meses das eleições presidenciais, o governo argentino de Mauricio Macri lançou um novo plano para tentar impulsionar sua debilitada economia. Na noite de terça-feira, 4, anunciou que fechou parceria com o setor automotivo para oferecer descontos na venda de carros, que caíram 56% em maio. Segundo o ministro da Produção e do Trabalho, Dante Sica, não se trata de uma medida eleitoreira, mas de uma decisão tomada para melhorar a atividade econômica sem alterar o equilíbrio fiscal. 

A medida, diz ele, pode também favorecer o Brasil, que tem visto uma queda em suas exportações para o país vizinho. Na véspera da visita do presidente Jair Bolsonaro à Argentina, Dante recebeu o Estado e afirmou que a convergência na política econômica dos dois países devem ajudar na redução da incerteza dos investidores e, assim como o governo brasileiro, defendeu reformas no Mercosul que permitam negociações comerciais entre países do bloco e terceiros sem que todos os membros estejam de acordo – o que é proibido hoje.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

 

O governo Macri anunciou um programa para impulsionar o setor automotivo que prevê desconto na venda de carros, em uma parceria entre setor público e privado. Não é uma medida intervencionista para um governo que pretende ser liberal? 

Mantemos um programa econômico que procura estabilizar a economia, recuperar o valor da moeda e combater a inflação. Por outro lado, adotamos um pacote de medidas para impulsionar e melhorar a competitividade da economia. Também sofremos crises que geraram impacto na atividade e nos salários. Em março, houve um pico inflacionário (4,7%) que castigou um pouco mais todos os consumidores. Dentro do nosso programa e mantendo a disciplina fiscal, adotamos medidas que gerem algum alívio na demanda. Em março e abril, trabalhamos em um pacote que permitiu melhorar alguns preços de bens, não como uma política anti-inflacionária, mas basicamente como uma melhora no poder aquisitivo, mantendo o preço de alguns bens com um compromisso muito importante do setor privado. Na semana passada, trabalhamos com os bancos para que eles pudessem diminuir a taxa de juros. Agora, vimos o impacto que estava tendo a taxa de juros e as expectativas na demanda de carros e fizemos um esforço com o setor para dar um incentivo e tentar gerar uma melhora na confiança. Nosso programa econômico continua sendo consistente. Somos muito ortodoxos na política fiscal e monetária, que foi o que todos os governos que derrotaram a inflação fizeram. Por outro lado, utilizamos todas as ferramentas que nos permitem nos integrar ao mundo, melhorar a competitividade e, em alguns casos, aliviar as situações de impacto da crise.

Mas são medidas que Macri antes criticava, de intervenção na economia.

O que criticávamos eram intervenções que modificavam o comportamento dos mercados, como foi o caso do congelamento das tarifas elétrica e de gás durante mais de uma década, das restrições para a compra e a venda de dólares ou para importar e exportar. Respeitamos a concorrência dos mercados, não geramos medida que possa distorcer o mercado e, em alguns assuntos pontuais, adotamos políticas que gerem um alívio para o consumidor e alguma melhora na atividade. Mas são medidas pontuais e temporárias.

Medidas tomadas pensando nas eleições presidenciais em outubro?

Não. Medidas tomadas pensando nos consumidores e trabalhadores e no impacto que a crise teve nos últimos meses.

Qual o impacto se espera da medida anunciada na terça? A indústria brasileira automotiva também está sofrendo com a crise argentina. Pode haver um alívio?

Deve dar impulso nas expectativas e no emplacamento de carros. No último mês, tivemos uma queda forte (de 56%) no emplacamento. Pensamos que uma medida dessa pode dar impulso para que o mercado comece a se recuperar. Do que se vende de carros na Argentina, 70% são importados e 55% do Brasil. Portanto, sim, isso pode ajudar no Brasil também. 

Analistas dizem que a inflação, que chegou a 55,8% nos últimos 12 meses, será o maior adversário de Macri nas eleições. O sr. faz parte da equipe econômica do governo...

Definimos um programa de luta anti-inflacionária que consiste em fazer o que todos os países que derrotaram a inflação fizeram. Por um lado, consistência fiscal e monetária, isso implica equilíbrio orçamentário, Banco Central independente e que não emita dinheiro para financiar o setor público. Por outro lado, concorrência de mercados, o que significa ter uma economia mais integrada ao mundo, lei de defesa do consumidor e da concorrência... São as medidas que, no médio prazo, vão nos levar a combater a inflação definitivamente. Como tudo, a inflação em um país que tem uma estrutura inflacionária há décadas é como um trem bala que vem a 300 km/h e você freia. Estamos fazendo o correto, mas leva tempo para desacelerar. A Argentina tem uma inflação mensal que é parecida à brasileira anual. Mas, a medida em que mantivermos o programa e formos consistente com as medidas, vamos derrotá-la definitivamente.

Quanto tempo isso deve levar? Quando Macri assumiu a presidência, a promessa era que a inflação chegaria a um dígito no fim do mandato.

Isso leva tempo. Tivemos uma crise no ano passado. Ainda falta acomodar alguns preços de serviços públicos (que no governo de Cristina Kirchner era subsidiados). Hoje, as tarifas de luz e gás cobrem entre 80% e 90% do custo de geração. Ainda temos que terminar esses preços, o que deve ocorrer entre este ano e o próximo. Estamos convencidos de que, a partir disso, nos próximos anos, a inflação vai diminuir e, não apenas tem de chegar a um dígito, mas se manter nesse patamar.

Analistas dizem que, se as eleições fossem hoje, a chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner ganhariam, principalmente por causa da crise econômica...

Nós não temos essa opinião. A percepção está mudando e a imagem do presidente, melhorando. Até agora, o presidente estava sozinho no terreno eleitoral. Nos próximos 15 dias, vão se confirmar as alianças políticas e começaremos a ter uma visão mais sólida das intenções de voto. A estabilidade nos mercados, a percepção por parte dos consumidores da queda da inflação, as obras que fizemos, tudo isso começará a aparecer na conversa. Claramente vamos ganhar as eleições. As pesquisas que começam a ser feitas agora, depois que o kirchnerismo definiu sua chapa, mostram uma melhora importante na imagem do presidente.

Mas quais foram os erros econômicos do governo?

O governo reconheceu que foi muito otimista em relação ao tempo que levaria para reduzir a inflação. A herança que encontramos e os desequilíbrios macroeconômicos eram maiores que esperávamos. E a natureza da mudança que estamos fazendo - de transformar uma economia fechada, com acordo corporativos entre sindicatos e empresas, com anos de intervencionismo e debilidade institucional - é tão grande que leva mais tempo. Tivemos que fazer muita coisa para gerar as bases sólidas e necessárias para avançarmos. Depois, com esse otimismo em relação à inflação, houve algumas inconsistências na política fiscal e monetária que, quando veio a crise (de retirada de capital de países emergentes) no ano passado, nos castigou mais forte que os outros países da região.

Se Macri vencer as eleições, qual será o projeto econômico? Pode haver um choque ortodoxo?

Nosso programa de reformas não muda. Mas a vitória eleitoral e o conhecimento de quem são as forças da oposição nos permite avançar em acordos legislativos que permitam aprofundar as reformas (liberais). Nosso objetivo continua sendo ter uma economia mais integrada ao mundo, mais competitiva, em que possamos recuperar o valor da moeda e a capacidade de gerar emprego formal e de qualidade a partir das empresas locais e dos investimentos externos, em que o comércio mais fluído e integrado seja um dos principais vetores de crescimento.

Macri sempre disse que estabilizaria o país macroeconomicamente e que isso atrairia investimentos para fazer o país crescer. Por que os investimentos nunca vieram?

Depende do setor. Nos últimos três anos e meio, houve grandes investimentos nos setores de energia, mineração, agroindústria. Talvez menos investimento no caso industrial. Talvez pensássemos que seria mais rápido e, infelizmente, esse fluxo de investimento foi interrompido no ano passado pela crise.

O Brasil também está em crise. Estamos num momento em que a economia brasileira não ajuda a argentina e vice-versa. O que pode ser feito para mudar?

Os dois têm que recuperar a trajetória de crescimento. A Argentina está fazendo tudo que pode para voltar a ter uma economia saudável, estável e consistente no curto e no longo prazo. Nos últimos dois trimestres do ano, vamos ter uma economia crescendo e, no ano que vem, passado o ano eleitoral e as incertezas, cresceremos. Havia uma expectativa neste ano com o Brasil, mas foram reduzidas. Vocês sabem melhor o que tem de ser feito no Brasil. Confirmando o rumo e estabilizando a parte econômica, acho que o Brasil também vai se recuperar. Nossos ciclos de produção são muito complementares. O crescimento do Brasil impulsiona a demanda e a produção argentina e vice-versa.

Como o sr. avalia a política econômica do governo brasileiro?

Tivemos uma reunião em janeiro; amanhã (quinta-feira, 6), temos a nova vista do Bolsonaro. Mantemos reuniões, compartilhamos o objetivo de ter um Mercosul mais moderno, com instrumentos que permitam consertos institucionais no próprio bloco e com mais flexibilidade nas negociações. Ambos queremos ter mercados mais competitivos, sabemos que as agendas de reformas fiscal e de trabalho são importantes. Depois de muitos anos, há uma concordância na política macroeconômica muito importante. Nas décadas anteriores, tivemos instrumentos de política econômica que não convergiam entre Brasil e Argentina, o que gerava incerteza nos investidores regionais. Isso não quer dizer que haja uma coordenação de política macroeconômica, mas o fato de as políticas estarem alinhadas diminui o grau de incerteza. Ambos temos câmbio flutuante e preocupação com o equilíbrio fiscal, por exemplo.

Mas já faz dois anos que as políticas econômicas estão alinhadas e os dois países estão em crise.

O que acontece no Brasil deve ser resolvido pelo Brasil. Claramente a incerteza política também está no jogo. O Brasil colocou foco em reformas que dependem do Legislativo, que podem estar gerando uma expectativa maior. A Argentina, até abril do ano passado, crescia a 3,5% ao ano. A crise fez com que a economia caísse. Agora estamos saindo da recessão e com uma expectativa de recuperação muito mais forte. Se o Brasil crescesse mais rápido, nos ajudaria muito mais e vice-versa.

O sr. mencionou o Mercosul. O governo Bolsonaro defende reformas no bloco. Para a Argentina, como o Mercosul deve ser?

Nos últimos 20 anos, o Mercosul avançou muito pouco na área institucional e de negociações internacionais. Se fechou sobre si mesmo e sobre o mercado brasileiro, que, quando colapsou, gerou uma caída muito forte no PIB da região. Isso também fez com que os países perdessem competitividade. Nossa visão, que é compartilhada com o Brasil, é que temos que adequar o Mercosul à mudança que há internacionalmente. O Mercosul tem de ter uma estratégia de negociação internacional mais agressiva, o que significa finalizar as negociações que estão se arrastando há anos, como a de livre comércio com a União Europeia, e aí começar negociações novas, com a Coreia do Sul e a Indonésia, por exemplo. Também temos que discutir ter flexibilidade no bloco: se alguns países quiserem ir a alguma negociação e o resto do bloco não quiser, pelo menos dar a liberdade para que alguns possam começar a avançar nessas negociações. O ideal é que avancemos os quatro juntos. Agora, se há alguma restrição, que possamos ter flexibilidade para negociar. Por outro lado, o Mercosul foi muito rígido e burocrático na hora de tomar decisões. Talvez tenha que fazer também uma revisão nos marcos institucionais, que nos permita ser mais dinâmico e ágil. Acho que tudo isso forma parte do debate que queremos ter e que os países coincidem.

Faz anos que dizem que o acordo com a União Europeia está para sair. O que falta?

Na Argentina, desde que assumimos o governo, colocamos muito trabalho para fechar o acordo. Talvez as circunstâncias políticas do Brasil, a crise institucional e o impeachment tenham dificultado. O governo Temer até tinha vontade, mas talvez não tivesse força política suficiente para fechar o acordo. Estamos muito otimistas que possamos fechá-lo neste ano. Avançamos muito nos últimos dois meses e está muito próximo.

A União Europeia não está muito fechada na negociação?

Estamos otimistas e acho que os movimentos que o Mercosul fez permitem que estejamos mais perto de fechar o acordo.

O que vai ser tratado nas reuniões bilaterais com o Brasil?

Não tenho a agenda fechada. Em assuntos econômicos, não acredito que vamos fechar novos acordos. Vamos tratar a questão do Mercosul e da União Europeia, de como vai o setor automotivo, convergências regulatórias. São assuntos que sempre estão na mesa.

Bolsonaro defende a ditadura abertamente. Esse assunto é muito delicado na Argentina. A poucos meses da eleição, o fato de Macri receber Bolsonaro não pode prejudicar sua imagem?

Não. Bolsonaro é um presidente eleito, em eleições cujos resultados não foram questionados. É um presidente com legítimo direito e, independentemente de qualquer orientação, a Argentina vai recebê-lo como recebe todos os presidentes. Temos diálogo e uma relação muito boa com ele.

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