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Affonso Celso Pastore
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Convivendo com a volatilidade

A única previsão é de que a volatilidade nos preços dos ativos deve continuar

Affonso Celso Pastore*, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 05h00

Daniel Kahneman (Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar) ensina que a mente funciona como se fosse habitada por dois personagens. O primeiro, o “Sistema 1”, apreende a realidade e a interpreta rapidamente “com pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário”. O segundo, “com atividade mental laboriosa incluindo cálculos complexos”, é o “Sistema 2”. O uso exclusivo do Sistema 1 na interpretação de informações estatísticas, por exemplo, tende a levar a erros, e por isso exige extremo cuidado.

Em 7 de junho de 2018, o comportamento do mercado financeiro foi caótico. Usando o Sistema 1, um investidor reputado entre seus pares expôs um diagnóstico afirmando que o superaquecimento dos EUA levaria os treasuries de 10 anos para algo entre 5% e 6%, o que combinado com o “inevitável” segundo turno entre Bolsonaro e Ciro levaria o real entre R$ 4,4/US$ ou R$ 5/US$. Naquele dia, o real chegou a R$ 3,90/US$ tendo saído de R$ 3,74/US$ um dia antes. Seria um erro decretar que aquela reação se deve apenas ao “efeito halo” – o peso da reputação de quem expõe –, como define Kahneman. Ela é a consequência das circunstâncias expostas em seguida.

Naquele momento, Trump dava os primeiros passos em direção a uma guerra comercial, elevando as tarifas do alumínio e do aço. Mais importante ainda, já era claro que a redução do corporate income tax estimularia os investimentos, acelerando um crescimento do PIB que já estava bem acima do potencial, forçando o Fed a prosseguir no aumento da taxa de juros. A consequente valorização do dólar encerrava o “ciclo internacional benigno” que entre o fim de 2015 e o início de 2018 favoreceu os países emergentes e o Brasil.

Usando o Sistema 2 sabíamos que por mais hawkish que fossem as decisões do Fed a taxa dos treasuries não chegaria a 5% ou 6%, porque desde a crise de 2008/2009 a taxa neutra real de juros nos EUA despencou para próximo de 0,5%, contrariamente ao intervalo entre 2,5% e 3,5% nos anos anteriores. Em palestra em 2017 na Casa das Garças, reproduzida no site do Federal Reserve Board, Stanley Fischer mostrou evidências a esse respeito que são amplamente reconhecidas pelos economistas no mercado financeiro. Quanto à guerra comercial, logo ficou claro que em vez de reagir com base no impulso, China e Europa tomariam caminhos mais cuidadosos, com a primeira preferindo depreciar o renmimbi e a segunda concentrando-se em concluir um excelente acordo comercial com o Japão.

Quanto às eleições no Brasil, é óbvio que ninguém ainda sabe qual será o resultado. Mas se usarmos algo mais do que o nosso Sistema 1 concluiremos ser improvável que Ciro Gomes chegue ao segundo turno. Como obteria o apoio de eleitores que prezam a democracia quando afirma que quer colocar o Judiciário na “caixinha”? Como pode seduzir os eleitores de esquerda quando é um claro representante do patrimonialismo? Também não sei qual será o apoio a Bolsonaro. Tenta explorar a postura de candidato contrário ao establishment, que levou às vitórias do Brexit na Inglaterra, de Macron, na França e de Trump nos EUA, mas que falhou na Alemanha e nos países nórdicos, e tem contra ele uma postura autoritária e a rejeição por parte das mulheres, vinda de suas manifestações a respeito do gênero.

Finalmente, temos de levar a sério a informação de que o fechamento de uma coalizão de centro apoiando Geraldo Alckmin eleva a probabilidade de que ele passe para o segundo turno. Não tenho nenhum entusiasmo pela sua ligação com o Centrão, que tem grandes defeitos, mas para que possa executar o seu excelente programa de governo tem de ganhar a eleição e com aquela coalizão obteve o apoio de máquinas partidárias em áreas eleitorais importantes, com tempo elevado de campanha na televisão aberta.

Ainda há muitas incertezas, mas algo vem mudando e nesse ponto não tenho divergências com a percepção dos mercados, que é atestada pela valorização do real um pouco maior que a dos demais emergentes logo após o anúncio da coalizão apoiando Alckmin. Porém, Kahneman ensina que as reações no mercado seguem o Sistema 1 e, pelo reconhecimento apressado de sinais, podem estar erradas. A única previsão mais precisa, nesse caso, é de que continuaremos a assistir a uma forte volatilidade nos preços dos ativos.

* EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS. ESCREVE NO PRIMEIRO DOMINGO DO MÊS

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