André Dusek/Estadão
O Copom, do Banco Central, se reúne a cada 45 dias para definir a Selic. André Dusek/Estadão

Copom corta taxa básica de juros de 5% para 4,5% ao ano, mas não se compromete com novo corte

Brasil deixa de figurar, pela primeira vez, entre os dez países com as maiores taxas de juros reais

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 18h21

BRASÍLIA - Mesmo com a inflação recente um pouco mais alta, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central voltou a cortar os juros no Brasil. A instituição reduziu nesta quarta, 11, a Selic, a taxa básica de juros, em 0,50 ponto porcentual, passando de 5% para 4,5% ao ano. Foi o quarto corte consecutivo e, com isso, a Selic atingiu um novo piso histórico. Em sua decisão, porém, o BC não se comprometeu com novos cortes no início de 2020. 

Com a Selic no menor patamar já visto, o Brasil deixou de aparecer, pela primeira vez, entre os dez países com as maiores taxas de juros reais (descontada a inflação) do mundo. Levantamento do site MoneYou e da Infinity Asset mostra que o juro real do Brasil, de 0,64%, é agora o 11º maior entre as 40 economias mais relevantes do planeta. No topo do ranking estão o México (3,23%), a Turquia (2,85%) e a Índia (2,54%). A Argentina, que vinha figurando no topo do ranking, caiu para a 37ª posição, com taxa real negativa de 1,95%, após os cortes de juros mais recentes, em meio à corrida eleitoral no país.

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) - formado pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto, e pelos oito diretores da autarquia - era largamente esperada. De um total de 60 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 59 esperavam por um corte de 0,50 ponto, para 4,50% ao ano. Apenas uma casa esperava por corte de 0,25 ponto porcentual, para 4,75% ao ano.

Em comunicado sobre a decisão, o BC afirmou que a atividade econômica, a partir do segundo trimestre deste ano, ganhou tração no Brasil. Ao mesmo tempo, pontuou que essa recuperação seguirá em ritmo gradual.

O BC optou, no documento, por não tratar diretamente de eventos recentes que influenciam a inflação, como a alta dos preços das carnes e a apreciação do dólar ante o real. No entanto, a instituição elevou sua projeção de inflação para este ano.

Após as carnes impulsionarem o IPCA - o índice oficial de preços - de novembro, o BC subiu de 3,4% para 4,0% a projeção para a inflação em 2019. No caso de 2020, a expectativa passou de 3,6% para 3,5% e, em relação a 2021, foi de 3,5% para 3,4%.

Quando a inflação está alta ou indica que ficará acima da meta, o Copom eleva a Selic. Dessa forma, os juros cobrados pelos bancos tendem a subir, encarecendo o crédito e freando o consumo, assim, reduzindo o dinheiro em circulação na economia. Com isso, a inflação tende a cair.

Em um contexto de inflação um pouco mais elevada em 2019 e recuperação da atividade econômica, o Copom também decidiu ser cauteloso em relação aos seus próximos passos. Ao contrário do que ocorreu em decisões anteriores, o colegiado não se comprometeu com novos cortes de juros. Na prática, a redução de hoje pode ter sido a última do atual ciclo de baixa. “O Copom entende que o atual estágio do ciclo econômico recomenda cautela na condução da política monetária”, registrou o BC no comunicado.

Para economista-chefe da Daycoval Asset Management, Rafael Cardoso, o comunicado sugere que o BC manterá a Selic em 4,50% ao ano na reunião marcada para o início de fevereiro. Já o economista-chefe do banco Haitong, Flávio Serrano, afirma que o BC deixou a porta aberta para qualquer tipo de ação. “O Copom não quis se comprometer com nada [nem com um novo corte, nem com manutenção da Selic]”, afirmou Serrano. Por conta do comunicado e também da análise dos indicadores econômicos, Serrano ainda mantém sua projeção de corte de 0,25 ponto porcentual da taxa básica em fevereiro, para 4,25%./ COLABORARAM KARLA SPOTORNO e MATEUS FAGUNDES

 

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‘Renda fixa de baixo risco vai andar na fronteira da inflação’

Para garantir o dinheiro de emergência, a renda fixa deve continuar na carteira dos investidores, mas, para fazer o dinheiro render: o risco será inevitável

Entrevista com

Gilberto Abreu, diretor de investimentos do Santander

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 18h26

Com os juros em 4,5% ao ano, confirmam-se as projeções de que os ativos de renda fixa e liquidez diária terão os rendimentos achatados e, em alguns casos, passarão a não repor a inflação. Para o diretor de investimentos do Santander, Gilberto Abreu, esses investimentos devem, a partir de agora, “andar na fronteira da inflação”. No entanto, ele afirma que esses ativos devem continuar a ter espaço na carteira do investidor, para garantir o acesso ao dinheiro de emergência. 

Para fazer o dinheiro render, porém, será preciso partir para o risco, mesmo sem sair da renda fixa. Títulos de crédito agrícola e imobiliário (CRIs e CRAs), além das dívidas de empresas de infraestrutura (debêntures incentivadas) são alguns papéis que o diretor aponta com boa rentabilidade no próximo ano. Nesse caso, porém, a dica é não se aventurar sozinho neste novo mundo: “Para os clientes de varejo, o ideal é tentar entrar nessas classes através de fundos”, diz Abreu. 

Para onde o investidor pode correr agora? 

A gente fala de fechamento de curva de juros há bastante tempo. Os clientes que fizeram maior alocação em renda variável no último ano, ou um ano e meio, conseguiram surfar uma onda positiva: alguns conseguiram alcançar o sonhado 1% ao mês em rendimentos. Além disso, esse rendimento teve um “plus” com a inflação baixa, o que realmente significa que o dinheiro está rendendo mais. Do ponto de vista prático as recomendações continuam as mesmas. A gente tem dado um peso maior nas indicações para fundos multimercados e ações, porque são duas classes que a gente acredita que ainda têm espaço para crescer no próximo ano. 

A renda fixa acabou?

Falando de renda fixa, você tem aquela de baixo risco e a de mais alto risco. A de baixo risco, que foi o que o brasileiro se acostumou a investir (CDB, LCI, LCA), de fato, são produtos que estão menos atrativos. O investidor deveria manter na sua carteira, para garantir liquidez. Todo mundo precisa de uma parte do dinheiro líquido e não vai colocar isso em fundos multimercados. Primeiro porque a maior parte desses fundos é D-30 (o resgate demora 30 dias para ser creditado ao cliente) e outra é que ele fica flutuando e pode ter haver surpresa quando o investidor precisar do dinheiro.

Nesses ativos de baixo risco, o investidor vai perder dinheiro?

Eles vão andar na fronteira da inflação. Claro, estamos falando da inflação projetada e taxa de juros projetada. O que vai acontecer é que a rentabilidade estará muito próxima de zero. Acredito que ficará marginalmente positiva: 0,5% ao ano positiva para o cliente. O rendimento será muito achatado e o cliente vai sentir. Em algumas classes, vai haver possibilidade de o cliente empatar com a inflação ou ficar abaixo da inflação.

E qual seria a serventia deles, então?

Carregar liquidez, como é no mundo inteiro. A renda fixa de liquidez diária e baixo risco, no mundo inteiro tem esse papel. A gente simplesmente está virando um país um pouco mais normal com a taxa de juros de 4,5%. O anormal é o que o que a gente tinha: renda fixa com liquidez diária e rentabilidade real de 5% ao ano. Essa realmente era uma coisa brasileira. 

E a renda fixa com mais risco?

CRIS, CRAS e debêntures incentivadas vão ser papéis muito atrativos. Para os clientes de varejo, o ideal é tentar entrar nessas classes através de fundos, fundos de infraestrutura, por exemplo. Assim ele vai comprar debêntures de infraestrutura, mas quem vai fazer a seleção é um gestor profissional. A chance dele se expor de maneira inadequada ao risco de crédito vai estar minimizada. A segunda vantagem é que ele acessa emissões de crédito que não são acessíveis a clientes de varejo e podem ser compradas nesses fundos com condições mais favoráveis.

Os títulos mais longos do governo são mais seguros? 

Existe uma ideia de que títulos do governo têm baixo risco. Quando você compra um Tesouro Selic, sim, está comprando um papel mais seguro, que acompanha o mercado, mas que também vai pagar muito pouco agora, com os juros a 4,5%. Já os papéis longos atrelados à inflação com vencimento em 2050, por exemplo, são extremamente voláteis, quase tão voláteis quanto a Bolsa. Se é um investidor que não conhece muito de curva de juros e marcação a mercado, a gente não recomenda muito esse investimento. 

E a bolsa? Já se valorizou demais ou ainda há espaço para o investidor nesse novo cenário?

Se você diminui juros, diminui também o custo de capital das empresas e aumenta o retorno delas. Como esse movimento de valorização da Bolsa é recente, acreditamos que ele ainda não precificou uma segunda onda que deve vir como consequência. À medida em que você reduz os custos das dívidas das empresas e fomenta a atividade econômica, os resultados das empresas melhoram. A gente acredita que esse segundo ciclo ainda vai acontecer. Em algum momento podemos ver uma mudança desse movimento. Vamos avaliar isso acompanhando a Economia. Se houver crescimento sem inflação, o que é um cenário possível, isso vai puxar valorização das ações por bastante tempo. Em 2020, já apostamos nesses resultados melhores. 

Isso tudo contando com um cenário externo que não mude?

É ano de eleições nos Estados Unidos. Há interesse do governo americano em minimizar essas questões comerciais. A gente vê, sim, que isso deve trazer volatilidade, mas, a priori, mantemos nossa posição de que a bolsa brasileira têm espaço para crescer. Outra coisa que a gente já tem sugerido para os clientes é fazer diversificação em moeda estrangeira. Comprar dívidas no exterior através de fundos, ou investir em ações lá fora, é bem interessante. Parte disso pode ser por meio de fundos multimercados ou fundos que já se propõe a investir em ações no exterior.

 

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Acompanhando a Selic, bancos anunciam cortes de juros em linhas de crédito

Banco do Brasil, Itaú e Bradesco praticarão novas taxas a partir da semana do dia 16 de dezembro

Renato Carvalho, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 19h14

Os grandes bancos anunciaram reduções de juros de algumas de suas principais linhas de crédito, logo depois da decisão do Banco Central de cortar a taxa básica de juros, a Selic, em 0,50 ponto percentual, de 5% para 4,50% ao ano.

O Banco do Brasil reduzirá a partir de segunda-feira, 16, por exemplo, os juros nas linhas de Crédito Automático e Renovação passam a ter taxa mínima de 2,87%, e o crediário de 3,11% ao mês. A linha de home equity terá redução de 1,34% ao mês para 1,30% ao mês, na mínima, e de 1,72% para 1,68%, na máxima. Na linha de financiamento de veículos, as taxas mensais passam a ser de 0,60% ao mês, para carros novos.

Para as empresas, a linha de desconto de títulos passa a ter juros mínimos de 1,04% ao mês, ante 1,08% anteriormente. No desconto de cheque, os juros passam de 1,27% para 1,23% ao mês. Isso nos prazos de 45 dias. O BB ainda fez alguns ajustes em suas linhas de capital de giro desde a reunião anterior do Copom, e para prazo de 720 dias, as taxas mínimas caíram de 1,47% para 1,22% ao mês. Por fim, no agronegócio, o BB afirma que conta com taxas melhores para financiar o custeio pecuário, inclusive para veículos utilitários, com juros de 0,62% ao mês.

O Itaú Unibanco repassou integralmente o corte da Selic para suas taxas de empréstimo pessoal, para pessoas físicas, e capital de giro, para empresas. Segundo o banco, os custos finais variam de acordo com o perfil do cliente, e os novos valores valem a partir da próxima terça-feira, 17.

Já o Bradesco anunciou que reduzirá os juros de suas principais linhas a partir de segunda-feira, sem especificar linhas e taxas.

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