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Coronavírus é desafio mais complexo que acordo EUA-China

Para a soja, principal produto agrícola brasileiro exportado para a China, os efeitos negativos devem ser limitados

Fábio Meneghin *, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2020 | 05h00

As exportações do agronegócio brasileiro têm condições de suportar os choques causados por dois grandes acontecimentos das últimas semanas: a assinatura do acordo comercial entre China e Estados Unidos e a epidemia de infecções respiratórias causadas pelo coronavírus.

No primeiro caso – o acordo comercial – há mais certeza dessa capacidade. Os chineses se comprometeram a comprar US$ 80 bilhões em produtos agrícolas americanos nos próximos dois anos, dos quais 45% em 2020 e o restante no ano que vem - detalhe: essas importações nunca superaram os US$ 30 bilhões. Trata-se de uma meta a ser atingida, mas nem por isso garantida. As importações vão ocorrer, segundo anunciaram as autoridades chinesas, em condições de mercado, sem imposição política.

Para a soja, principal produto agrícola brasileiro exportado para a China, os efeitos negativos devem ser limitados. Haverá, de fato, uma perda de participação no mercado chinês para soja americana, cujas exportações devem crescer 42% em relação a 2019, chegando a 34 milhões de toneladas neste ano. Todo o volume adicional deverá ser embarcado no último trimestre do ano, quando a nova safra americana tiver sido colhida. Para isso, no entanto, os Estados Unidos vão deixar de atender outros mercados, abrindo espaço para o Brasil diversificar sua clientela. Concretamente, a perda líquida para as exportações brasileiras de soja totais deve ser de apenas 1 milhão de toneladas em relação ao previsto antes da assinatura do acordo, chegando a 73 milhões de toneladas e ainda acima das 72 milhões de toneladas embarcadas em 2019. Haverá, na prática, retorno à situação anterior à guerra comercial, durante a qual o Brasil acabou concentrando os negócios com a China.

Em parte, a soja brasileira tende a ser beneficiada pela modernização da suinocultura chinesa – um processo que já estava em andamento, mas que foi acelerado após a Febre Suína Africana dizimar boa parte do rebanho suínos chineses em 2018 a 2019. A recuperação está ocorrendo gradualmente, mais intensiva em tecnologia e aumentando a demanda de grãos para rações.

A análise dos efeitos do coronavírus merece mais cautela. Não dá para ser leviano ao tratar de uma doença que já causou a morte de mais de 600 pessoas, colocou 60 milhões de chineses praticamente em quarentena e paralisou parte da atividade da segunda maior economia do planeta. A esperança é que as duras medidas de controle adotadas pelo governo chinês se mostrem eficazes. Se isso de fato ocorrer, a China poderá sair dessa situação sendo o que tem sido nas últimas duas décadas: uma economia em expansão, com uma classe média emergente e uma demanda de alimentos, especialmente proteínas, em crescimento – e que terá no Brasil um de seus principais fornecedores.

* SÓCIO-DIRETOR DA AGROCONSULT

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