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Cooperar ou cooperar

O problema central das cadeias produtivas agroindustriais é o da coordenação. Coordenar numerosos agricultores e pecuaristas, coordenar os processadores e traders de alimentos e os supermercados não é tarefa fácil. Muitas vezes resulta em dissabores.As formas de organização primitivas das cadeias ou, como prefiro denominar, dos Sistemas Agroindustriais (SAGs) consideravam que os preços seriam suficientes para atender a todos os objetivos desejados. A indústria deseja quantidades a preços atraentes e os agricultores desejam produzir com margens de lucro motivadoras.Tudo funcionou bem até que a sociedade começou a fazer exigências para as quais o sistema de preços na sua forma mais pura não tem competência para funcionar. Como preconizou o criador da ciência dos agronegócios, o professor Ray Goldberg, da Universidade Harvard, o mundo da produção agrícola tinha se descomoditizado. Ainda hoje muitos produtores e agroindústrias não perceberam a mudança.Novos mecanismos de coordenação são necessários e, enquanto não são implantados, nós vemos sinais de descoordenação dos atores dos SAGs, sejam agricultores/pecuaristas, sejam os processadores e distribuidores e suas entidades de representação que não se mostram preparados para os novos tempos.O resultado é visível. O sistema produtivo da laranja se desestruturou de tal forma que os produtores começam a redirecionar os seus recursos para outras atividades. O sistema produtivo da pecuária continua com o tradicional desalinhamento indicado por frequente inadimplência dos frigoríficos. Os dois casos citados acabaram nos tribunais de Justiça. Mesmo um SAG mais bem coordenado como o sucroenergético mostra fragilidades com o descompasso vivenciado entre fornecedores e usinas.A necessidade de adotarmos práticas que criem e protejam o valor nas cadeias agroindustriais ficou mais evidente com as exigências socioambientais que já são adotadas nos mercados dos quais participamos. Não basta que o usineiro e o frigorífico adotem medidas adequadas nas áreas trabalhista e ambiental. A cobrança agora é feita sobre toda a cadeia de valor. Ou seja, usineiro e fornecedor, frigorífico e pecuarista devem se coordenar para que medidas de proteção ao meio ambiente e medidas socialmente desejáveis na área trabalhista e de proteção dos direitos de stakeholders sejam adotadas.Os outrora litigantes viraram parceiros obrigatórios. Ou se coordenam ou perderão suas posições nos mercados.Existem alguns sinais de mudança, ainda que lentos. Primeiro, alguns SAGs ou partes deles se reorganizaram sem a intervenção externa. Suas lideranças compreenderam que o atendimento das demandas da sociedade na área social e ambiental é parte de um processo de diferenciação de produtos. Sabem que há custos para implantar sistemas de coordenação refinados (rastreabilidade, certificados de sustentabilidade e outros) e esperam que exista um prêmio disponível nos mercados onde consumidores reconheçam a diversificação e paguem por ela. O processo nem sempre funciona na primeira tentativa.Um segundo sinal positivo é percebido no sistema financeiro, liderado por bancos de investimento como o International Finance Corporation (IFC), ligado ao Banco Mundial, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que adotaram estratégias transparentes a respeito do tema. O IFC introduziu o conceito de "additionality", de difícil tradução, e sugere que seus projetos na área dos agronegócios devem trazer impactos externos positivos para a sociedade, que extrapolem o projeto em si. Da mesma forma, o BNDES adotou medidas de rastreabilidade obrigatória nos projetos que envolvam frigoríficos e de sustentabilidade em projetos que envolvam florestas.Desde 1968 os trabalhos dos estudiosos dos agronegócios liderados por Ray Goldberd sugerem que o tema central do agribusiness não é o a produção de grãos e de outras commodities, mas sim o tema da coordenação de sistemas de produção complexos. Seja a soja, seja a cana, sejam as hortaliças, toda a agricultura e seus respectivos SAGs buscam novas formas de organização que deem destaque à coordenação refinada.Mecanismos de negociação e adequação do sistema legal, mecanismos de transparência da informação refletidos na nova indústria de certificações, alianças estratégicas são indicadores do novo paradigma. Enquanto pelo mundo afora novos sistemas de coordenação compartilhada são desenhados, no Brasil ainda debatemos na Justiça as quebras dos contratos, a inadimplência recursiva de muitos frigoríficos e a falta de visão da indústria citrícola que vem desestruturando paulatinamente a capacidade de suprimento dos agricultores.No mundo do agronegócio atual, criar valor depende de coordenação e cooperação. Não é tarefa fácil. Uma vez gerado o valor, o segundo desafio é distribuí-lo entre os atores da cadeia produtiva que cooperaram para a produção. É bom que as indústrias processadoras e os supermercados rapidamente compreendam essa realidade, pois não fazê-lo é desperdiçar valor. *Decio Zylbersztajn, engenheiro agrônomo, professor titular da FEA-USP, é presidente do Conselho do Pensa, Centro de Conhecimento em Agronegócios

Decio Zylbersztajn*, O Estadao de S.Paulo

10 de agosto de 2009 | 00h00

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