Conversa vai, conversa vem

Avaliada em US$ 1,6 bilhões, startup francesa de caronas entre cidades pisa no acelerador

The Economist

28 de outubro de 2015 | 07h21

Anil Gaur pretende ir de Délhi a Jaipur com seu carro e anuncia que está aceitando passageiros para ocupar os três assentos vagos do automóvel, por 700 rúpias (US$ 10) cada. Gaur é do tipo que gosta de conversar - a viagem está incluída na categoria “Blablabla”, própria para quem aprecia um bom papo - e não dispensa boa música na estrada. Morando na Índia, ele figura entre os mais recentes recrutas do maior serviço mundial de compartilhamento de caronas, o BlaBlaCar, que atualmente diz ter 20 milhões de usuários em 19 países, do México à Rússia.

A ideia por trás dessa startup francesa é simples: o motorista “vende” assentos desocupados para cobrir custos com combustível e pedágios, mas não para obter lucro; em troca, o passageiro tem uma viagem barata, mesmo quando decide fazê-la em cima da hora. O modelo de negócios é o mesmo do Airbnb: uma vez estabelecido no mercado, o BlaBlaCar fica com uma fatia de, em média, 10% das transações; a confiança é construída com base em avaliações que os usuários publicam uns sobre os outros. Ao que parece, os investidores acham que a empresa será capaz de fazer com o segmento de viagens o que a Airbnb vem fazendo com o de acomodações. No mês passado, o BlaBlaCar captou € 180 milhões (US$ 200 milhões), elevando seu valor de mercado para € 1,4 bilhão, o que faz da companhia uma das raras startups de tecnologia europeias a superar a casa de US$ 1 bilhão.

Até o momento, o Blablacar vem evitando colisões à la Uber com autoridades e operadores tradicionais do segmento. A razão é que a companhia não atua em mercados dominados por táxis: a viagem média é de 320 quilômetros. Suas principais vítimas são trens e ônibus rodoviários, e é entre pessoas jovens e estudantes, que vivem com dinheiro contado e têm alergia a planejar as coisas com antecedência, que o aplicativo se mostra mais popular. Com o BlaBlaCar, uma viagem de Paris a Marseille, por exemplo, sai pela metade do preço de uma passagem de trem-bala. Diplomaticamente, o fundador da empresa, Frédéric Mazzella, diz que, ao deixar disponível o acesso ao estoque de assentos de automóvel vagos, está provocando a reformulação do segmento de mobilidade, não de um setor de transportes específico.

Originalmente chamado Covoiturage (vocábulo francês que designa a utilização conjunta, por um ou mais passageiros, de um veículo conduzido por motorista não profissional, com o objetivo de percorrer um trajeto comum), o foco do BlaBlaCar por enquanto é, mais do que lucratividade, a formação de uma marca global. A empresa se expandiu adquirindo concorrentes, como o Carpooling alemão, comprado em abril, e entrando em mercados emergentes menos familiarizados com o conceito, como a Índia e, em breve, o Brasil. O serviço vai bem em lugares onde o transporte público é caótico ou os custos de transporte são elevados. Na Europa, mais de 72% dos quilômetros que separam uma cidade da outra são percorridos de carro, mas o combustível é caro, de modo que os motoristas se animam com a ideia de obter um reembolso por seus custos. Isso torna menos óbvio seu apelo aos motoristas americanos. Mas o BlaBlaCar não descarta nenhuma possibilidade. “Quando o seu ponto de partida é a França”, gracejou no início deste ano, numa conferência de tecnologia, o cofundador da empresa, Nicolas Brusson, “tudo parece simples.”

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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