Beto Nociti/Banco Central
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Copom precisa dar adeus ao ajuste parcial e não diminuir o ritmo de alta da Selic

Não dá para o Banco Central simplesmente fechar os olhos para o que está acontecendo com a inflação neste ano

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 04h00

Em meio à crescente pressão de investidores e de analistas, o foco principal da reunião do Copom neste mês, marcada para a próxima semana, recairá sobre a manutenção ou não da promessa do Banco Central de fazer uma normalização apenas parcial da política monetária e de seguir sinalizando o ritmo atual do ciclo de alta de juros, de 0,75 ponto porcentual.

Na sua última decisão, em 5 de maio, o Copom elevou a taxa Selic em 0,75 ponto porcentual, para 3,50%, e sinalizou que, se nada de extraordinário acontecesse, subiria os juros na mesma magnitude na reunião da próxima semana, o que levaria a taxa para 4,25%.

Há argumentos, na realidade, tanto para manter a sinalização de normalização parcial, quanto para mudar o tom e eliminar tal expressão do comunicado que acompanhará a decisão do Copom, o que sugeriria ajuste total da política monetária, levando a Selic para, pelo menos, 6,50% no fim deste ano, pressupondo juros reais neutros de 3,0%.

Isso vai depender de quais fatores o Copom dará maior peso na sua decisão. De um lado, o câmbio se apreciou significativamente desde a sua última reunião, quando trabalhou com um dólar partindo da cotação de R$ 5,40. Ao longo da última segunda-feira, a moeda americana chegou a cair a R$ 5,01.

Um dólar mais fraco dá um alívio importante na pressão sobre a inflação. O câmbio mais depreciado, juntamente com a disparada recente nas cotações de commodities, encareceu os preços de matérias-primas em reais. Agora, a perspectiva de um choque nos preços de commodities afetando a inflação ficou bem mais contida, com a apreciação do real.

Outra contribuição favorável ao balanço de risco da inflação tem sido a melhora nos indicadores fiscais, uma vez que as projeções de maior crescimento da economia brasileira em 2021 reduzem as estimativas de relação dívida pública/PIB e, por tabela, reduzem o chamado prêmio de risco sobre os ativos brasileiros, como o câmbio. Vários analistas já revisaram suas projeções de expansão do PIB neste ano para 5,0% ou mais.

Depois de a dívida subir para 89,3% do PIB em 2020, já há quem projete uma queda nessa relação para ao redor de 84% ao fim deste ano.

Do ponto de vista negativo para o balanço de risco, a crise hídrica que o Brasil atravessa, forçando o acionamento de usinas termoelétricas, que geram energia a um custo bem mais elevado do que as hidrelétricas, resultará em maior pressão sobre a inflação neste ano.

As expectativas de inflação para 2021 vêm subindo com impressionante velocidade. Na última pesquisa Focus, o consenso das projeções do IPCA (índice oficial de inflação) subiu para 5,44% em 2021, enquanto o teto da meta perseguida pelo BC é de 5,25%, o que forçaria a autoridade monetária a escrever uma carta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, justificando o porquê de a inflação ter ultrapassado o teto da meta.

É verdade que o horizonte relevante da política monetária é apenas a inflação de 2022, cujas estimativas vêm subindo mais devagar. A mediana das projeções aponta um IPCA de 3,70%, enquanto o centro da meta do ano que vem é de 3,50%. Todavia, uma disparada adicional na inflação de 2021 terá impacto sobre o índice de preços ao consumidor de 2022. Então, não dá para o BC simplesmente fechar os olhos para o que está acontecendo com a inflação neste ano.

É interessante destacar que, apesar de o Copom ter elevado os juros básicos em 1,5 ponto porcentual nas últimas duas reuniões, as expectativas inflacionárias para 2021 e 2022 seguiram piorando. Isso mostra que o mercado considera que o BC está bastante atrasado na normalização da política monetária, após ter cortado a Selic para mínima histórica de 2,0%.

O Copom precisa dar maior peso às expectativas inflacionárias, colocando menor ênfase à apreciação cambial e à melhora das estatísticas fiscais. Até porque um crescimento maior do PIB poderá levar a uma melhora na demanda por serviços, um setor que até agora vinha segurando a alta da inflação.

Nesse contexto, o Copom precisa dar adeus à promessa de ajuste apenas parcial e sinalizar que não pretende diminuir o ritmo atual da alta de juros. Caso contrário, perderá controle sobre as expectativas de inflação também para 2022.

*JORNALISTA DO BROADCAST

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