Cooperativas de crédito já são o 6º maior banco do País

Juntas, as quatro maiores cooperativas do País – Sicredi, Unicredi, Sicoob e Confesol – têm hoje R$ 126 bilhões em ativos; sem fins lucrativos, essas instituições oferecem juros mais baixos do que os dos grandes bancos, mas também há riscos envolvidos

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2016 | 23h00

Dobrando a esquina, rumo ao Morro da Igreja, em Urubici, um dos cartões postais da serra de Santa Catarina, chama a atenção o letreiro ‘O Bifão’, estampado na parede do bar e lanchonete que carrega o nome. Recentemente, os donos decidiram fazer uma reforma para melhorar o ambiente, mas precisavam de crédito. Ao contrário do que se imagina, essa foi a parte mais fácil da empreitada. “Sem burocracia. Nenhum empecilho. Contrato na hora. Dinheiro direto pra conta. Metade do preço”, resume um dos donos, Luiz Carlos Alves. O dinheiro veio de uma cooperativa de crédito chamada Sicoob, onde há 14 anos está a conta corrente d’O Bifão.

 

Casos como esse estão se proliferando País afora. Em busca de juros mais baixos, 7,8 milhões de pessoas e empresas se tornaram associados a cooperativas de crédito, segundo dados do Banco Central. E as cooperativas, que tiveram origem no setor agrícola – caso da Sicredi, que tem mais de 100 anos –, agora se espalham por todos os setores. Esse contingente tem feito as instituições crescerem a um ritmo acelerado. Na média, 20% ao ano – acima dos 16% que foram registrados pelos grandes bancos ou dos 11% de avanço dos bancos médios.

Juntas, as quatro maiores do País – Sicredi, Unicredi, Sicoob e Confesol – já seriam hoje o sexto maior banco de varejo, segundo estudo inédito feito pela consultoria alemã Roland Berger.

E não é exagero de Luiz Carlos, d’O Bifão. As taxas de juros são de fato metade das que cobram os bancos. Enquanto o cheque especial fica em média 11% ao mês nos grandes bancos, nas cooperativas é de 5,5%. O crédito pessoal é um terço do valor. Nas cooperativas, sai, na média, por 2,1% ao mês.

Os juros mais baixos são possíveis porque as cooperativas não têm fins lucrativos, já que emprestam basicamente para seus próprios associados, que são, portanto, os donos do negócio. Outro motivo é que os resultados dessas instituições, diferentemente dos bancos, possuem isenção fiscal, segundo conta o chefe adjunto da área de cooperativas do Banco Central, Rodrigo Pereira Braz.

Mas, como diz a máxima americana, “não existe almoço grátis”. Os juros mais baixos da cooperativa também trazem risco aos associados. Por serem donos, eles recebem o rateio dos resultados ao fim do ano, mas também são responsáveis por eventuais prejuízos, ou seja, são chamados a cobrir perdas com seu próprio capital. Braz, do BC, diz que são poucos os casos registrados, mas reforça que é um risco a que se deve ficar atento.

Concorrência. São nos momentos de crise que as cooperativas mais crescem, segundo o presidente da Roland Berger, Antonio Bernardo. Isso acontece porque o crédito se torna mais escasso nos bancos e também porque nas cooperativas o atendimento é de maior confiança entre as partes. Mas, apesar do crescimento acelerado, as cooperativas ainda representam apenas 3% do sistema financeiro e enfrentam o desafio de ganhar mais escala.

Segundo Bernardo, associação, fusão ou compartilhamento seria uma forma eficiente de cortar custos e crescer mais rápido. Ele lembra que em países da Europa, os sistemas cooperados são muito fortes. Na França, por exemplo, quase 50% do sistema financeiro é formado por cooperativas.

No Brasil, a fusão das quatro maiores já é um assunto discutido. O diretor financeiro da Confresol, Adriano Michelon, diz que o primeiro passo foi dado ao ser criado há dois anos o Fundo Garantidor para cooperativas, que cobre, em até R$ 250 mil por pessoa, as perdas em caso de quebra de uma instituição. O presidente da Unicredi, Léo Trombka, diz que o segundo passo está sendo dado neste ano com a exigência de auditorias especializadas em cooperativas.

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