Celso Junior/AE
Celso Junior/AE

Copom mantém taxa Selic em 10,75%

Decisão foi tomada por unanimidade; comunicado, lacônico, diz que foi avaliado 'o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação'

Fabio Graner / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Em uma decisão amplamente antecipada pelo mercado financeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 10,75% ao ano. Para a instituição, o juro no atual patamar é suficiente para garantir que a inflação caminhe ao longo do tempo para a meta de 4,5%. Ao contrário da decisão anterior, o comunicado do BC foi bem mais curto e se limitou a dizer que a manutenção ocorreu avaliando-se "o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação".

Apesar de esperada, a atuação do BC tem sido alvo de crescente desconforto por parte do mercado, que acredita que os juros básicos já deveriam estar mais altos por conta da aceleração da inflação. Esse sentimento foi reforçado pela alta de 0,62% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de outubro, o dobro da inflação de setembro. O BC já antecipava um movimento de aceleração dos preços a partir de outubro, mas, para o mercado, o ritmo está muito forte e mais disseminado entre os produtos que compõem o IPCA do que o inicialmente previsto.

Por outro lado, o comportamento mais estável da atividade econômica há cinco meses, mostrado também ontem pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), favorece a posição mais tranquila da autoridade monetária com o atual nível de juros.

Isso porque os números mostram que o ritmo da economia está compatível com a capacidade de as empresas produzirem bens e serviços para atender aos consumidores. Além disso, a taxa de câmbio valorizada tem permitido um crescimento das importações que também ajuda no controle dos índices de preços.

Crítica. Para o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale, o BC tem errado na dose de política monetária desde o começo do ano, além de falhar na comunicação. "Isso tem levado a uma disparidade muito grande nas expectativas, seja de inflação seja da própria Selic. Há muito tempo não se via uma divergência tão grande nas expectativas de Selic para o ano seguinte. Tem gente que acredita em queda, em manutenção e em alta, como a gente", afirmou. "De qualquer maneira, por opção do próprio BC, me parece que ele não sobe mais a Selic este ano e entrega o fardo para o próximo presidente, que vai ter que arrumar a casa novamente", acrescentou.

Na visão de Vale, apesar de trazer consequências negativas no curto prazo, a elevação da Selic evita que a inflação ganhe corpo, prejudicando muito mais a economia. Segundo ele, a única alternativa à alta dos juros seria um "choque fiscal mais relevante", que contribuísse para segurar a demanda e permitiria ao BC até baixar os juros.

Sem preocupação. A economista-sênior do banco RBS Global Banking, Zeina Latif, não vê com tanta preocupação a manutenção da Selic. "O BC está tomando risco do que o mercado gostaria, comparativamente a outros momentos, mas ele tem razões para aguardar e não mexer nos juros", disse Zeina, mencionando especificamente a situação de estabilização do PIB mostrada no IBC-Br. "Têm alguns indicadores meio desencontrados mostrando que do lado interno é uma coisa, do externo, outra, e o BC está querendo esperar o efeito final disso. Acho que ele tem tempo para avaliar e comparar o lado interno e externo. Acho que tem racionalidade, a decisão de manter a Selic", acrescentou.

Uma pesquisa feita pelo Banco Central com economistas de grandes instituições às vésperas da reunião do Copom indicou que 85% deles eram favoráveis à manutenção da Selic, segundo informação de uma fonte ligada ao banco.

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