Copom: uma ata serena, talvez até demais...

A Ata do Comitê de Política Monetária (Copom), sob a nova diretoria do Banco Central, não pode ser considerada alarmista, mas não esconde a preocupação com a retomada da inflação, opondo a ela a fé na eficiência da política monetária, reforçada por medidas prudenciais cujo efeito é mais rápido, embora tenha caráter apenas complementar.

, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2011 | 00h00

As autoridades monetárias reconhecem que "o cenário prospectivo para a inflação evoluiu desfavoravelmente". O problema é saber se na reunião anterior do Copom já não era evidente essa deterioração e se seus membros não sofreram pressão para não elevar a taxa básica de juros nas vésperas da posse do novo governo. Parece-nos que o atraso nessa decisão favoreceu uma contaminação inflacionária de todos os preços, particularmente dos serviços.

Os membros do Copom partem da ideia, que parece justificada, de que "são favoráveis as perspectivas para a atividade econômica doméstica", e estão conscientes de que essa atividade vai se desenrolar num clima que não está ao abrigo de novas pressões inflacionárias. Temos uma conjuntura de pleno emprego confirmada pelos dados de ontem do IBGE, com um desemprego de apenas 5,3% e um aumento contínuo das remunerações, nem sempre acompanhado por uma elevação da produtividade.

Paralelamente, a economia brasileira está vivendo os efeitos do excesso de liquidez que se verifica nos países do Primeiro Mundo, que neutralizam em boa parte os propósitos do Banco Central de reduzir o crescimento do crédito das instituições financeiras no País. A ata refere-se até aos efeitos dramáticos das condições climáticas, que espera serem sazonais.

Alguns pontos da ata trazem preocupação. Parece que os membros do Copom menosprezam os desdobramentos de uma inflação, que tem origem na alta dos preços dos alimentos, sobre todos os outros preços e, em particular, os dos serviços. E, mesmo com o Banco Central adotando medidas para desvalorizar o real, ela não se refere aos possíveis efeitos dessa desvalorização sobre os preços em geral.

Mas talvez o mais grave é a base da avaliação, ou seja, a hipótese de que o governo federal apresentará, no ano, um superávit primário pleno equivalente a 3,1% do PIB, um objetivo que, a nosso ver, não poderá ser atingido. Sabemos que o Banco Central, ao contrario do Fed (o banco central dos EUA), não tem liberdade para criticar a política fiscal do governo. No entanto, como verificamos em 2010, é nessa política que se encontra o fator de expansão da inflação. As novas altas da Selic, prenunciadas, serão óleo no fogo.

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