Copom vê inflação comportada em 2010

Para analistas, ata indica mudança no juro só em 2011

Fernando Nakagawa e Fabio Graner, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

O Banco Central interrompeu os cortes da Selic, taxa básica de juros, para avaliar o impacto das reduções que já fez nos últimos meses, em meio a um cenário de retomada cada vez mais evidente. O recado foi dado na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que, na semana passada, manteve a taxa em 8,75% ao ano. Sem a expectativa de grandes pressões sobre a inflação futura, o documento, divulgado ontem, consolidou a avaliação de que eventuais alterações do juro só devem ocorrer a partir do fim de 2010.

O BC também não vê, pelo menos por ora, um cenário folgado para a inflação no próximo ano, o que permitiria novos cortes no juro. A projeção oficial de inflação para 2010 subiu, embora ainda esteja "em torno de 4,50%", exatamente no centro da meta.

A ata mostra que o BC acredita que a inflação deve seguir um caminho alinhado com o centro da meta de inflação até 2011. "As expectativas inflacionárias para 2009, 2010 e 2011 continuam em patamar consistente com a trajetória das metas", cita o texto, de tom tranquilo.

No documento, prevalece a avaliação de que, agora, é preciso aguardar a evolução da atividade, sobretudo a reação aos cortes da Selic feitos entre janeiro e julho. Nesse período, o juro caiu cinco pontos porcentuais e passou a ter um dígito pela primeira vez.

"O mais importante já tinha sido dito na semana passada, quando o comunicado evidenciou a avaliação de que há ociosidade na produção e que o juro está em patamar consistente para levar a inflação à meta", diz o economista-chefe do Citibank Brasil, Marcelo Kfoury. Para ele, o documento consolidou a previsão de que o juro deve seguir inalterado até, pelo menos, o fim de 2010.

A reação da economia brasileira não parece tirar o sono do Copom. Para os diretores do BC, a atividade continua "mostrando melhora desde a última reunião, notadamente no que se refere ao consumo e, mais recentemente, também na indústria". Com o aumento das vendas no varejo, os estoques diminuíram e parte do comércio voltou a fazer pedidos às fábricas. Mas, pelo menos por enquanto, o quadro não provoca apreensão com eventual aumento de preços porque há o entendimento de que a ociosidade das fábricas "não deve ser eliminada rapidamente".

Para o BC, a reação da economia ainda está longe de anular o impacto deflacionário da queda da atividade gerada pela crise.

Kfoury também chama a atenção para o fato de que a ata citou duas vezes a questão fiscal, especificamente os gastos do governo federal. "O BC mostra que o juro baixo, somado ao estímulo fiscal, pode ser um risco para a inflação no médio prazo", diz.

Ele, no entanto, atenua a preocupação, dada a expectativa de que a reação da economia deve aumentar a arrecadação de impostos nos próximos meses, o que compensaria parcialmente o aumento das despesas governamentais. "Além disso, estaremos em um ano eleitoral em 2010, o que diminui a capacidade de gastos do poder público", acredita.

Uma das poucas mudanças da ata em relação à análise do Copom em julho é sobre a economia internacional. Segundo o BC, a recuperação da atividade econômica global "parece ter tido início". O risco que a diretoria do BC enxerga para a consolidação da recuperação global é de um agravamento nos problemas do sistema financeiro internacional.

O Copom mencionou ainda que a política monetária, "em um número expressivo de países, parece ter entrado em fase de estabilidade", depois de um período de flexibilização agressiva para o enfrentamento da crise internacional. Em relação à política fiscal em prática no mundo, os diretores do BC disseram que o aumento do endividamento do setor público "impõe limites ao escopo de eventuais estímulos fiscais adicionais", ou seja, ficou estreito o espaço para ampliação do déficit público.

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