Dida Sampaio/ Estadão
Sede do Banco Central, em Brasília (DF). Dida Sampaio/ Estadão

Copom corta Selic para 3,75% ao ano em meio a caos no mercado e pandemia do novo coronavírus

Valor da taxa era de 4,25% ao ano; este é o sexto corte consecutivo da taxa no atual ciclo, após período de 16 meses de estabilidade

Eduardo Rodrigues e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 18h09
Atualizado 18 de março de 2020 | 20h55

BRASÍLIA - O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir a Selic (a taxa básica da economia) para 3,75% ponto porcentual, de 4,25%. Este é o sexto corte consecutivo da taxa no atual ciclo, após período de 16 meses de estabilidade. Com isso, a Selic está agora em um novo piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996.

Desde o início do atual ciclo, o Copom havia aplicado quatro reduções de 0,50 ponto porcentual e uma de 0,25 ponto percentual, na reunião passada. Agora, voltou a cortar em 0,5 ponto porcentual. No comunicado, os diretores do BC afirmam como "adequada" a manutenção da taxa Selic neste patamar. "No entanto, o comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos", diz a nota.

O anúncio do Banco Central cita, como fatores que compõem o cenário econômico atual a "desaceleração significativa do crescimento global", a queda dos preços das commodities; o "aumento da volatividade nos preços de ativos financeiros", e os impactos futuros do coronavírus na economia - que, segundo o BC, ainda não estão refletidos nos dados mais recentes da atividade econômica brasileira.

O agravamento da crise global decorrente da pandemia do novo coronavírus levou diversos bancos centrais do mundo a intensificarem o afrouxamento das condições monetárias em economias centrais desde o último fim de semana. Com isso, boa parte do mercado passou de defender um corte de maior magnitude nos juros também no Brasil

"O Banco Central do Brasil ressalta que continuará fazendo uso de todo o seu arsenal de medidas de políticas monetária, cambial e de estabilidade financeira no enfrentamento da crise atual", diz o comunicado. 

Em levantamento realizado na segunda-feira, 16, das 26 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 16 estimaram corte de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros, o que levaria a taxa a 3,75% imediatamente. Outras cinco estimaram corte de 1,0 ponto porcentual, enquanto duas projetaram queda de 0,75 pp e outras três, de apenas 0,25 pp - nenhuma casa esperava manutenção da Selic em 4,25%.

O Copom se reúne a cada 45 dias para definir a Selic, buscando o cumprimento da meta de inflação. A meta é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão formado pelo Banco Central e Ministério da Economia.

O centro da meta de inflação perseguida pelo BC em 2020 é de 4,00%, com margem de 1,5 ponto (de 2,5% a 5,5%). No caso de 2021, a meta é de 3,75%, com margem de 1,5 ponto (2,25% a 5,25%). Já a meta de 2022 é de 3,50%, com margem de 1,5 ponto (2,00 a 5,00%). 

Quando a inflação está alta ou indica que ficará acima da meta, o Copom eleva a Selic. Dessa forma, os juros cobrados pelos bancos tendem a subir, encarecendo o crédito e freando o consumo, assim, reduzindo o dinheiro em circulação na economia. Com isso, a inflação tende a cair.  

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Corte da Selic é pequeno e insuficiente, diz Pessôa

Para o chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o corte anunciado hoje foi "tímido"

Entrevista com

Samuel Pessôa, chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 19h29

Para o chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Samuel Pessôa, o corte para 3,75% ao ano da Selic, a taxa básica de juros, foi tímida, dado o tamanho do desafio que a economia brasileira tem pela frente, com os reflexos causados pela epidemia do novo coronavírus. A seguir, trechos da entrevista.

Como o sr. avalia esse novo corte da Selic?

É um movimento importante, mas veio um corte pequeno, insuficiente. Uma outra questão é que o texto do comunicado não é condizente com o que o tamanho da crise que a gente está vivendo. Eles falam de uma possibilidade de risco de pressões causado pelo novo coronavírus, como se ainda fosse uma possibilidade. Esse risco já está absolutamente intensificado.

Era preciso que o Copom fosse mais enfático, dada a gravidade da crise que está por vir?

Veja bem, começa a circular uma revisão de atividade econômica nos Estados Unidos para queda de 5%. No Brasil, era  importante que o Banco Central desse uma indicação de uma queda mais acentuada. Além disso, o texto tinha de evocar a total situação de excepcionalidade. Veio o mesmo texto burocrático, que reflete o comunicado de toda reunião. É um texto sistemático, sóbrio, mas a situação requer uma decisão mais incisiva.  

Por que o sr. avalia que corte da Selic foi pequeno?

O corte foi pequeno porque o choque de demanda que a economia brasileira  sofre agora significa que o juro neutro (o suficiente para manter a economia rodando sem choques inflacionários) está por volta de 2%, com a inflação em 5%. Com esse novo corte da Selic, portanto, há um impulso monetário de 1,25%. Esse choque brutal de demanda deve ter jogado o juro neutro muito para baixo. Não ficaria surpreso se o juro neutro estivesse hoje em 0% ou até negativo. A Selic, portanto, deveria ter tido um corte mais agressivo. O momento requer uma política monetária mais forte.

O governo tem conseguido responder com eficiência a um desafio desse tamanho?

Tenho sentido que o governo está atrasado, ele estava sem um sentido de urgência. Ontem, houve uma série de anúncios. É preciso avaliar com mais calma os efeitos, mas a coisa pode está começando a ganhar uma velocidade. Até o começo da semana, eu sentia um atraso injustificado. Parece que eles estão tentando recuperar terreno. Tomara que estejam mesmo.

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Com juros em 3,75%, Tesouro Selic pode render menos que inflação

Títulos mais longos, atrelados à inflação ou prefixados, subiram prêmio, mas têm mais riscos para o investidor

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 20h02

Com a taxa básica de juros em 3,75% ao ano, a aplicação no Tesouro Selic deve ter rendimento abaixo da inflação. O que significa que, em um ano, o dinheiro investido ali, perde poder de compra. A conta é simples. Considera-se, para os próximos 12 meses, a inflação projetada para 2020 pelo Boletim Focus, que é de 3,1% . Com a nova taxa de juros, descontadas as taxas e Imposto de Renda, o Tesouro Selic renderia 2,8% em um ano. Sendo assim, a alta de preços da economia seria maior que o rendimento da aplicação. Os cálculos são do professor de finanças da FGV e colunista do Estadão, Fábio Gallo. Mesmo assim, a aplicação segue um pouco acima da poupança – que ficou com rendimento de 2,62% no ano–, seguindo com características importantes em tempos de crise: liquidez e segurança. 

As letras de crédito imobiliário (LCI), que paguem 97% do CDI, e CDBs, que remunerem 116% do CDI, seguem ganhando da inflação projetada. Em um ano, estima-se que eles tenham, respectivamente, rendimentos de 3,64% e 3,48%.

Já para o investidor que tem mais prazo para resgatar o investimento e está disposto a correr risco, há outras possibilidades na renda fixa. Em meio à crise causada pela pandemia de coronavírus, títulos atrelados à inflação com vencimento em 2026, por exemplo, aumentaram seu prêmio sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 4,16%. Comvencimento no mesmo ano, os títulos prefixados - que definem no momento da compra toda a remuneração que o investidor terá quando fizer o resgate - apresentam remuneração de 8,32%. Isso acontece porque, apesar do corte desta quarta-feira, 18, promovido pelo Copom, a expectativa do mercado é que, no futuro, os juros voltem a subir. Sendo assim, os títulos que tem prazos mais longos, oferecem uma remuneração melhor.

“Podemos dizer que, no momento, as melhores oportunidades estão nos títulos atrelados à inflação e nos prefixados. Agora, os prefixados têm mais risco, já que, caso a taxa de juros ou a inflação subam mais que o esperado, o investidor já aceitou a remuneração”, diz Gallo.

Para André Perfeito, economista-chefe da Necton, os títulos atrelados à inflação até podem ser uma possibilidade nas carteiras dos investidores, mas a recomendação é ficar no pós. “Na nossa visão, o Copom não fará mais cortes e, lá na frente, volta a subir as taxas. Logo, sugiro que o investidor fique no pós fixado”, diz. 

O coordenador do laboratório de finanças do Insper, Michel Viriato, diz ainda que a inflação pode arrefecer ainda mais com a crise e fazer o Tesouro Selic, que é um título pós fixado, voltar a ter ganho real. 

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