Dida Sampaio/Estadão
É o nono corte consecutivo que o Copom, do Banco Central, fez na taxa no atual ciclo. Dida Sampaio/Estadão

BC cita ‘incertezas’ sobre economia e põe Selic a 2%; taxa afeta ganho de aplicação

Banco Central reduz taxa básica de juros pela nona vez consecutiva e sinaliza que níveis baixos devem continuar, embora exista agora pouco espaço para novos cortes; em comunicado, Copom qualifica como ‘desafiador’ ambiente para emergentes

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 18h20
Atualizado 06 de agosto de 2020 | 07h43

BRASÍLIA - Em mais um movimento para estimular a economia durante a crise provocada pelo novo coronavírus, o Banco Central cortou a Selic (a taxa básica de juros) pela nona vez consecutiva. Em decisão unânime, os dirigentes da autarquia citaram “incertezas” sobre a atividade para reduzir a taxa em 0,25 ponto porcentual, de 2,25% para 2% ao ano. Este é o menor juro básico já registrado no Brasil.

Para os próximos meses, o BC sinalizou que os juros seguirão em níveis baixos, mas que há pouco espaço para novos cortes. A Selic no piso histórico reduz ganhos com aplicações financeiras, como a caderneta de poupança e os investimentos em renda fixa

Com juros a 2% ao ano, o Brasil possui agora o 15.º juro real mais baixo do mundo, considerando as 40 economias mais relevantes. Os cálculos são do site MoneYou e da Infinity Asset Management.

Com a atividade sob pressão e a inflação em níveis comportados, a expectativa dos analistas era de que o BC, de fato, cortasse mais uma vez a Selic ontem. De um total de 50 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 43 esperavam por um corte de 0,25 ponto, para 2% ao ano. Sete casas aguardavam pela manutenção da taxa básica em 2,25% ao ano.

No comunicado que acompanhou a decisão, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC qualificou o ambiente para as economias emergentes como “desafiador” e citou a incerteza sobre o ritmo de crescimento do Brasil – em especial a partir do fim de 2020, quando os efeitos dos auxílios emergenciais arrefecerem. 

Ao mesmo tempo, o BC alertou que as políticas do governo de resposta à pandemia podem fazer com que a redução da demanda por produtos e serviços seja menor que a estimada, o que poderia dar força à inflação.

Por trás do comentário, está o receio de que programas adotados durante a pandemia – como o auxílio emergencial de R$ 600 – possam se tornar permanentes, elevando ainda mais o rombo fiscal do governo. Com isso, o BC poderia ser obrigado a subir a Selic.

Na visão do BC, enquanto a inflação projetada estiver abaixo das metas – como visto atualmente – não haveria motivos para a Selic subir. 

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'Selic pode voltar a cair, mas gastos do governo pedem cautela ao BC', diz especialista

Para ex-economista do Santander e Itaú, Banco Central deverá manter taxa Selic em 2% por um longo período

Entrevista com

Ricardo Denadai, economista-chefe e estrategista da gestora Ace Capital

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 20h01

O previsível corte de 0,25 ponto porcentual da Selic realizado nesta quarta-feira, 5, pelo Banco Central deve, na opinião do economista Ricardo Denadai, marcar o fim do atual ciclo de flexibilização da taxa básica de juros da economia, que agora está em 2% ao ano. Ex-economista-chefe do Santander, hoje no comando da gestora Ace Capital. ele acredita que existiria espaço para novos cortes. Mas a deterioração da situação fiscal do País, em função dos gastos durante a pandemia do novo coronavírus, farão os técnicos do BC a adotar uma postura mais conservadora de agora em diante. 

Sobre a economia, ele acredita que o "pior já passou". "Mas há ainda uma dúvida muito grande sobre qual vai ser a velocidade da retomada da economia e se essa melhora vai se sustentar quando toda essa transferência de renda que tem havido cessar", diz ele, que espera uma taxa de desemprego na casa dos 20% com o fim do benefício emergencial de R$ 600, que forçará as pessoas a procurarem emprego.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Alguma surpresa na decisão do Banco Central em cortar 0,25 ponto porcentual da taxa Selic?

Nenhuma, foi uma decisão muito alinhada com a evolução do cenário, as sinalizações anteriores do próprio Banco Central, um resultado que ratificou a projeção predominante do mercado.

O BC chegou ao fim do ciclo de flexibilização ou ainda tem espaço para novas quedas?

Acho que o cenário mais provável é de manutenção até onde a vista alcança nesse patamar de 2% ao ano. Eu acredito em um período realmente prolongado da manutenção desse patamar. A inflação está baixa, as expectativas para o ano que vem estão também baixas, acho possível que a gente tenha uma revisão para baixo dos 3% em 2021. E por esse arcabouço, de ociosidade da economia e baixa expectativa de inflação, até caberia uma continuação de queda. Mas não acredito.

E por quê, então, não deve cair mais?

É que tem o outro lado da história, fatores de preocupação do Banco Central que fazem com que a curva de juros fique equilibrada para a manutenção. O primeiro é o fiscal pós-pandemia, que é um fator incerte e parece complicado. O segundo é o receio do lado financeiro, de levar a Selic a um patamar em que se torne disruptivo o efeito, pressionando demais a taxa de câmbio e os juros de longo prazo. Existe o medo de flertar com isso.

Quais as suas projeções para a inflação?

Estamos projetando a inflação em 1,9% neste ano e 2,8% em 2021, abaixo das projeções de mercado, que estão em 3%. A gente acredita muito que a ociosidade da economia vai ser importante por um tempo e, com isso, irá manter a inflação baixa neste ano e no ano que vem.

Mas, associados ao cenário econômico, de baixo consumo e altos gastos do governo, os juros a 2% trazem algum risco de instabilidade financeira?

Não trarão riscos se a gente manter o teto de gastos funcionando como a principal âncora fiscal. E que o governo, na medida do possível, na medida em passamos por esse desafio gigante que é a pandemia, volte a se dedicar a colocar a situação fiscal do País nos trilhos. Para a manutenção dos juros em baixo nível, como estão hoje, isso é fundamental.

Nesse sentido, o que mudaria nesse cenário a articulação do Congresso para adiar o decreto de calamidade para 2021?

O impacto seria muito ruim para os juros. Transformar as medidas que eram para ser provisórias, durante seis meses, em provisórias, mas por 18 meses, aumentaria muito os gastos do governo. E aumenta o risco de uma desancoragem fiscal. É por isso que o Banco Central trabalha com esse equilíbrio. Tem espaço para reduzir mais a taxa Selic, mas os riscos em função dos gastos do governo devem segurar isso daqui pra frente.

O IBGE reportou aumento de 7% na produção industrial de maio ante abril e crescimento de 19,6% no volume de vendas do varejo ampliado na mesma base, o que empolgou os analistas. Para vocês, o pior da crise já passou?

O pior já passou, sim. O momento mais dramático da crise do pontos de vista econômico foi abril. Em maio já começou a ocorrer alguma recuperação. Mas há ainda uma dúvida muito grande sobre qual vai ser a velocidade da retomada da economia e se essa melhora vai se sustentar quando toda essa transferência de renda que tem havido via crédito para empresas e o 'coronavoucher' cessarem. Estamos falando, no programa para informais durante a pandemia, de uma transferência de R$ 50 bilhões por mês, versus um Bolsa Família que foi, em todo o ano passado, de R$ 33 bilhões. O mundo inteiro ficou mais pobre em função da pandemia, que levou a um grande choque de demanda. A diferença para a gente, aqui, é que o Brasil já vinha muito fragilizado em função da queda de 9% em 2014, 2015 e 2016. A recuperação depois disso até o ano passado foi pífia, foi quase nada, 0,2%, 0,5% ao ano. E, agora, vamos ter uma nova queda de 7%. Isso é dramático.

Sem falar no desemprego. Você acha que vamos ainda encarar uma forte depressão nos empregos daqui para a frente?

Não tenha dúvida, a gente não tem a dimensão exata do efeito do coronavírus no mercado de trabalho. A própria taxa de desemprego está subdimensionando o problema. O 'coronavoucher' fez com que as pessoas, para se protegerem da pandemia, ficassem em casa. Mas, uma conta que fazemos é que. quando essas pessoas voltarem a procurar emprego, o desemprego vai subir na hora dos atuais 12% a 13% para 18% a 20%. E tem também as empresas que, sob efeito da MP 936 (que flexibilizou a redução de jornadas e suspensão de concretos), foram condicionada a não demitir. Mas no quarto trimestre vamos saber exatamente o efeito desse choque todo no mercado de trabalho. E esse é um dos motivos que levam o Banco Central a possivelmente não reduzir mais a Selic.

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Análise: O Banco Central entre o risco fiscal e a recuperação pós-pandemia

No limite, o governo pode ter que lidar com a desconfiança do restante do mundo em relação a sua capacidade de pagar dívidas crescentes. É o risco de insolvência

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 20h44

BRASÍLIA - A dúvida sobre o que vai ocorrer com a atividade econômica no Brasil após a pandemia está colocada para o Banco Central (BC). E no centro da questão estão os programas lançados pelo governo para minimizar a crise.

O BC, assim como o restante do governo, já sinalizou que a continuidade dos programas governamentais para além de 2020 pode representar uma bomba-relógio para a área fiscal. No limite, o governo pode ter que lidar com a desconfiança do restante do mundo em relação a sua capacidade de pagar dívidas crescentes. É o risco de insolvência. Vale lembrar que o Fundo Monetário Internacional (FMI) já projeta a dívida bruta brasileira acima de 100% do PIB no fim deste ano.

No comunicado desta quarta-feira, 5, do Copom, o BC fez vários alertas neste sentido:

 “Políticas fiscais de resposta à pandemia que piorem a trajetória fiscal do país de forma prolongada, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco.” 

 “O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia.”

Em declarações públicas recentes, o próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto, tem lembrado que um dos trunfos do País é que todos os programas emergenciais possuem data para acabar: 31 de dezembro.

Mas e depois disso?

Na ata desta quarta, o BC externou dúvidas sobre o que vem pela frente. Ao avaliar o ritmo de crescimento da economia, a autarquia afirmou que a incerteza permanece “acima da usual, sobretudo para o período a partir do final deste ano”. Este período, lembrou o BC, é o do “esperado arrefecimento dos efeitos dos auxílios emergenciais”.       

Na prática, ao mesmo tempo em que teme o descontrole fiscal, caso os auxílios continuem em 2021, o BC parece mostra certa preocupação com o ritmo da economia a partir do momento em que esses programas forem, de fato, desfeitos.

Por enquanto, no mercado financeiro a projeção para crescimento do PIB é de 3,50% em 2021, após a forte queda de 5,66% esperada para 2020.

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