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B3, a Bolsa de Valores de São Paulo; Selic atinge o patamar de dois dígitos pela primeira vez desde 2017 Amanda Perobelli/ Reuters

Veja como ficam os investimentos com a Selic a 10,75%

Investimentos em títulos de renda fixa, remunerados por uma taxa flutuante, ficam mais vantajosos com o aumento dos juros e a desaceleração da inflação, mas especialistas começam a olhar para prefixados também

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 18h44

Quase cinco anos depois, a taxa básica de juros voltou a atingir o patamar de dois dígitos. Com a decisão do Copom de elevar a Selic para 10,75% nesta quarta-feira, 2, a taxa ultrapassa seu valor no período de julho de 2017, quando estava a 10,25%.

Em ciclos de alta da Selic, os investimentos em renda fixa ganham mais atratividade. Para este momento, as apostas continuam sendo nos investimentos pós-fixados atrelados a uma taxa flutuante, como CDI, Selic e IPCA, pois esses índices corrigem o retorno do investimento conforme sua variação. Mas, a expectativa é de que a Selic atinja o pico nos próximos meses, entre março e maio, para depois passar o ano estável. Assim, alguns especialistas já recomendam a alocação de uma parcela da carteira em títulos prefixados (aqueles em que a taxa de juros já é definida de antemão), mas de curto prazo.

“Os investimentos pós-fixados continuam sendo boas opções de investimento. Mas já podemos considerar opções prefixadas com vencimento curto, de um ou dois anos”, diz Rodrigo Beresca, analista de Soluções Financeiras da Ativa Investimentos. “Os investidores podem encontrar taxas boas no mercado com juros atuais antes que comece o ciclo de queda, que prevemos que se inicie em 2023.”

Para o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, o ciclo de alta da Selic deve atingir o pico entre março e maio, em torno de 11,75% e 12,75%. “O Banco Central elevou muito os juros no ano passado, de 2% para 9,25%, em um ano. Como os efeitos da política monetária levam em torno de 6 a 9 meses (para surtir efeito na inflação), vamos ver todo o impacto do aumento de juros sobre a atividade deste ano”, diz Sung.

Se a economia seguir de acordo com as expectativas demonstradas no Boletim Focus desta semana, com o IPCA em 5,38% e a taxa básica de juros a 11,75%, os investimentos em renda fixa passariam a ter um rendimento positivo, ainda que o valor seja baixo.

Quem depositar R$ 1 mil na poupança e retirar daqui a um ano, por exemplo, vai ter um retorno de R$ 4,58, segundo os cálculos do professor de Finanças da FGV-SP Fabio Gallo, colunista do Estadão.

Algumas adversidades, porém, podem mudar esse cenário. Fora os problemas já conhecidos do ano passado como inflação alta, câmbio ainda desvalorizado e algumas quebras de safra na agricultura por causa do clima, está no horizonte o aumento da taxa de juros também nos Estados Unidos, que afeta a decisão de investidores do mundo todo.

“Os títulos públicos americanos, que são considerados os ativos mais seguros para investimento, vão passar a remunerar mais, e isso atrai os investidores globais, que podem sair de economias emergentes”, diz a analista de investimentos da Toro Investimentos Paloma Brum, que acredita que o fim do ciclo de alta de juros ainda não esteja perto do fim.

“Qual é a forma de segurar o fluxo de saída de capital no País? Justamente subir a Selic. Para cada 0,25% de aumento nos EUA, devemos ter pelo menos o aumento de 1% na Selic, porque nosso País tem um risco elevado (e precisa pagar um prêmio maior aos investidores).”

Renda variável

Embora os títulos de renda fixa fiquem mais atraentes com o aumento da Selic, o investidor também pode encontrar oportunidades de investimento na Bolsa e se beneficiar de um eventual ganho das ações. Em janeiro, por exemplo, o Ibovespa (principal índice de ações da Bolsa) terminou o mês com alta de quase 7%. 

João Daronco, analista da Suno Research, acredita que o setor agrícola pode ser um dos mais “fortes e promissores” no médio e longo prazo. “A demanda vem grande parte do mercado asiático, criando uma resiliência aos ciclos nacionais, e uma menor dependência de questões políticas.”

Já o setor que pode sofrer mais neste ano, na opinião dele, é o de varejo e consumo, por causa da inflação alta, crédito mais caro e por se tratar de um setor com baixa barreira de entrada de empresas, inclusive estrangeiras, trazendo mais competição.

Além de olhar o setor, é preciso fazer uma análise individual de cada empresa, lembra Paloma Brum, analista da Toro. “Não é para fazer um investimento em todas as empresas de um setor, senão corre o risco de comprar um papel caro. É preciso fazer um valuation”, diz ela.

Valuation é uma avaliação das empresas, feita por meio de balanços financeiros, para estimar se uma ação está sendo vendida a um preço justo, utilizando como base a capacidade dessa empresa de trazer retorno ao investidor no futuro. 

Para isso, é importante olhar também para a equipe da empresa, para a qualidade da gestão e sua governança corporativa, diz a analista.

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BC eleva Selic a 10,75%, e juros básicos voltam aos dois dígitos depois de quatro anos e meio

Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu elevar os juros em 1,50 ponto para conter a alta da inflação, mas sinalizou uma redução do ritmo de alta de juros no próximo encontro em março

Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 18h42
Atualizado 02 de fevereiro de 2022 | 20h35

BRASÍLIA E SÃO PAULO - O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) iniciou 2022 com mais uma alta de 1,50 ponto porcentual da Selic e sacramentou o retorno aos dois dígitos da taxa básica de juros, que passou de 9,25% para 10,75% ao ano – o maior patamar desde maio de 2017. Mesmo reconhecendo, pela primeira vez, que a inflação de 2022 vai ficar acima do teto da meta (de 5%), indicando o segundo ano de descumprimento de seu mandato principal, o BC sinalizou uma redução do ritmo de alta de juros no próximo encontro, nos dias 15 e 16 de março.

“Em relação aos seus próximos passos, o comitê antevê como mais adequada, neste momento, a redução do ritmo de ajuste da taxa básica de juros”, disse o Copom, acrescentando, como de costume, que os passos futuros poderão ser ajustados para assegurar a convergência às metas.

Esperada por todas as 59 instituições ouvidas pelo Projeções Broadcast, a decisão desta quarta-feira, 2, foi a oitava alta consecutiva da Selic, após a taxa chegar à mínima histórica de 2% devido aos primeiros impactos da pandemia de covid-19 sobre a economia. Desde o início do ciclo de aperto monetário atual, em março de 2021, o aumento acumulado é de 8,75 pontos porcentuais, o processo mais forte desde 1999, quando, em meio à crise cambial, o BC elevou a taxa em 20 pontos de uma só vez.

 

 

Apesar da sinalização de alta mais branda em março, o BC repetiu, no comunicado, que é apropriado que o ciclo de aperto monetário “avance significativamente em território contracionista (que desestimula a economia)”, diante do aumento das projeções de inflação e risco de desancoragem das expectativas em prazos mais longos. O aumento do juro básico da economia reflete em taxas bancárias mais elevadas, embora haja uma defasagem entre a decisão do BC e o encarecimento do crédito (entre seis meses e nove meses). A elevação da taxa de juros também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos.

No momento, a própria projeção do BC indica novo descumprimento de seu mandato principal este ano, depois de perder a meta de longe no ano passado, com um desvio de quase cinco pontos. A projeção de 2022 subiu de 4,7% para 5,4%, acima do teto da meta de inflação (5,0%). Para 2023, alvo principal da política monetária a partir de agora, a estimativa seguiu em 3,2%, ligeiramente abaixo do centro da meta (3,25%).

Por trás dessa alta acelerada dos juros está a inflação em patamares muito elevados. O cenário com que o Copom precisou lidar na reunião incluiu inflação acima do esperado no IPCA-15 de janeiro e a sinalização do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de que pode começar a subir juros a partir de março

Fim do ciclo de alta

Para o economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral, o Banco Central está preparando o terreno para encerrar o atual aperto monetário, com a Selic chegando entre 12% e 12,5% ao ano. Para encerrar o ciclo já no próximo mês, contudo, o cenário precisa melhorar. Como a dinâmica da inflação tem se mostrado persistente, a estratégia pode ser uma combinação de altas menores em março e maio.

“Acho difícil parar em março porque o que está fazendo o BC ter que subir juros rápido de uns tempos pra cá é a inflação corrente. A dinâmica tem sido pior que o esperado. Enquanto isso não mudar, o Copom vai ser pressionado a se mexer. Para parar em março, cenário precisa melhorar. Se não melhorar, dá um aumento menor em março e avança um pouco mais em maio”, avalia.

No comunicado, o BC reconheceu que a inflação continua surpreendendo negativamente. O colegiado ainda considerou que o cenário externo segue menos favorável para economias emergentes, com um risco de aperto monetário mais rápido nos EUA (ou seja, juros mais altos por lá aumentam a atratividade de títulos americanos em detrimento de outros investimentos). Quanto à atividade doméstica, houve avaliação um pouco mais otimista, com destaque para dados ligeiramente melhores no fim do ano passado, especialmente de mercado de trabalho.

Em relação aos riscos, voltou a alertar para o cenário das contas públicas: “Políticas fiscais que impliquem impulso adicional da demanda agregada ou piorem a trajetória fiscal futura podem impactar negativamente preços de ativos importantes e elevar os prêmios de risco do País.”

Juro real

Com os oito últimos aumentos da Selic, o Brasil voltou a ter a maior taxa de juro real (descontada a inflação) do mundo, em uma lista de 40 economias. Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está agora em 6,41% ao ano. Na sequência, aparecem Rússia (4,61%) e Colômbia (3,02%). A taxa real média desses 40 países está em -1,27%. / COLABOROU BÁRBARA NASCIMENTO

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‘Não há uma articulação política para propor alternativas para a economia’, diz Luís Eduardo Assis

Economista diz que o Banco Central não tem outra saída senão subir os juros para enfrentar a inflação alta; ‘Subir juros é ruim, mas é pior não subir’, diz ele

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 18h45

Apesar do impacto negativo de uma taxa de juros básicos de dois dígitos sobre a economia, com desdobramentos sobre o aumento do custo do endividamento das famílias, das empresas e do governo, que hoje está muito mais elevado, o economista Luís Eduardo Assis, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), não vê outra saída para conter a inflação, por causa da incapacidade de articulação política do governo.

Ele observa que a inflação atual é fruto de choques de oferta. Nas suas contas, nos últimos dois anos, os preços das commodities (matérias-primas) subiram 94% em reais. Só a energia elétrica teve alta de 21% em 2021. Ao elevar os juros básicos, o economista destaca que, ao menos, o Banco Central combate os efeitos secundários desses choques sobre a economia. “Subir juros é ruim, mas é pior não subir.” A seguir os principais trechos da entrevista.

A inflação persistente vai dificultar a tarefa do Banco Central de trazer a inflação ao menos para o teto da meta (5%) este ano?

Vai ser difícil trazer a inflação para o teto da meta porque a eficácia da política monetária na situação atual é limitada.

Qual é essa situação?

Estamos vivendo uma situação de choques muito significativos. Nos últimos dois anos tivemos choques de commodities, super desvalorização cambial e choques climáticos no Brasil, que afetaram o preço da energia. Os preços das commodities subiram 40% em dólar nos últimos dois anos e, em cima disso, houve uma desvalorização do dólar de 38%. A variação das commodities em reais foi de 94% em dois anos, e a energia elétrica subiu 21% no ano passado. É uma sucessão de fatores negativos que não têm nada a ver com a demanda. Mas, nas atuais circunstâncias, a única coisa que pode ser feita é subir os juros. Subindo os juros, ao menos, são combatidos os efeitos secundários desse choque de commodities, dólar, energia. Subir juros é ruim, mas é pior não subir.

Não há outras alternativas?

O governo não tem capacidade de articulação política para propor alternativas. Do ponto de vista da política econômica, resta fazer uma reunião dentro do BC e apertar o botão dos juros. Porque isso não envolve discussão com o Senado, Centrão, com os deputados. Esse governo gasta o seu pequeno estoque de articulação política para comprar o apoio do Centrão em detrimento do Orçamento e conseguir chegar até o final. É a estratégia da sobrevivência do próprio governo.

Qual é o impacto de uma taxa básica de juros de dois dígitos na economia?

É bastante significativo. É a maior taxa desde 2017 e encontra uma economia mais endividada: setor privado, famílias e principalmente o governo. Isso tem impacto fiscal, porque a despesa com juros será mais significativa neste ano. Tem impacto nas famílias e na avaliação das empresas na Bolsa. À medida em que os juros sobem, o valor das empresas, que é descontado por uma taxa mais alta, cai também. Tudo isso redunda num PIB (Produto Interno Bruto) estagnado em 2022.

O que pode ser feito para romper essa situação de inflação e juros de dois dígitos e crescimento próximo de zero?

A taxa de juros vai segurar o crescimento da economia em 2022. O que se imagina é que a Selic possa ficar em torno de 12% a 12,25% ao ano e a inflação possa cair de 10% para 5%, nas projeções de hoje. Isso com um custo de um desemprego muito alto e de uma economia estagnada. Mas dá para ficar otimista, mesmo sendo economista. Se tivermos ao longo de 2022 uma discussão sobre programas econômicos e um candidato que tenha capacidade de articulação política, capacidade de gestão de programas de reformas econômicas, poderemos ao longo dos próximos quatro anos, a contar de 2023, ingressar num ciclo de crescimento da economia.

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