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Copom paz e amor!

O Copom deve manter a taxa Selic em 6,50% e descartar subir juros até o fim deste ano

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2018 | 04h00

Apesar da piora no cenário externo, com a turbulência provocada pelo Brexit, pela crise orçamentária na Itália e pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, a principal mensagem do comunicado a ser divulgado amanhã ao fim da reunião do Copom será a redução nos riscos domésticos.

O Copom não somente deverá manter a taxa Selic inalterada em 6,50%, como também deixar a porta fechada para subir os juros até o fim deste ano, sinalizando que um novo ciclo de aperto monetário somente deve acontecer em meados de 2019 e a um ritmo bem mais brando do que o esperado inicialmente.

Essa provável sinalização menos dura pelo Copom para os próximos passos da política monetária tem a ver com a eliminação de uma importante incerteza: a derrota do PT e de um candidato visto como menos comprometido com a aprovação de reformas, em particular a da Previdência.

Com a eleição de Jair Bolsonaro, melhorou o balanço de riscos do Banco Central no que diz respeito à necessidade de aprovação de reformas para a manutenção da inflação e das expectativas inflacionárias em trajetória bem comportada.

Desde que as pesquisas de intenção de voto mostraram que a vitória de Bolsonaro era certa, os preços dos ativos brasileiros experimentaram um poderoso rali, com a cotação do dólar recuando com força ante o real.

Essa queda do dólar desde a última reunião do Copom, em 18 e 19 de setembro passado, terá um impacto importante nas projeções de inflação do BC. Na sua última reunião, o Copom usou a cotação do dólar a R$ 4,15 para suas projeções de inflação em 2018 e 2019, no chamado cenário de referência (com juros e câmbio constantes). Nesse cenário, a estimativa de inflação em 2018 subiu para 4,4%, quando a meta do BC é de 4,5%. A projeção para o IPCA (o índice oficial de inflação) em 2019 foi elevada para 4,5%, acima da meta de 4,25% para o ano que vem.

No cenário de mercado, que utiliza as projeções dos analistas consultados na pesquisa Focus, do BC, a estimativa de inflação em 2018 ficou em 4,1% levando em conta a taxa Selic a 6,5% e dólar a R$ 3,83 no fim deste ano. Já para 2019, considerando como premissa juros básicos em 8,0% e um dólar a R$ 3,75, o cenário de mercado embute uma projeção de inflação de 4,0%.

Assim que a vitória de Bolsonaro passou a ser dada como certa pelos investidores, o dólar acabou recuando até mais do que a cotação que serviu de base ao cenário de mercado contido na última ata do Copom. Na segunda-feira, a moeda americana fechou no patamar de R$ 3,70.

Com o dólar a esse nível, a probabilidade de as expectativas inflacionárias voltarem a decolar é bem menor. Além disso, a declaração feita ontem por Bolsonaro de que vai trabalhar pela aprovação ainda este ano de pelo menos parte da reforma da Previdência enviada pelo presidente Michel Temer reforça a percepção de que são menores os riscos domésticos realçados pelo Copom no comunicado e na ata da sua última reunião.

Mesmo que siga destacando que as incertezas do ambiente externo se exacerbaram, o comunicado da reunião do Copom desta semana deve minimizar a deterioração dos riscos que possa forçar o BC a subir os juros ainda este ano, principalmente porque a “agenda do PT” para a economia já não está mais no horizonte.

Isso porque o risco associado ao governo Bolsonaro é apenas o de execução, ou seja, se ele conseguirá ou não angariar os 308 votos necessários na Câmara dos Deputados para aprovar a reforma da Previdência. Com o candidato petista, o risco percebido pelo mercado era de aversão à reforma.

Ou seja, no balanço de riscos para a inflação, o Copom deve dar maior peso à melhora das perspectivas de aprovação de reformas com a eleição de Bolsonaro do que à incerteza com o ambiente externo. Essa diferença é importante porque, no comunicado da reunião de setembro, o Copom deu a entender que estava se preparando para elevar os juros ainda este ano, passada a eleição presidencial. Agora, deve sinalizar que, quando começar a subir a Selic, deve ser bem mais para frente.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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