Copom aumenta a Selic em 0,5 ponto, para 10,75% ao ano

Aumento menor do que o previsto pelos economistas, de 0,75 ponto, é um sinal de que o BC admite ver sinais de desaquecimento na economia

Fernando Nakagawa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

O Banco Central reduziu o ritmo do aperto na economia. No início da noite de ontem, a instituição anunciou o aumento do juro básico da economia, a Selic, em 0,50 ponto porcentual, para 10,75% ao ano.

Nas duas decisões anteriores (em abril e junho), as altas haviam sido de 0,75 ponto porcentual. Com o entendimento de que o cenário inflacionário evoluiu positivamente desde a reunião anterior, o Comitê de Política Monetária (Copom) viu espaço para diminuir a magnitude do aumento de juro. Nas últimas semanas, diversos indicadores de inflação e atividade econômica mostraram desaceleração.

Em comunicado divulgado após o encontro, os diretores do Banco Central afirmam que a decisão levou em conta "o processo de redução de riscos para o cenário inflacionário que se configura desde a última reunião do Copom".

Essa melhora, segundo o texto, "se deve à evolução recente de fatores domésticos e externos". "O Comitê entende que a decisão vai contribuir para intensificar esse processo (de redução de riscos)", completa o texto distribuído após a decisão, que foi tomada por unanimidade.

Queda da inflação. Os argumentos para a redução de ritmo no aperto monetário vieram à tona nas últimas semanas e especialmente no cenário doméstico. Indicadores como a inflação mais baixa que o esperado e a atividade econômica em desaceleração surpreenderam positivamente o mercado financeiro. Para analistas, o quadro diminui o risco de descontrole da inflação e abre espaço para um Banco Central mais moderado.

O próprio presidente da instituição, Henrique Meirelles, deu sinais de que o ritmo dos juros poderia mudar. Normalmente avesso à imprensa, especialmente em dias que antecedem o Copom, ele falou dois dias seguidos com jornalistas na semana passada para reafirmar que as decisões são tomadas "levando em conta todos os dados existentes" até o dia da reunião.

A avaliação no Banco Central é de que houve grande antecipação de consumo, em decorrência dos estímulos fiscais concedidos pelo governo. Além disso, os bens comercializáveis internacionalmente tiveram queda de preço recentemente, em razão da piora das expectativas na economia global.

A autoridade monetária também acredita que os índices de inflação divulgados nas últimas semanas mostraram mudanças substanciais na tendência para os preços - ou seja, a desaceleração não se explica apenas pela queda dos alimentos.

Por isso, já se cogita até mesmo a hipótese de a inflação deste ano ficar no centro da meta, de 4,5%, cenário que há não muito tempo era completamente descartado.

Mercado. A evolução positiva dos indicadores recentes causou reviravolta no mercado de juros futuros. Há duas semanas, os negócios mostravam que era praticamente zero a chance de alta da Selic menor que 0,75 ponto porcentual. Mas as apostas começaram a mudar ao longo da semana passada.

Na última segunda-feira, foi o primeiro dia em que a maioria das operações passou a apontar para o aumento de 0,50 ponto porcentual. Um dia depois, as apostas se consolidaram com a deflação de 0,09% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15 ( IPCA-15) de julho.

"O Banco Central viu que o cenário mudou. A decisão foi coerente com a nova realidade da economia que se desenhou desde a última reunião. Manter o ritmo anterior de aumento seria fechar os olhos para essa novidade", diz o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto. Para ele, o texto divulgado abre espaço para "qualquer aumento de 0,50 ponto para baixo" no próximo encontro, nos dias 31 de agosto e 1.º de setembro. "É preciso esperar a ata na próxima semana, mas acredito que o aumento de setembro será o último do atual ciclo."

A percepção de desaceleração vai além dos preços. Na semana passada, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) registrou estabilidade entre abril e maio. Calculado pelo próprio BC, o número mostra que a economia parou de crescer no mês retrasado.

A lista de argumentos continua no emprego, já que foram criados de 212,9 mil postos formais em junho, abaixo de maio e do previsto pelos analistas. Além disso, a arrecadação de impostos ficou abaixo do esperado pelos economistas em junho.

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