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Convulsões da China

A decisão da China de desvalorizar sua moeda tira ainda mais competitividade do produto brasileiro; É mais um entrave ao avanço do PIB

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2015 | 21h00

É mais ou menos como o fenômeno El Niño, o aquecimento aparentemente insignificante da temperatura das águas do Oceano Pacífico, de 0,5 a 3,0 graus centígrados, que provoca enormes turbulências climáticas em todo o mundo.

O Banco do Povo da China (banco central) fixou em 6,2298 dólares a cotação do yuan (a moeda nacional também chamada renminbi), o que determinou uma desvalorização de 1,9% em relação ao dólar. No mundo inteiro os mercados ferveram e não sabem até quando ferverão.

A decisão barateia em dólares o produto chinês ao redor do mundo e, ao mesmo tempo, encarece no seu mercado os importados pela China.

É uma ação que pretende aumentar as exportações e, assim, conter o enfraquecimento do PIB. Também visa a  reduzir a fuga de capitais que vinha se acentuando nos últimos meses em consequência do aumento da percepção de desaceleração da economia chinesa.

Na prática, a desvalorização reduz em dólares os salários do trabalhador da China e aumenta os preços internos para afastar a ameaça de deflação, que é a queda constante de preços. Em contrapartida, na medida em que derruba os preços em dólares, a decisão exporta queda de inflação para os países ricos, que já vêm lutando contra a ameaça de deflação.

Esse movimento pode provocar novo adiamento da decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que prepara há meses a alta dos juros. Fácil de entender: uma alta de juros num ambiente de baixa de preços derrubaria ainda mais a inflação nos Estados Unidos, situação que poderia adiar as compras dos consumidores e a recuperação da atividade produtiva. Se as exportações da China se recuperarem como pretendem as autoridades, será inevitável novo aumento das reservas, avaliadas hoje em US$ 3,7 trilhões, e isso, por sua vez, tenderá a aumentar a procura de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Esse fator puxa os juros dos ativos em dólares. 

Há anos, empresários, políticos e dirigentes dos Estados Unidos acusam a China de concorrência desleal no comércio internacional, por manter artificialmente desvalorizada sua moeda. Essas acusações têm agora novo gancho para serem retomadas.

Do ponto de vista do Brasil, a decisão tira ainda mais competitividade do produto nacional, reduz a demanda por commodities - itens importantes de exportação para a China - e produz mais um entrave ao avanço do PIB brasileiro.

Não está claro se este é um passo definitivo do governo da China ou é apenas um movimento intermediário em direção a uma desvalorização ainda maior.

Independentemente disso, provocará reações em cadeia ao redor do mundo, como já se viu nesta terça-feira. Os analistas imaginam que essa decisão tende a produzir desvalorizações cambiais defensivas pelos países em desenvolvimento. Para reduzir o impacto sobre suas próprias exportações, outros países emergentes tratariam de também desvalorizar suas moedas. Nesta terça, o real desvalorizou-se mais 1,45% em relação ao dólar. E as ações de empresas exportadoras para a China também caíram. As da Vale, principal exportadora de minério de ferro, fecharam em queda de 5,11%.

Confira:

Aí está a evolução da produção agrícola. Em meio a tanta notícia ruim na área econômica, o setor agrícola produz recordes e alegrias.

Moody’s

A decisão mais importante divulgada nesta terça-feira pela agência Moody’s, de avaliação de risco, não foi o rebaixamento da dívida brasileira a um degrau antes do nível de especulação. Foi ter declarado que “a perspectiva é estável” e não que a “perspectiva é negativa”. Isso significa que, a menos que sobrevenha uma catástrofe fiscal, tão cedo a Moody’s não dará esse passo. Aliviado, o governo Dilma respira fundo.

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