Copom decide hoje os juros sob pressão de repique inflacionário

Maioria dos analistas do mercado acredita que ritmo de queda da Selic será reduzido para 0,25 ponto porcentual

Renée Pereira, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2005 | 00h00

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), na reunião que termina hoje, deverá ser influenciada muito mais por fatores domésticos, como a piora dos índices de inflação, do que pelo aumento das incertezas no cenário externo. A aposta majoritária do mercado é que os dirigentes do Banco Central (BC) adotem uma atitude mais cautelosa na condução da política monetária e reduzam o ritmo de corte da taxa básica de juros (Selic) de 0,50 para 0,25 ponto porcentual, levando a Selic para 11,25% ao ano.Essa previsão está ancorada especialmente na surpresa negativa no campo inflacionário. Os índices divulgados nas últimas semanas superaram as previsões do mercado e devem provocar revisões para cima nas expectativas para o IPCA deste ano e de 2008. Boa parte do aumento verificado nas últimas semanas é decorrente de pressões na área alimentícia, como leite e carnes, cujos preços estão em alta no mercado internacional por causa de um choque de oferta e demanda.O economista do Santander Banespa, Maurício Molan, acredita que as pressões no setor de alimentos devem se manter fortes até outubro. ''''Os índices só devem mostrar algum arrefecimento em dezembro.'''' Segundo ele, apesar das altas acima do esperado, as projeções de inflação continuam dentro da meta. Por isso, ele aposta em mais dois cortes de 0,25 ponto porcentual na Selic este ano. A interrupção do processo de queda só ocorreria em dezembro.O economista-chefe do Banco ABN-Amro para América Latina, Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, tem opinião diferente. Ele acredita que a paralisação nos cortes já ocorrerá em outubro. A explicação é o crescimento acelerado da economia, a demanda aquecida e a melhora da renda. Além disso, o crédito tem reagido à queda da taxa de juros e registrado forte expansão.Exemplo disso, diz ele, é que os setores que têm liderado o crescimento da demanda estão associados ao aumento dos empréstimos, como é o caso da venda de automóveis, cujo crescimento está na casa de 28% no ano. ''''À medida que a demanda cresce, a produção também avança e ocupa a capacidade instalada, que já está em níveis recordes. Isso gera pressão inflacionária'''', explica o economista. ''''Tenho batido na tecla de que não havia motivo para aumentar o ritmo de queda dos juros há algum tempo. Agora fica parecendo retrocesso.''''O nível de uso da capacidade instalada na indústria, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), atingiu 85,7% em agosto, ante 83,6% em igual período de 2006. Trata-se do nível mais alto da série histórica desde abril de 1995. Outro dado que mostra o aquecimento da indústria é a diminuição dos estoques, também segundo a FGV.O economista da Concórdia Corretora, Elson Teles, lembra ainda que os diretores do BC já haviam deixado clara, na ata da reunião anterior, a preocupação com os elevados níveis de uso da capacidade instalada. Alguns analistas destacam, entretanto, que esse movimento será compensado pela maturação dos investimentos feitos nos últimos trimestres, que vão expandir a produção.Maurício Molan, do Santander, lembra que o Brasil ainda tem uma das maiores taxas de juros do mundo, mas caminha para acompanhar a média de outros emergentes. ''''O BC optou por uma convergência cautelosa. Quanto mais cautela maior pode ser o ajuste'''', avalia ele. Mesmo com as incertezas, há quem acredite que há espaço para reduções na Selic até o primeiro trimestre de 2008.

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