Vahid Salemi/AP
Vahid Salemi/AP

Coronavírus contribui para revisões para baixo nas projeções do PIB de 2020

Mudanças nas estimativas já acontecia nas últimas semanas, devido aos dados mais fracos de atividade, mas se intensificou com conforme o vírus se disseminou pelo mundo

Vinicius Neder, Thaís Barcellos e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 09h30

RIO e SÃO PAULO - O surto do novo coronavírus iniciado na China, que preocupa o mundo desde meados de janeiro, surge como o principal vilão das revisões para baixo nas projeções para o crescimento econômico em 2020, que deverá ser marcado por mais uma frustração nas estimativas do início do ano. 

As Bolsas de Valores mundo afora já registraram fortes quedas nas cotações dos ativos financeiros, exigindo ação dos bancos centrais para acalmar os mercados, diante das previsões de redução no crescimento global.

Por aqui, embora o cenário ainda seja marcado pela incerteza, os primeiros impactos negativos já começaram a ser sentidos, sustentando uma onda de reduções de estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos na economia) deste ano. Pesquisa preliminar do Projeções Broadcast, feita na segunda-feira, 2, aponta crescimento de 2,0% este ano. No mesmo dia, o Boletim Focus, compilação semanal de projeções de analistas feita pelo Banco Central (BC), apontava para crescimento econômico de 2,17%, ante 2,30% na primeira semana do ano.

 

Nesta quarta-feira, 4, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos na economia) em 2019 ficou em 1,1%O resultado frustrou, pelo segundo ano consecutivo, as expectativas de uma retomada mais firme da atividade econômica. O padrão se repetiu em vários anos desta década. Entre os economistas, já há quem chame os anos 2010 de “década frustrada”. O movimento tende a se repetir este ano, justamente com os efeitos do surto do novo coronavírus como vilão da frustração

O movimento de revisão para as projeções já acontecia aos poucos nas últimas semanas, devido a dados mais fracos de atividade, mas se intensificou com as primeiras informações sobre o efeito do surto na economia chinesa e com a dispersão do vírus pelo mundo. 

Na semana anterior ao carnaval, a equipe de economistas da subsidiária brasileira do banco francês BNP Paribas revisou a estimativa de alta no PIB do Brasil este ano de 2,0% para 1,5%, após a equipe da instituição na China rever a projeção de crescimento da economia chinesa de 5,7% para 4,5%, disse Gustavo Arruda, economista-chefe para o Brasil.

Na segunda-feira, 2, o ASA Bank reduziu as projeções para o PIB de 2020, também de 2,0% para 1,50%, e de 2021, de 2,50% para 2,0%. Nos últimos dias, Banco Safra e Barclays também diminuíram as expectativas para o crescimento econômico.

O economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio Leal, estima que o coronavírus retire 0,3 ponto porcentual da evolução da economia brasileira neste ano, considerando apenas os efeitos relacionados à queda na demanda chinesa pelos produtos exportados pelo Brasil. O banco estima crescimento de 2,0% para o PIB em 2020. 

Considerando o que se sabe hoje sobre a magnitude do surto do novo coronavírus, o analista da Rio Bravo Investimentos Luis Bento calcula que o choque deverá reduzir o crescimento brasileiro deste ano entre 0,1 e 0,3 ponto porcentual. Atualmente, a Rio Bravo projeta alta de 1,80% em 2020.

Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), disse que a equipe de economistas da instituição decidiu por manter a estimativa de crescimento econômico de 2,2% para 2020, mas uma revisão para baixo deverá ser anunciada ainda nesta quarta-feira, 4, após a incorporação, nos cálculos, dos dados de 2019 divulgados na manhã desta quarta, pelo IBGE. A tendência é a projeção passar para cerca de 2,0%.

Ainda assim, Silvia ainda vê efeitos limitados à indústria e à exportações de matérias-primas. “Para o crescimento ficar muito abaixo de 2,0%, é preciso haver um choque mais duradouro, com efeitos sobre o setor de serviços e sobre o emprego”, disse a pesquisadora do Ibre/FGV, lembrando que as projeções já consideravam um desempenho fraco na indústria. Apenas a indústria extrativa, da qual se esperaria uma recuperação após as paradas de produção mineral na esteira do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), deverá ser sofrer com a queda na demanda chinesa.

No cenário de Silvia, o consumo das famílias, o setor de serviços e a construção civil (segmento do PIB industrial), voltados para a demanda doméstica, tenderão a ficar blindados dos efeitos do novo coronavírus e continuaram a puxar o lento crescimento da economia. Leal, do banco ABC Brasil, concorda e afirma que a construção civil deve aprofundar a tendência de retomada observada ao longo de 2019, levantando o investimento na composição do PIB deste ano.

“Já é lugar comum nas projeções essa avaliação, principalmente a partir do momento em que o programa de concessões (de infraestrutura) do governo começar a andar e se as reformas avançarem”, disse Leal.

Para o economista Ricardo Barboza, professor colaborador do Coppead, instituto de pós-graduação em administração da UFRJ, que tem registrado em estudos a frustração das projeções de crescimento econômico, as revisões para baixo nas estimativas para o PIB ocorreriam independentemente do surto iniciado na China.

“Os economistas não têm a menor ideia de qual o impacto do coronavírus no PIB brasileiro. Esses números que estão surgindo são um ‘mix’ de frustração com a atividade e de chute com o corona”, escreveu Barboza na terça-feira, 3, em sua conta no Twitter.

Na mesma linha, o economista-chefe da Arazul Capital, Rafael Leão, destaca que, mesmo antes do aparecimento da doença, a economia indicava estar crescendo em um ritmo mais baixo do que o inicialmente esperado.

“O vírus só agravaria esse panorama”, disse Leão, que tem projeção de crescimento de 2,0% no PIB em 2020, mas com tendência de revisar o número para baixo. 

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